Monday, April 18, 2011

Ideário de Coimbra – 162. MUS(EU) – fragmentos vários

Coimbra, segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Com as horas e os anos, volve-se o eu museu. Uma abrasiva voragem toma conta do estaleiro pessoal. Fagia do tempo fluvial, sono tão da morte propedêutico, êutico, eu, tu, tu a ti, tic, tic, tic, tac.

(…)

Não me sinto só entre sós.
Sinto-me, só.

(…)

Laranjas e limões citrinam a circulação do sangue, é tão bonito assistir ao fervor esmaltado dos eucaliptos, Portugal é uma coisa vegetal entre pedras e águas, as mulheres rebrilham de botas púbicas, as gerações instauram-se como estádios, tornam-se adverbiais as alternativas a isto & isto mesmo, não é fácil sofrer a evidência mortal (e mortífera) das casas encerradas para sempre, se madrigais madrugais entre e ao cabo de outras coisas mais.

(…)

O senhor João Ara S. lendo o jornal desportivo, os olhos dele de cor azul-atónito. Sapatilhas de menino em pés de homem, os dele, ele-homem. A escassez de recursos, a biquita, a barba por raspar, o pêlo na venta e o tufo na orelha. O cigarro pobríssimo no duplo estilete labial. A camisola azul-bebé envolvendo o ventre nutrido a calduns de banha de porco. Calças de dormir-com-elas-vestidas por falta de mulher no pré-fabricado. A mãe dele morta há dezassete anos fazendo-se sílex na terra argilosa da lá-santa-terrinha. Eu a olhar para o senhor João Ara S. como quem se mira ao espelho.
A senhora Magda Lena T. de nádegas-em-cera, dela as tangerinas peitorais murchando-ando-ando. Entanto, certa macieira-nefertiti em as faces, cujo carmim vale por toda uma natural cosmética, dado o afluxo de sangue-rosa à pele-pétala. Ela lendo uma revista cor-de-rosa. É de orelhitas de coelho-miniatura. Olhos castanhos, daquele castanho-mocidade-fascista. Nascida na Alta demolida, residente agora em Celas-as-Velhas. Sozinha como um cão (ou um pianista). Eu a olhar para a senhora Magda Lena T., querendo tão-só acasalá-la com o senhor João Ara S.

(…)

A alma – quase um funcionário me parece ela.

(…)

A senhora da banca de fruta: roliça-couve, de mamilos-medalhões-de-vitela, rins-que-chiam-como-ratas-úricas, grossos pés-de-faiança-venosa. E cravo de seu jardim. Algum homem a terá amado decentemente? Pergunto-mo. A esta mulher de Coimbra, algum homem terá aleitado em cordura? É que às vezes as pessoas mais merecem gardénias do que vénias ou ténias. Às vezes, as pessoas são ofuscantes como tardes-de-eternidade-egípcia.

(…)

Recordo tardes obliteradas de outros fevereiros. Eu era moço, a vida estava marcada para o dia seguinte. Hoje tornou-se ontem, esse anil.

(…)

Pessoas que entram e ainda desejam, proferindo-a (e preferindo-a), a boa-tarde a quem esteja e está: gosto de assistir-responder a tal. É uma espécie de fé, a educação. Digo: o civismo da cortesia. A delicadeza por ela-mesma. Uma espécie de doutrina, digo. Fez isto este homem. Éramos quatro no estabelecimento: o casal proprietário, o juiz reformado e o quase-poeta Daniel Abrunheiro. Uma lambidela de açúcar tocou-me a língua (e a Língua) quando, adentrando-se o senhor, disse:

– Boa-tarde!

Estou aqui a opuscular sobre esse recebimento, esse honorário emolumento, essa gratificação, esse solário salário. Uma junta de pessoas. Um cacho de frases (anémona de versos). Recebo retratos antigos sobre cómodas de bordados. Assimilo o bolor-mofo das despensas onde os novos ratos e os alumínios antigos. Em frente, o salão do Bingo espera a noite. A Noite é pontífice sempre. Não é, Jorge?

(…)

Sou um homem português entre laranjeiras idem.
O meu tempo foi-me dado por meus pais.
Habito o invernáculo pluvioso onde residem
soluços e tosses & suspiros e ais.

2 comments:

alberto canossa said...

Quando precisares amigo, não hesites em me procurar! Não esqueço quem me quer bem, assim como te quero bem! Não sou muito de leituras mas todos os dias passarei aqui, para ler, o que escreves e assim matar as saudades da tua força no nosso Português. Obrigada por tudo amigo... Abraços Alberto Canossa

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Bem o sei, Alberto. Contarei sempre CANOSSA amizade.