Saturday, December 27, 2008

Recados do Porvir das Cinzas

© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós,
21 de Dezembro de 2008





Pombal e Casa, Souto, 23, 26 e 27 de Dezembro de 2008




I

Espero que a noite troque de lugar comigo.
Farei dela o lugar; ela, o meu.
Espero uma haplologia em lugar do coração.
Tenho (posso mostrar) uma colecção de luz
nesta caderneta de sombras.

O corpo é para queimar devagar na ida ao campo.
Cada março mente verde por todos os poros.
As crianças também mentem porque são felizes
na agonia da vida no campo.
As crianças são todas vinda (e vianda),
recados todas do porvir das cinzas.

E a boca é uma fonte de países.
E trocar de boca é uma noite toda nacional.

Eu estou sentado debaixo das estrelas,
diamantinas gambiarras frias na pulsão.
Os aviões unem os pontos do diagrama,
Deus não está nem deixou recado,
excepto o da cinza.

À beira da noite, qualquer rio murmura derrames
preciosos.
O segredo para não enlouquecer reside na adesão
à tristeza com cartão de sócio.

Planetas rangem nos gonzos como cabras orbitais.
A esta hora, um barco calado singra azulnegro,
sozinho na História e na preocupação das famílias.
(Nenhum marinheiro trocaria de lugar comigo,
porém.)

Outra coisa é a posse de armas.
Outra, o clarão de um verso vindo do e para o nada.

Cambiarei, ainda assim, manhãs.
Não se pode
(poder, pode, mas se não deve)
andar sempre com os cornos dos filhos-da-puta
cravados nos rins.
É preferível dizer cores e laranjas,
absentida a profundidade mediúnica
da palavra.



II

Então a vida levanta-se de ter estado de joelhos,
não se demora muito em pé, mas é bom senti-la
vertical: entre juncos e junhos e ossos e destroços.

O vinho novo cheira já na sala onde o coração arde,
toda a tarde o vento vingou gelos e cedros,
devo ter estado quieto entre mantas, músicas, medusas.

Devo ter estado quieto a minha vida deitada, na sala,
atento à invernia rumorosa dos passantes ideográficos,
dos animais frigidíssimos sem hipóteses de lume.



III

Então certos olhares: lesões vítreas.
A vida é muito mais pastelarias
do que sendas areeiras levando ao mar.
Muito mais.

Um sábado à tarde fechado como um punho de cinza,
ver o primeiro-ministro,
coitado,
e os segundos e terceiros-ministros todos,
coitados,
tão órfãos de si mesmos,
tão arautos das pastelarias iguaizinhas todas
umas às outras,
coitadas.

Ou então não.
Ou então escolher uma música, uma fotografia,
uma atitude, uma embalagem decente para
as próprias cinzas.

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