Tuesday, April 19, 2011

Ideário de Coimbra - 164 (I) - UM TEXTO DE 16 DE DEZEMBRO DE 2010


Amedeo Modigliani  (1884-1920)
Retrato de Leopold Zborowski (1916)

Coimbra, quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Era ridículo, agora já não tanto, mas era ridículo o que eu era e o que eu pensava. Outras pessoas podem andar toda a manhã com um fragmento musical na cabeça, mas eu não, eu andava todo o dia com, por exemplo, as palavras (anémona) e (begónia) na mente – para nada e por causa de nada, só porque sim e para nada. Cultivava em silêncio os meus sentimentos como uma mãe-de-família pensa noutra coisa quando irmana peúgas ou pana filetes de peixe branco. Já não me acontece tanto, não já tanto. Arranjei um emprego, mudei de quarto e de bairro, almoço numa casa-de-pasto abençoada pela esterilidade filosófica, bebo o meu vinho e como o meu pão – e leio muito menos, o que me resulta no melhoramento da pele e dos sacolejões da tristeza. Ainda me acontece pensar um objecto com um verso – e então é inevitável a palavra (coloratura), por exemplo, ou então a palavra (visco). Uma mulher chamada Lúcia, testemunha ocular de um crime de sangue, chora no televisor, o que me distrai deste trabalho. Depois regresso à órbita (poeira, astro) e olho as coisas que há no mundo, sobretudo pessoas, as pessoas-coisas, que são minhas irmãs, os corpos velocistas dos pássaros, a paleta dos jardins, o estádio de futebol, os cristais das montras, os espelhos-de-água, os sentimentos que alguém nutre contra o apodrecimento voraz da democracia, os cães castanhos que nos olham com olhos de mãe (peúgas, filetes). Devo ser um coração pasteurizado, por assim dizer. A maior parte das vezes chamam-me (Você), o que é um bom nome, um bom neutro, um excelente modo de ninguém. O trabalho vai-se fazendo, caixas conservam coisas, mecanismos articulam funções necessárias à sociedade, o Natal sucede ao Verão, viajantes largam docas a caminho dos respectivos sóis-poentes – e a beleza é, em geral, de uma inutilidade invencível. A questão das prostitutas é outra coisa. Frequento-as, por assim dizer, (em jasmim). Aceito-lhes o nome artístico (Cindy, Ruth, Soraya, Minnie, Rachel), uma vez por mês dá doze amores de aluguer por ano – e eu tenho já alguns anos-calendários a benefício de inventário e a golpe de misericórdia, Marguerite. Já o quarto, o quarto tem serviço de cozinha e logradouro de banheiro. Dá para ser abelha consciente da colmeia: quadriláteros eléctricos na noite da cidade. Quem quiser, que me acredite: é aos domingos que acordo e saio mais cedo: a solidão é (urbi et orbi) totalmente. As palmeiras importadas zunem o seu verde diferente. Num relvado, alguém vomitou feijão e sangue. A felicidade quase me sopesa o coração. Antigamente, nem tanto. Eu era mais torre-de-Anto antigamente, o que, aliás, não deixa de ser nobre. Sexo, comida, agasalhos têxteis e provas de vela fluvial vieram acudindo-me ao borboto da respiração, mas tenho disfarçado bem. Alguma coisa vem mudando no meu corpo, sinto isso quase confusamente, um pouco como se da monarquia da infância e da república da vintena de anos eu tivesse passado a uma espécie de confederação melanco(ó)liça. E quando assisto ao aparato de uma morena de botas de couro preto altas, assisto à palavra (jarro), mas digo (porcelana). Há um juiz aposentado em um dos meus pontos fixos do meu percurso (bebedouro). Ele é o tomador de café-com-leite e de bolos patas-de-veado. Dizem-no viúvo, mas não lhe noto qualquer contrariedade na emoção. Reforça-se de bombazina contra a geada de viver. Eu assisto, e depois um ano passa (Natal, Verão). Os sapatos duram-me épocas. O teatro local é fraquito, os circos revezam-se em trânsito de tigres ferrugentos, a misericórdia oficial gasta santas casas, nas farmácias os homens-caixeiros envelhecem depressadepressivamente, é um horror pensar no que por aí vai de cancros e de orfanatos, vale-me que nem penso nisso por aí além. Dantes, pensava mais, acho eu. Também me ocorre recordar casas pejadas de humidade como mulheres grávidas ou apenas excitadas. Isso era ridículo, claro, mas não é perdão que peço, nem literatura – não peço nada nem espero seja o que for. Setembro dourará os frutos, o anil fluvial educará rio no verde-azul de sempre, as meninas (campainhas, compêndios) escolarizam as terças-feiras de Novembro, quando eu não tinha ’inda vindo para ser apenas este – ou isto. Nem a minha Mãe pode fazer já o que for contra o facto de eu ter lido. Pessoas de outros países frequentam os hotéis da nossa pátria, incorrem em vilegiaturas museológicas, interessam-se pelo que aqui se fez de pintura, artesanato, hidroelectricidade, basquetebol (xisto). Crânios femininos amazoniados pela quimioterapia enlençam-se de chita (Festival RTP da Canção), nos autocarros os sobreviventes fingem não reparar no humor cronométrico das metástases, eu agora já nem ligo tanto, sou mais a favor de outras