Monday, April 04, 2011

Ideário de Coimbra - 154



154. AINDA A MINHA VIDA HOJE

Coimbra, sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

É sem culpa que abordo um final, mais de um dia (a) menos. E é sempre pela primeira vez que amo, quando amo. Já algumas coisas (de)terminei, passo a citar:

- A pessoa é o sul da chuva.
- Já morremos todos, lá onde estivemos e a que não voltaremos.
- Somos sacos de vísceras apertados em cima por um olhar.

Sim. Recebo a maré da noite na praia do peito. Faz-se fria a Hora. Graniza-se areia o Instante. Sinto-me rumor de barcos rumando os Açores, a Madeira. Não estou para brasis. Não angolo nem moçambico. Sou daqui. As fanecas humanas fritam a pobreza: o desemprego, a escassez de referências a Pedro António Correia Garção (Lx., 29.4.1724; Cadeia do Limoeiro, 10.11.1772), a magreza da chuva tão semelhante à dos cães, os casacos também magros dos arrumadores de carros.

*

O marfim do rosto daquela rapariga: mar, fim. Sangrentas unhas de verniz-lacre. Lenço de seda colorida a tosse. Boca em bífido estilete: da fina labiação, dos dentes curvos e nicotinos. Pés por igual finos envoltos em camurça breve.

*

Se eu quiser,

Não sei ainda a minha vida hoje,

ouço alguém dizer ao telefone. Eu também não.

*

Desata o céu seus nós de chuva. Fria e agreste. No abrigo dO Nosso Café, ao Calhabé, disponho de, para ler em sossego, da Cantata de Dido e Outros Poemas de Correia Garção (selectos, prefaciados e anotados por António Correia de A. Oliveira, Professor do Liceu de D. João III, em Coimbra, para a lisbonense Livraria Clássica Editora em 1943) e de Avieiros, de Alves Redol. Já a noite se consumou, príncipe. Homens (quatro) tremoçam-se e cervejam-se em mesa próxima. Batata-frita-se um adolescente já serôdio em outra. Agora, Redol, que desconfio ter sido bom homem.

*

Redol (em Caxias, Novembro de 1967) preambulando Avieiros:

Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem-se. Ou inventam-se. Mas escolhem-se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

*

Porfio por um fio.

*

E no Zé Carlos do Viaduto uma conversa sobre marcas de bebidas importadas e importantes. Já não chove. O frio é a cerca mandibular em torno-ferro dos corpos. Posso ouvir, sei escrever: nem posso nem sei, porém, viver.

*

(…) ainda a minha vida hoje (…)

*

Liga-me o doutor João Saraiva pinto. Alteração da noite de sexta-feira. Ir jantar-conversar-ouvir a Miranda do Corvo. Autocarro das 19h56m, por desvirtude da desabilitação do ramal ferroviário da Lousã, às descustas deste socratismo obsceno que vivemos. Lá irei, estarei e serei.

*

A vida anota velas brandas e pandas.
Há uma pequenina miséria, imanente sempre,
entre a própria e a demais gente.
Não há?
A vida etc.

*

A glicínia parece, consigo mesma,
pétala e nome de menina.
Já a gardénia é mor senhora,
duquesa de lavoura e outra coisa.

A poesia é uma floricultura.
Jacintodàgua-se à fartazana.
Certos, cultivam-na por cultura.
Outros, só aos fins-de-semana.

(Mas, por ser sexta, hoje de novo se me ela pretexta.)









1 comment:

Joaquim Jorge Carvalho said...

"- A pessoa é o sul da chuva.
- Já morremos todos, lá onde estivemos e a que não voltaremos.
- Somos sacos de vísceras apertados em cima por um olhar."

Eis, portanto, o ouro de que falo quando falo de Daniel Abrunheiro. Para exemplo serve - e sobra!

Espanto, isto é, espanto, isto é, espanto.