Tuesday, December 09, 2008

Não Sei se vos Disse já das Árvores


© Sandra Bernardo
5 de Novembro de 2008, Cabanas de Viriato


Este poema com árvore(s) é
(só podia ser)
para a minha tão querida e arbórea
Irmã(e) Xelinha

Casa, Souto, entardenoitecer de 9 de Dezembro de 2008




Impressão digital do Deus sem mãos nem filhos,
cada árvore vale por um atestado de orfandade.
Vale-me cada uma a mim, digo, que nada sei
nem de silvicultura nem Dele, nem Ele sabe.

Tenho passado o meu tempo a olhá-las no tempo delas.
Valem-me de muito.
O mais do tempo, ficam à beira da estrada como as putas.
Babujam a noite a partir de seus corações astrofísicos.
Eu olho-as, sabendo-as lenha e ar e cinza e demora.

São de uma primaveração inelutável, fábricas teimosas
de coisas siderais como anúncios de bailes
e pardais.

Casulos nodosos, formigam de braçadas genealógicas
sem outra lógica que a da persistência da seiva.
À sua sombra, as raparigas farfalham chitas e hímenes
lancetados a nácar e a espargo.

As da África tvdocumentarista raiam os ilimites
do deserto, tracejam a negro o amarelo perpétuo
da sede, do casaco dos leões, riscos de ampulheta
no tempo desumano.

As do Caramulo fremem de fantasmas pneumotorácicos,
albergues efémeros de senhorinhas condenadas ao agravo
dos casamentos alheios, dos espirros de sangue, do éter
que deliquesce a fala, bebedoras de lágrimas.

As de Coimbra estão condenadas à infância e à senilidade,
ramos aliás sinónimos. Um rio delas mana, empernador de
lavadeiras e afogador de ciganitos e de coelhos.

Muitas vezes senti sobre elas o compasso do milhafre,
a espuma do avião a jacto, esse giz deixado cair pelos
anjos escolares do meu tempo, os que levávamos a
enterrar no tempo da permilagem.

Muitas vezes senti través elas o mistério simples
dos labirintos verticais (anúncios de bailes
e pardais.)

Muitas vezes senti sob elas o vesúviozito onanista
das primícias moribundas da infância, quando as
meninas se arraparigaram para amulherecer
para sempre.

Tenho uma árvore no quintal.
Pertenço a este cedro, a este soberano de caracóis,
a este mágico sem circo nem volta a dar.
Quando, noite fechada, venho à varanda fumar,
toco-lhe o cabelo.
Ele ronrona e pede-me água,
que lha dou dos meus olhos
sempre.

1 comment:

Anonymous said...

Muito, muito, muito bom, Abrunheiro!