causas perdidas como o casamento homossexual e a taxação abusiva do recibo-verde. E esta é quanta verdade posso apor, ou opor, à invencibilidade da tristeza, essa areia (vidro) da praia do nascimento. Nas revistas de papel mais caro, rejubilo com os perfumes franceses e a publicidade aos relógios, deve ser tão bonito trabalhar com bons fotógrafos e com editores sérios e paneleiros. Mas eu não tenho nada a ver com isso, não sou romântico nem acredito no amor, nem em Deus, nem no Deus de Amor, que é uma terra perto de Leiria e que se lê com acento grave no A. E uma quinta-feira, noite adiantada já, abandono-me a nada e a ninguém no café do bairro que fecha mais tarde – e outros como eu (homens que ficaram sós sem apurar porquê, por distracção talvez) entram e saem, fumam, debicam empadas de galinha (mas é frango, não galinha verdadeira) e cálices de uma mistela poderosa qualquer (bílis). Eu quase não leio, consigo aguentar-me no quase, faço por não pensar coisas ridículas (ventura, esmeril), vou adiando o retorno ao quarto, à cama, à brutalidade (vilipêndio, estigma) da solidão. Conto as moedas que me restam, às onze e quarenta (vinte e três e quarenta) tenho ainda para mais três doses de qualquer coisa pela qual a humanidade trocou o fogo. E depois não me é possível continuar aqui, pago e saio e mudo de bairro, nisto a meia-noite regela as ruas que ambulo, por onde raros carros tripulados por mais e mais homens sós, cada vez mais sós, como se isso fosse possível ou legal. Desactivaram a linha do comboio suburbano, sigo por ela como quem adentra uma metáfora da existência, lixos envelhecem o chão, a isto nem se pode chamar tristeza, talvez (pusilânime) ou (exangue). E nisto descubro um café com nome de santo católico. É um em que se pode fumar, a iluminação não é grande coisa mas pode-se fumar. É um bebedouro povoado de cidadãos apreensivos. A televisão arde para ninguém, há som-ambiente que adensa a névoa dos cigarros e dos pensamentos com que esta gente se ocupa e preenche para nada e para ninguém. E a sexta-feira entra, confirmando o teor de ontem de todo o amanhã. Uma rapariga, cuja cabeleira ressuma azeite cosmético, levanta-se do canto, dirige-se à máquina do tabaco, abastece-se, regressa ao lugar abrindo o maço, que é azul-escuro como uma nódoa ou um hematoma conjugal. Nomes de cidades estrangeiras aparecem no televisor, logram por instantes iludir o meu mundo (restrição, aspereza). Outro dia (qualquer, exuberância) na calha da azenha licorosa do Tempo (portanto resignação, valência). Cumpro as horas, não evito por vezes uma emoção penitenciária. Sei que estou a entregar o meu corpo ao Tempo. Sob uma larga nespereira, dois homens conversam. Eu estive para dizer (efabulam) – mas não sou já tão ridículo, tão douradamente mesquinho. Falam de dinheiro (ouço-os bem daqui), da saúde das respectivas mulheres, de cães venatórios, de perdizes, de Lisbo’antigamente. E na antemão de um almoço mais surge-me pensar (E se eu tivesse tido filhos feitos por amor?) – e então a tristeza bate-me na cara como um trapo (um pássaro) molhado. Conheço uma mulher positiva como um relógio. Ela urde pratadas de bacalhau com a ilusória negligência quotidiana dos analistas laboratoriais. Ela emana humanidade. Na serventia da cozinha de que disponho, conservas fazem de biblioteca: grão, feijão, pickles, cavalas, salsichas, sardinha atomatada com picante, brinquedos alimentícios da solidão. As minhas divorciadas são anticorpos. E a virgindade só é relevante para o segundo que chega em terceiro. Estas coisas duradouras na cabeça douradora, dor a dor. Um casal raquitizado, seis décadas de solidariedade alimentar, certa troca de humores, incerta fusão de linfas, cada um dos dois filho de pais idênticos. E uma noite de domingo desperto a horas altas – ou fundas – e sinto que a morte é muito mais física do que metafísica, tinha cobertores a mais, uma cachoeira de sangue refluiu-me os dentros do corpo de baixo para cima, das coxas para a cara, durante não sei quanto tempo não respirei, depois respirei fundo para oxigenar quanto coração podia. (E, como azulejos únicos numa parede rebocada, as palavras Cão, assim em maiúscula, e tirocínio.) Ou então – mas é depois – um tempo como que feito de gesso, gesso aplicado à forma da cabeça que sente mais do que pensa (hectolitro). E, nisto, a Pensão Brasília em plena Praça do Conquistador – ou a, aliás mais reles, bem mais reles, Pensão Madrid da idem dos Navegadores. Esse (um) tempo que me liberta de qualquer responsabilidade, de qualquer tempo e qualquer peso. A memória como gesso – e como explicar isto às crianças (a vós) de oitenta anos? Mas é que às crianças de oito anos pode, por igual ou semelhante ou idêntica identidade, acontecer a vontade de morrer ao surgimento do lento-vento do entardenoitecer, a mim aconteceu-me, só posso crer por supor que (a voz) também.

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