Monday, December 29, 2008

Rês ao Mar


©
Bill Brandt
East Sussex Coast, 1957



Casa, Souto, início da tarde de 29 de Dezembro de 2008



Parece-me haver horas puras como reses.
Uma noite, vivo uma delas.
Fechado em casa, distingo da vozearia do mundo um som único.
Pode ter-me chegado da costa, vindo do infindo mar.
Pode ser da ânsia do mar.
Também pode ter sido alguém num quintal perto.
Alguém sozinho num quintal perto, na infinda noite.
Alguém, portanto, perdido no mar.

Ouço vozes.
Uma voz é suficiente para estabelecer uma pureza fria: infinda.
As vozes das reses têm essa operacionalidade.
As reses estão fechadas nos quintais.
Pensam nos pátios como se estivessem ’inda nos campos.
As pessoas estão fechadas no mar.
Os afogados estão fechados nas casas.

Coelhos e estrelas,
mulheres estendendo roupa como se vestissem o ar,
domingos e domingos amarfanhados como papéis
(números de telefone imprestáveis, perfis de árvores a lápis),
enguias e sinais de trânsito,
homenzinhos solfejando pássaros de alta-tensão,
cedros com todo o ar de pulmões expostos,
as nervuras orelha-de-coelho das parras,
a fosforescência das crianças sonâmbulas,
o antiguecer das unhas sem volta a dar,
alguém perdido num quintal perto,
a rês infinda no mar único.

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