Tuesday, October 04, 2005

Da Noite das Palavras

Da noite das palavras subo à flor espumante da manhã, amanhã.
Mais um dia consegui.
Trata-se de uma enorme vitória mínima.
Estou pronto.
A aldeia joga as cartas ao tempo.
O homem-rei-de-paus boceja no intervalo da lucidez.
A mulher-dama-de-copas cose a saia em casa.
O gato-valete-de-ouros brilha no escuro para matar de terror os duques-pardais.
A velha-manilha-de-espadas vai amanhã a sepultar, velam-na hoje na igreja entre círios e lírios.
Sou a sena-de-joker.
Estou-me a rir.
Jogo poucas vezes, mas assisto sempre.
Quem quer ver?
Eu mostro.


É de noite. O senhor da lenha recolhe ao casebre onde vive as horas definitivas da velhice. Já viu algum mundo: foi de excursão às Amendoeiras em Flor, ao Caramulinho, a Fátima e a Badajoz. Tem alguns vivos que lhe contrariam benignamente a solidão: sete galinhas e um cão, para além de incontáveis ratos malquistos no barraco da lenha e de, na cabeça, a recordação de milhares de juvenis ovelhas e cabras. Já no lar, em panela negra sobre trempe, coze uma posta de peixe-vermelho, a que junta duas batatas, uma cabeça de nabo e seis páginas de couve. Desrolhou entretanto o vinho, de que se serviu um copo. Esfaqueou a broa, de que leva agora à boca uma telha fina. A lâmpada do tecto constela de moscas brilhantes a habitação: os pirilampos da pobreza. Um sobrinho fez a ligação clandestina, o senhor da lenha não paga a pouca luz que gasta. Acabada a ceia, aliás, faz questão de desligá-la. Então, a choupana retorna-se milénia: um homem, um cão, um lume. Vive porque nasceu. Teve, jovem ainda, uma contrariedade de amor. A partir desse malogro, deu-se-lhe a inteligência do mais-vale-só. Aceitou a derrota. Cumpriu a tropa, regressou às ovelhas e às cabras, enceleirou os descontos para a Casa do Povo e atravessou meio século sem outra poesia que a de nunca ter sofrido uma dor de dentes. Ou esta ainda: ver passar o comboio. Ainda gosta de ver passar o pouca-terra. Saúda os passageiros invisíveis que ligam nenhures a sítio algum. O senhor da lenha está reformado. Não se queixa da esmola que o governo lhe cospe cada fim de mês. O senhor da lenha não se queixa de nada. Só esta noite, cozido e comido o peixe-vermelho, ele se deixa pensar um pouco menos distraidamente à lareira. Há mais de meio século, ele quis o amor da manilha-de-espadas.


Sobe, minha noite, tuas propícias dunas.
Resina-te toda, minha amada noite.
O teu vento branco nas tuas ervas púbicas, o teu cheiro a lua nos meus sovacos, a tua lama entre os dedos dos meus pés.
O teu corpo no meu.
Durante ti, saio à eira a respirar as tréguas de agora, entre círios e lírios, dormires.
Gosto de quando, e quanto, litografas de luar o catolicismo adormecido das póvoas.
Gosto (preciso) de saber que agora não, mas que breve rouquejará o galo a manhã muçulmana.
Recebe, minha noite de espadas, a ablução das minhas palavras inúteis.
Inúteis, sim.
Assim são, como todas.
Todas as palavras.
Como todas as noites.



Botulho, noite de 3 de Outubro de 2005




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