Tuesday, April 26, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 3

© Andre Kertesz
Wandering Violinist, Abony, Hungary, 1921



3. CAMINHO DO QUARTO-CASA

Coimbra (Associação Recreativa da Casa Branca), domingo, 20 de Março de 2011

De novo, ou ainda, cresço para imagens mentais
com que a pessoal volumetria estabeleço, querida.
Pano de laranjeiras recebe em cheio a Lua Cheia.
As pessoas – ou são muito felizes, ou nem pensam nisso.

Ou nem por isso. Deixo andar: é domingo, anoiteceu,
vi hoje o Rio, ele cintilava través os patos boiando,
era bonito e triste como quase tudo na vida,
querida.

De momento, estou livre para novas, ou ainda, incursões
no escuro. Manobro orquestralmente, às claras.
Isto podia ser pior do que os ontens, querida
– e nem sempre é possível recorrer à voz.

Uma casada de cabelo palha-incêndio, aquela,
mostra imaculadas unhas ao cabo de alvos dedos.
É senhora sem medos: atira sorrisos desenhados
a cinzel na pedra da conversação masculina.

Reparto os despojos dos nossos defuntos velhos.
Uma pouca louça, cobertores, uns poucos livros, pão.
Estamos, mortos eles, no topo da carreira.
Isto é natural, é assim que tem de ser – e é.

O poder palavroso da tristeza merece paciência.
Merece-a sim, querida: olha-me estes tantos prédios
urbanos desafiando a eternidade glauca do Tempo.
Uma igreja menor, uma gelataria, domingo à noite

recolhendo crianças divorciadas a ninhos de saias,
carritos irrelevantes parados nos semáforos sanguíneos,
um faz-por-ti-mesmo, um tem-te-não-caias,
o terror dos sonhos os mais longilíneos.

Ouve a Lua, o rumor dos cães, ouve comigo o rumor
da Lua, ouve os cães comigo. Verifica, a meu par,
a violência verbal da ignorância dos homens, deles
o rumor lunar, canino, violento como eu te sou.

Tentar dormir suburbanamente no escol de mendigos.
Ser uma pessoa derivada-ao-facto, uma é-assim-pessoa.
Estas mantas pesando nos ossos transparentes
como retinas de égua-madre – ou como água,

apenas, Mãe.
Algumas (muitas) vezes, patadas de pus na base do
coração, querida. Outras, por minha vida, não.
Frango guisado com massa, bolachas de água & sal,
um quarto iluminado a roxo numa (c)idade de Portugal.

Volveram já porém as andorinhas ríspidas e rápidas,
fulgura já o centeio solar em medas de trigo-luz.
Sim, querida, que nos valha Jesus: tépidas
águas caminho sobre, caminho do quarto-casa.

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