Thursday, October 06, 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Primeira Versão

É-me igual, agora: antes ou depois, igual. O corpo é o relógio do tempo do corpo. A biopsia deu negativo, mas as outras análises revelaram um fígado triste. Sem cancro para a troca, o médico, com uma severidade feliz, leu-me a bula hepática: “Anda aqui muito whisky, pá. Tens o fígado feito caca de pássaros. Hospital, quinze dias ou três semanas.” E eu, hospital. Assentei cama na especialidade de ornitologia.
Por exemplo, ainda esta manhã. Um domingo de Fevereiro. Esta manhã, vi pássaros. Um era negro, solitário e de boca amarela: um melro perfeito. Os outros eram um casal de peito cor-de-fogo. Todos eram livres, menos da obrigação de procurar comida. Os pássaros procuravam na relva. O sol explodia as duas acácias do jardim. Um cedro de troncos múltiplos pareceu-me uma mão firme cheia de anéis verdes. Fumei um cigarro durante o passeio. Só trago um par de cigarros no bolso do roupão. As pantufas do hospital, gastas de tão ancestrais, não se revelaram muito apropriadas para os passeios no exterior do pavilhão. Fui evitando as zonas afiadas do cascalho que borda os canteiros de flores. Como não tem chovido, o relvado não é uma ameaça para os ossos. Do chão, colhi uma folha de jornal com o mundo como o mundo era o mês passado. A enfermeira da manhã levou o grupo à cafetaria dos doentes. Um copo de café (bom, aliás) custa trinta e cinco cêntimos de euro. Já não há o escudo, que, multiplicado sete mil e quinhentas vezes, me dava um amor de motel. Os cigarros são ao preço oficial. Depois de almoço, voltámos à cafetaria com a enfermeira do turno da tarde. À noite, joguei a sueca com um colega ornitólogo contra dois adversários jóqueis. O Álcool ganhou à Heroína por dois riscos.
Quase todos temos filhos. Alguns ainda têm mulheres. Come-se bem. Pequeno-almoço frugal mas suficiente. Almoço bom, de carne. Merenda equivalente à primeira refeição. Jantar bom, de peixe. Antes de deitar, chá de casca de maçã com bolachas. Comprimidos são metidos para dentro com água do jarro. A temperatura interior é boa. Os quartos são aquecidos por radiadores montados na base das janelas. Cheguei ontem à noite, sábado, perto das vinte e três horas. Receava dormir mal. Dormi bem, afinal. Hoje, a sesta foi um algodão doce. No resto, deambulações amaciadas pela paroxetina. Tenho um livro para ler e outro para rever para a editora. Hoje, trabalhei pouco. Depois de almoço, peguei no décimo capítulo, mas o sono (o comprimido, talvez) estava a tirar-me acuidade. Fui dormir. Foi o que fiz melhor. Vi pássaros no sono. Conversei com os outros, integrando sem custo a comunidade de fígados filosóficos, a propósito dos divórcios repetidos a papel químico, do álcool universal, dos pássaros da manhã, dos comprimidos que engaiolam no sono da tarde a repetição dos pássaros da manhã, da carne do almoço, do jogo da sueca, do perfume a mundo exterior dos corpos casados ou solteiros das enfermeiras. Fumamos, ao fresco da noite, no terraço traseiro do pavilhão. As informações privadas vão chegando: de onde somos, por que estamos aqui. Para onde vamos, e quando, ninguém sabe. Nem os pássaros sabem, quanto mais nós. Só os gatos saberão.
Iço o olhar para o puré puríssimo das nuvens de um azul puríssimo. Terça-feira de Carnaval, H. foi-se embora. Pediu alta antecipada, assinou o termo de responsabilidade, o ex-sogro veio buscá-lo num mercedes velho de construtor civil com problemas de liquidez. H. tem um filho aqui em Coimbra, mas preferiu ir para Torres Vedras, onde tem uma filha mais pequena de outra mulher. Vimo-lo partir. Jurou: “Nunca mais bebo.”
P. recebeu a visita das duas raparigas dele: uma com o bebé dele de dois anos, outra grávida dele. Vieram no mesmo carro. São amigas.
C. também teve visita. A mulher trazia os papéis do divórcio para ele assinar. Ele não assinou. Ela aceitou ficar um bocado mais, deu-lhe tabaco e uma nota de dez euros, disse-lhe que o filho de três anos estava bem e que nem perguntava por ele. Gaja porreira.
Vi mais pássaros. Vi o mesmo melro. Adormeci mal, de ontem para hoje. Ou de ontem para amanhã: igual. Joguei dominó e damas com os outros como eu. Olhei mais para o céu. Ontem à noite, muitas estrelas nítidas. Pareceram-me iguais às de papel de que as crianças colam nas janelas das escolas. Hoje, as nuvens puríssimas no puré azul.
Na cama, revolvo o corpo no tempo. Os outros dormem ruidosamente. C. sopra pesadelos fanhosos de apneia. O velho M. suspira os nomes das filhas. Deram-lhe alta antes do Natal, mas nenhuma veio buscá-lo. Ele vai ficando. Viro-me para o lado da janela. O radiador emana sono. Recupero a menina de Negritarias, a ruça bêbada e nua dentro do volkswagen de miniatura, a montra poeirenta da loja do senhor Leal Casimiro, as minhas filhas, o touro de ouro, o sol que dava de chapa na igreja de Santa Isabel, uma sexta-feira de dezembro. E em vez do melro, a pomba.



HSC, Coimbra, 5-18 Fevereiro de 2005

2 comments:

Anonymous said...

Lindo, senhor.

Sandra Feliciano said...

às vezes pergunto-me se saberás realmente como me orgulho de ti!...