Saturday, December 06, 2008

M. destas Coisas

© Stephen Shore - County of Sutherland, Scotland,1988

Casa, Souto, entardenoitecer de 6 de Dezembro de 2008

Esse choro inicial de que rezam os obstetras
tem a ver com o clarão da cegueira do início.

Recém-cegos, nascidos para a reiteração
de uma raça sem espécie, de uma espécie
de raça arrasada de si mesma, nascente
para o moriturismo da permilagem de viver.

Cego, vejo ainda o monte fundamental,
de que desasado me despassarei outrora.
Passava em baixo o comboio, o mesmo
sempre, para sempre o mesmo, e cada

recém-vidente merecia já sua escócia
pessoal, seu condado portátil pejado
de pedrinhas e de obstetrícias no mínimo tristes,
deflagrando a noite de dentro das árvores.

Escócias e escórias: o mais da gente, por nós
começando. Ilusão nenhuma, alusão toda
embora. Vejamos, cegos embora: início,
a mãe feita desfiladeiro sangrento, amniótico,

o pai nalgum bar esperando o telefonema
para o número deixado na admissão,
o comércio do mundo seguindo em carrinhas,
entregas, voltas de colarinho e outras

costuras. Ainda assim (que aos cegos é dado
cheirar), o perfume do monte rosmaninhando
até os pequenos cadáveres animais que ensinam
o fim do nascimento: de todo o nascimento enfim.

Nenhuma escassez: montes destas coisas.

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