Wednesday, April 20, 2011

Ideário de Coimbra – entradas 176 – (fragmentos da penúltima entrada do livro) – e – 171 (fragmentos também)




176. E SE OS VIADUTOS INCANDESCEM A NEGRO SOBRE AS ÁGUAS DA PASSAGEM?

Coimbra, terça-feira, 1 de Março de 2011

Estive aqui uns versos, insensata equalização da minha vida. Não sei nem que nem como vou fazer dela, da minha vida. Talvez mais uns versos.

(…)

Esperamos todos a neve.
Ela virá, ela será.
Locomotivas sem passageiros troam
em nossos corações-plataformas.

Comemos ovos, ervas, dedadas de cal.
Imaginamos arábias douradas, andaluzias
nunca porém confirmadas
pela passagem dos dias.

(…)

Ao sol em anil: o eu-corpo. Passagem vespertina das vidas, digo, pessoas em paragens de transportes: gado melancólico portando comoventes sacos com fruta, algumas moedas, pentes, corta-unhas. Isto em Coimbra, durante a vida, um fim de tard’ia.

(...)

Uma ninharia de ratos, as ideias.
A declinação da saúde no latim do corpo.
O torso envolto de seda: a febre.
Os pés lá ao fundo sozinho da cama.

As mulheres ao fundo sozinho da História,
a economia delas, os segundos-andares
em cidades sem bibliotecas nem depois.
Eu apesar delas na névoa matricial.

Sou de películas dadas a secar a vermelho.
Sou da poesia e de mais ninguém.

Inclina-se, suave, uma cabeleira-canavial:
e tanto me basta para ser eufórico e lento.

Só que o dia virá em que de novo
terei os pés vestidos de areia de ouro
molhada de sal, terei, de novo, um dia.
Não sei se terei, mas digo que terei.

(...)


Digo que terei. Frequento em morenidão
as casas-de-pasto: cavalinhas, filetes,
homens utentes da solidão, estiletes,
que fundo penetram no coração.

Olha: tornei-me um homem tipo-Arregaça,
não me escusaram os livros de tal.
A Arregaça fica em Coimbra, Portugal,
e dali não sai. Sou aquele que, por graça,

também (ainda) não. Sigo que serei.

(…)

A criança é psicoamniótica na calda maternal.
Sim, o feto é completamente astronauta.
Os relâmpagos de infância são cosmovisões.
A velhice outona os gestos, doura-os, encastoa-os.

Leitos secos que as pedras cobrem de ferro.
Tangerineiras urdindo verdes cabeleiras.
Os amigos da criança quase cinquentenários.
Os filhos deles repetindo equívocos.

A minha poesia nunca foi sobre mim, querida.
Sou apenas o veio-de-transmissão das leis
motoras. Preside à minha insuficiência a vida.
Acho mais piada a ornitorrincos, porém.

Saio, manhã muito cedo, do leito.
Atiro-me à rua, faço-me sombra entre sombras.
As coisas nem acontecem: são coisas apenas,
lances que alguém diz a alguém que não ouve

e faz o favor de esquecer. A criança é.

(…)

A altura do mar é toda olímpica: uma pessoa
torna-se índica e pacífica a tal altura.
Sim, eu já fui a Lisboa.
Não, não tenho cura.

A lenha d’aldeia pinta oitocentismos.
Uma pessoa chega a casa e enxuga-se.
Sim, eu sofro sismos.
Mas a pessoa cura-se.


171. RATO DEIXADO POR CONTA PRÓPRIA

Coimbra, segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Existo. Uma pessoa existe. Como adentro o sono de uma ave, uma pessoa existe-me. Não sei que seja feito do esplendor de outr’horas. E quando as coisas mundiais se parecem com sentimentos? Ai queres exemplos?
Uma tampa de saneamento igual ao desespero;
um chapéu de cigano como um enfarte;
um morango tal um coração sem rola;
os políticos quais fanecas enfarinhadas e fritas;
a tua boca: lâmpada rubra.
Viste? Então,
existe.

(…)

Agora mesmo: para sempre, desde nunca.

(…)

Um dia grisalho, em Coimbra. As árvores escurecidas, delas os ramos emaranhando esquemas eléctricos contra o fundo alto de lousa-grés do céu.
A beleza triste das mulheres. A triste beleza dos homens. A nota azul de um prédio. Eu deveria ter escrito cartas ao meu Pai enquanto era tempo. Digo: poemas. Ele sabia quão grisalho haveria (e houve) de ser o futuro. Pássaros debicam miudezas no relvado ao pés das tileiras. Táxis abordam a circulação venosa dos destinatários (que ele há vários). Uma parede tatuada instiga-me a votar no BE, mas eu só faço pé-de-alferes à lentidão da metafísica. Eu ando aqui para me enganar nos outros. Sabes, a violência do nada. Sabes, o ouro de uma cordura. Uma mulher doente, atapetada de azul, tosse à passagem-de-nível da extinta da Linha da Lousã. Um cavalheiro, vermelho como um insulto, acarreta colesterol, chapéu-de-chuva e uma embalagem de amoníaco. Se chover, como farei? Há momentos (em) que não sei. O vórtice cósmico é quantas vezes cómico só? Uma mulher de unhas compridas a ler o Diário de Coimbra. Um rapaz vestido de mau cabedal e de olhar quadrado como uma teimosia. Eu vejo. Não: eu escrevejo. Era isto. Agora vou ao Zé Carlos do Viaduto, a gente depois fala.

(…)

Sábado passado, estive, quê?, duas horas com a minha Leonor. É a minha filha mais cedo nascida. Atendeu o telemóvel, certo instante. Disse ela, à passagem:

– Estou com o meu Pai.

E eu sei que ela disse aquilo com maiúscula.
E eu fui feliz como um rato deixado por conta própria numa fábrica de queijos.
Fui, fui.

(…)

A minha boca é o meu olhar:
vejo com a Língua.

(…)

Amei-a ao contrário das pessoas.
Os animais sentinelavam a casa,
a memória também,
como também os fantasmas.
É uma questão respiratória:
quanto mais amas, mais asmas.

(…)

É estranho: sempre que penso numa mulher, é na minha Mãe que penso. Não tem nada a ver com Viena de Áustria, Doutor Freud. Tem a ver com o Amor. Uma pessoa existe. Como é que é? Como veio? Uma mulher, um homem etc. Leite, ovo. Vinho em night-club. Velas. Encadeamento. Encadernação. A poesia possível etc. Uma pessoa nasce. Eu não. Eu renasço. Tenho a Mãe doente. Mas agora vamos imaginar que penso noutra mulher. Vamos imagiquê? Imagiquem?

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