Thursday, October 13, 2005

O Jantar do Vendedor

Júlio Roventa, vendedor de máquinas de fritar, janta só no restaurante Desiderato, à saída da auto-estrada em trevo. Músicambiente: Nancy Sinatra, Barbra Streisand, Alcione, Los Malacuecos, Pai da Nancy e Tony Bennett.
Entra de queijo de ovelha, broa de milho, azeitonas esfregadas em alho, cebolinhas de vinagre. Mete água mineral e vinho negro. Sorve sopa de espinafres. Quis cozido. Mastiga.
Em torno, um grupo de saxofonistas repesca fanecas fritas de montículos de arroz branco. E um casal aposentado que lhe dá no lombo assado com batatinhas douradas e grelos. Saudades de Mueda, 1968. Um empregado de mesa e uma empregada de mesa. Ele, alto e quebrado e amarelíneo como um palito usado. Ela, cavalona roliça de 1,54m. Servem bem, com dois sorrisos estatísticos e uma expressão de joanetes dolorosos.
A noite avança para a heteronímia de balcão-frigorífico: mousses de chocolate e ananás, doce-da-casa, baba-de-camelo, pudinflã, 3sabores3, doce-de-bolacha, molotófe, salada-de-frutas-com-molho-de-laranjada-superfresco, bolo-de-nozes, alberto-caeiro e fruta (hoje só pêssegos). Júlio Roventa não arrebenta, mas, saciado um pouco de mais, procura encosto filosófico no café com conhaque-napoleão. Tilinta a colherinha no bordo cerâmico. Roda o balão, joão, na mão.
Atrás de tudo isto, quilómetros de estrada e um casamento estragado. Mantido a remessas de transferência bancária, porém. O mais velho tem 11 anos, a caninita apenas 4. Há que manter as aparências e as opulências de arregala-vizinho. Rita, a esposa-professora, galga namoro com um do directivo da escola, consabida associação carnal que só não mais alua por ele, o do directivo, ser também ainda e casado. Júlio sabe. Conduz quilómetros, factura roventas, cospe contra o vento da modernidade.
Uma tarde, ao quilómetro 118, parou a ver um incêndio. A GNR, muito fluorescente, muito rayban, comandava a fila. Ardia de bordo junto ao ráile. As chamas vermelhejavam como cunilingos, raivosas de resina: um espectáculo oximórico. Júlio lamentou a estragação ecológica, mas não se permitiu abandonar a estética do facto, que ardia. A noite que se seguiu ao incêndio parecia um casaco de cabedal com luzes. Ele lembra agora, sabe lá como, o incêndio.
No fundo, entristece. Piscou o olho ao 1,54m, que lhe devolveu uma insolência juvenil de comprometida. Isto de andar na estrada.
Depois é que é o carago. Quarto de primeirandar, pensão Primavera, vinteuros, águas correntes. O Rafael litografado sobre a cabeceira, a gardénia de plástico no jarro cagado das moscas, o capacho de ventosas no amarelo-porcelana do pólibã. O arroto a flã.
Piscapiscassaranica, minha pálpebra pesada. Pesadumbre, soninho vão. Amanhã tarda, hoje já não.
Nisto, ouve-se Tony Bennett. Ainda.
Botulho, noite de 12 de Outubro de 2005

1 comment:

Anonymous said...

Ai.