Sunday, December 28, 2008

Mães Portuguesas outra Vez

© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós,
21 de Dezembro de 2008



Casa, Souto, manhã de 28 de Dezembro de 2008





As mães portuguesas nascem primeiro avós,
só depois (não muito) devêm mães.
Mães
da autofagia dos filhos,
da estupidez gregária das galinhas,
do porco solitário,
dos homens-netos a quem admitem o acasalamento
e a degola.

As mães portuguesas sabem de lume como ninguém,
nem aqui nem no estrangeiro.
Elas como ninguém engendram o coração da lareira,
onde as madeiras oliva e pinha urdem o rubi rútilo.

Resistem à saúde do idioma e à moléstia da literatura,
não são nenhumas maricas de versos nenhuns.

Na arca, salgam mantas de toucinho e tranças
de anteriores como elas avós.

Têm com a Mãe de Deus uma diplomacia de clones.

Nada lhes escapa ao almanaque:
cónegos e coelhos, frangos e fregueses,
vasos e veias, rios e frios,
bailes e bules, cidras e hidrocefalias,
câmbios e cambras, juncos e junhos,
ossos e destroços, vinhos e tinhas,
moucos e loucos, manhas e manhãs,
censuras e tonsuras:
nada pode furtar-se às avoengas evas.

À distância, semelham carvão envernizado:
sombras de sombras que confirmam a luz derredor.
De perto, porém, instauram a fixidez do bálsamo,
mãe-múmias urdindo os egiptos de uma eternidade
que não pediram nem amam.

Sofrem de contabilidade e de falta de música.
Rijas como ventos gelados dando em muros,
porosas como chuvas atravessando robles.

Álamos de si mesmas, salgueiros flectidos pelas águas,
murmuram solidões completamente pastorícias.

Dão de comer ao porco para que os homens
lho comam, como a elas.

Formigam na colmeia amarga da missa,
lavam as unhas amarelas dos pés do cura,
alinham o linho sem tomentos nem tormentos
sobre o altar,
perdoam ao Senhor tanto amor pela agonia.

No curro, incontinentes, mesclam ao
sugo da vaca o próprio suco.
Como ela, elas cheiram a couro e a lágrimas pensadas.

Só que fazem o pão como ninguém,
nem no estrangeiro pode o pão ser como o delas.
Estripam com bonomia os passarinhos
apedrejados pela filharada.
Pensam o bacalhau peixe do ribeiro perto,
que nórdico para elas só o brilho da Estrela Polar,
lamparina da Virgem, azeite e prata do Paraíso.

E quando morrem,
nascem outra vez.

E quando morrem,
nascem outra vez,
sempre avós,
portuguesas para sempre.

1 comment:

SD said...

São lindas as tuas palavras...como as boas mães são importantes na nossa vida, aquelas onde vamos buscar colo, o nosso porto de abrigo, repleto de amor incondicional. Tu tens sorte, tens uma mãe assim... eu tambèm!