Monday, March 31, 2008

Um Março não este Abril ainda não

Viseu, Obviamente Bar, tarde de 31 de Março de 2008


Um março mais acaba para que sejamos menos
no tempo que mês a mês nos come nos consome.
E eu ando todo feliz na felicidade triste da cidade
atento ao néon das repartições ao óxido dos portões.
Vejo cães passando como dias gatos como emanações lunares
e por meia dúzia de moedas arranco poemas aos bares.
Sou o filho de meus pais alcanço a idade deles
custa-me deitar o corpo na cama levantar-me dela.
Sou talvez um poeta estatuto nada recomendável
hoje em dia a um europeu de atlântica nostalgia.
Vendem agora embalagens de espinafres já com queijo
tudo aparece pronto e diferido como a minha poesia.
Uma rima aqui uma lata de sardinhas em tomate além
um telefonema para casa a saber como está a Mãe.
Despeço-me deste março que tantas palavras me trouxe
eu a fazer de areia as palavras a fazer de ondas.
Como o Manuel Barata sabe dou muita atenção à forma
até por causa da manifesta escassez de conteúdo.
Continuo porém achando que não tem mal
’inda no outro dia o disse a um amigo que é guarda prisional.
Não calma ’inda não é este o abril da nossa morte
outro será mesmo que em diferido mês era uma vez.
Levei três sacos ao contentor do lixo sentei-me aqui convosco
tenho música em casa que ouço olhando a janela.
Comprei uma secretária antiga tem mais gavetas que eu futuro
e às vezes entristeço na cozinha embolando de cuspo o pão duro.
A minha barba encanece já não subo escadas como outrora
mas ’inda assisto furtivo à beleza das raparigas que passam.
Sim ’inda hoje vi três ou quatro filhas de alguém nascido
mães de alguém por nascer que isto a natureza não perdoa.
Tenho Camões em casa de vez em quando vou falar com ele
regresso dele dignificado por um compatriotismo dulcíssimo.
Tenho Cesário tenho Osório tenho Belo tenho afinal tanto
que num café fora de casa quase não evito o ledo pranto.
Estou vivo calma e dirijo-me-vos de gardénia à lapela
um toque de perfume lobular um casaco decente um poema.
Não de facto não me importa o carácter fósforo dos meses
alguma vez algum dia descansaremos será manhã.
Tenho muita esperança nos amem ’inda no futuro
e digam Olha este escreviveu deitou-se cedo comeu algum pão duro.

6 comments:

Manuel da Mata said...

Quando iniciei a leitura do poema, lembrei-me de Cesário, o do "Sentimento de um Ocidental", claro; a seguir, veio Camões e essa criação espantosa que dá pelo nome de "Sôbolos Rios", apesar da medida destes versos.
Osório e Belo não me ocorreram, apesar de saber do teu amor por eles.
Sim, o Manel sabe quanto o Daniel inova,formalmente falando; mas seria injusto, se não encontrasse conteúdo nesta magnífica poesia.Que não é "fast-food", que não é "prêt-à-porter".
Grande poema em qualquer das línguas faladas e escritas do vasto mundo!
Sublime, Daniel!

Pelos Olhos said...

Se esse vento que vem da imensidão do vazio sem prédios daqui e invade o quarto me sufocasse e me levasse até o tempo teria certeza de que a vida é só alma.
O mar é só peixe. o pulmão é só ar e sangue e fumaça do último cigarro.
Não quero ontem. Talvez queira amanhã. queria um agora dentro deste agora, que já não esse e nem esse ... e não consiiiiiiiiggggggoooooo segurá-lo.
O agora o vento levou.

Pelos Olhos said...
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Daniel Abrunheiro said...

O senhor Manuel Barata é um ganho da minha vida.

M said...

De todas as peregrinações que me descreves - sim, porque tu Cão, propões nada, quer dizer, entra quem quer, quem não quer, fica, tanto te faz; não deixas de existir exitas tu sozinho ou acompanhado, nem tu nem os lugares, nem as latitudes que alcanças quando escreves, quer dizer, és como uma fragata, homem de mar e de terra, capitão e tripulação ao mesmo tempo, e eu aprecio imenso isso na tua escrita -, mas de todas essas viagens, dizia eu, ficou-me "o carácter fósforo dos meses". Como vês, sou um tipo simples agarrado ao detalhe. Mas não simples demais para não achar de admiração o restante que escreves.

Mangas.

LM,paris said...

ao ler os eu poemas nao me lembrei de nada a nao ser de si e do que me tem dado todos estes meses.Bem-haja. indicible sentiment de plénitude et de tristesse, l'une dans l'autre et le coeur petit d'un oiseau transi.
Merveilleux poème daniel, un baiser , LM