Monday, April 25, 2011

ESTE DIA, À PASSAGEM - Coimbra, terça-feira, 15 de Junho de 2010



Que a vida não é estadia – é passagem. Que a vida não é estadia – é este dia. O dia que vivemos – pode ser o nosso primeiro como o derradeiro nosso. Grande parte do encanto dele reside nessa incerteza e em tal falta de certidão.

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Fui esta manhã, quase de fugida, ao Louriçal. A Jessica tem exame de Português amanhã. É uma menina encantadora, os nervos afectivos (e afectuosa) à flor da pele – flor da flor. Gosto muito dela. Escreveu uma composição sobre a importância do Avô na vida dela. Fez exercícios de pontuação, hifenização, acrescentamento e supressão de sons (aférese, síncope, apócope; prótese, epêntese, paragoge – tenho de lhe ensinar a haplologia). Agora, a minha vida volta a ser Coimbra. Ei-la, luminosa e rosa, melhorada pela constância vívida do Rio, aérea de pontes, funda na altura do amor (como todos, insensato amor) que lhe tenho.

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Vejo uma mulher jovem. Tão feminina, caramba, tão feminina. Açucarada geometria lhe enforma as ancas de viola. Boa tez de recebedora solar, lábio carmim, toda alabastro de nervuras, mãos longas quase – mas quase só – de mais. Calça feltro, andando como se sobre papel japonês. Telemóvel igual a um que tive em outra das minhas tantas vidas. Olhos grandes, olhos ruminantes, negros, envernizados a água. Ela pensa. Vê-se ela pensar. Blusa de linho branco, que lhe assenta azul como uma nuvem no céu de Junho. Criatura de uma limpidez que faz bem olhar. Vinte e muito poucos anos – como as minhas filhas, não tarda nada.

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Teleporta-se-me o pensamento até bandas do Picoto. Picoto é nome de monte – quanta montanha que a minha mocidade pôde. Tenho de voltar a pedestrá-lo antes que os patos-bravos, desprovidos de qualquer urbanidade, o urbanizem. Território emocional, totalmente território emocional. Os Amigos-para-sempre exploraram-no comigo. No planalto coroado pelo marco geodésico, futebolou-se muito. Jogou-se muito à bandeira, subiu-se muito papagaio de papel-de-seda, meia cana e cola artesanal de farinha em água. Que importância terá isto? Nenhuma e toda. O Américo enterrou nele o cão chamado Dourado. Nele medíamos, ao cotejo, as peles das piças. Éramos meninos todos, toda a gente era a meninice toda. Calçávamos botas de borracha, envergávamos capas de plástico sem nada escrito, pescoçávamos colarinhos de popelina ao norte de camisolas à poveiro. Os invernos não eram, então, uma algia d’alma. Eram tão-só a falta de andorinhas. Todos os pais eram vivos e robustos todos. As mães todas, todas eram sopeiras caridosas que por vezes nos esbofeteavam em transes do mais puro amor. Sou da Pedrulha, sim – mas é provável que, mais ainda, seja do Picoto.

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Se retornares ao país devastado da minha vida
(esta noite, por exemplo),
toma comigo um café-creme, de baunilha
uma bolacha, um hausto finiprimaveril.
Tenho de noites, sabes, mais de mil.
Manhãs me não têm faltado, excepto
a de vires de noite.
E eu de lume ’canço sinais,
como o António d’Alfama,
até no duro gelo.
Perlada de frio suor, a minha espinha
é a deste homem que sou em corpo,
escrito sobre tudo o mais, à guisa
de melhor destino.
E assim sem ti me tem sido desde menino.

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Passo perto de estendais com roupa a enxugar. Cada camisa me acode uma crucificação. É tudo forma sem corpo – como vidas (despro)vidas de sentido. Não achas isso, João Saraiva Pinto? Não vês assim, Joaquim Jorge Carvalho? Não é mesmo tal, Rui Antunes Correia? Só pode ser, não é, Fernando? Penso que passo sempre, perto de quase tudo – mas nunca entro. (Isto, à excepção de alguns feminis convívios edulcorados dos meus vintes/trintas.) As mães penduram as intimidades na cord’arame: a trivial cueca, a meia calcânea, a ceroula rude, o desmantelado soutien cor-de-ir-à-loja. Os bairros são todos a preto-e-branco, excepto nos estendais: grita lacre camisa axadrezada de azul; plasma índigo a calça tipo-levi’s; emana sabão esfregado a peúga roxa; e é toda uma aquarela pobre que meus não ricos olhos deslumbra.
Sei que vou por aqui: Coimbra, quintais e estendais e vendavais de renda limitada. No fim do Outono de 2001, a par do meu Amigo Tiago Fernandes, pintei o Bairro de Celas-a-Velha, fácil labirinto de casinhotos murados que o nunca por de mais cuspido e vituperado Estado Novo mandou construir na sequência da destruição da velha Alta por causa da Universidade. Pintámos os muros a branco e as grades a grená. Denunciei, com óptima consequência, a uma televisão populista o caso da Estrela. Antiga pastora, vivia reclusa na casinha que lhe coube. O chulo de um sobrinho (ou afilhado, ou a puta-que-o-pariu) alimentava-a a café chilro e a fatias de pão velho. Trancava-a. Fazia da casa dela armazém das grades do café-assa-frangos que ali explora. A solidão e o doutor Alzheimer maluqueceram a Estrela. Estrela Barros. Velhíssima, disse-me assim:

– Estou à espera que o meu pai volte, hoje está-se a demorar, o meu pai, o meu Pai.

Telefonei para o tal canal. Vieram. Telefonei para a PSP. Também veio. Lixei o esquema ao filho-da-puta. Ainda hoje me sorrio disso. Levaram-na para um lar decente, mas suponho que não encarceraram o parasita na casa mesma das duplas grades: as de cerveja como as do cativeiro da Estrela.

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Centelha de ar fresco em um dos flancos do eu-corpo. À passagem, que nunca à estadia, a centelha d’ar. Revoa em torno a formiga-de-asa: pópulo-coimbra. Carritos, senhoras infiéis ao sacro mapatridemónio, criancinhas-bibes, laranjas públicas – e a RTP Memória outra-vez-outra-vez-outra-vez-outra-vez Júlio-Nicolau-Isidro-Breyner. Eu nunca fui a Praga. Irei jamais, o mais provavelmente. Oslo já foi Cristiânia. Independência da Noruega, 1905. Olha a Rua Afonso Duarte, poeta que Carlos de Oliveira venerou. Olha esta indecisão: nem sol, nem água. Barrolamacenta melancolia tempestiva, jura de cordas d’água nas persianas, langor dos divórcios, filhos deitados à voragem-lixeira dos cursos técnico-profissionais. Centelha de ar fresco etc. Tal é a vida que, indo, (le)vamos.

3 comments:

Manuel da Mata said...

Gosto destes textos todos, que li de seguida, como se tivesse sede de três dias. Grande prosa. Grande poesia.E tantas coisas que vou sentindo e intuindo quando te leio!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

A verdade é que os escrevo para ti.

Manuel da Mata said...

Sim, eu sei que escreves para mim e para outros amigos teus. E para Teresa e Leonor, ou antes, para Leonor e Teresa, que é assim a ordem natural das coisas.Força.
Abraço.