Thursday, March 06, 2008

Podografia Viseense - Tríptico - II. Tarde

Je ne sais si je me trompe, mais il me semble que le voyageur le plus exact est justement celui qui le paraît le moins, et qui, sans s’occuper de l’ordre ou de l’exactitude des faits, raconte fidèlement, dans toute leur naïveté, non l’histoire de son voyage, mais celle de ses sensations.

O.N., L’Illustration, Journal Universel, samedi 1er Septembre 1843

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II. Tarde


0.


Um pouco de febre, de esperança também:
o corpo é por dentro outro alguém.

Tenho uma nódoa de mostarda na calça direita.
Esta avenida chama-se Homem Ribeiro.
Nome bonito, o do capitão morto na Grande Guerra.
Nasceu no XIX, mataram-no no XX.
Almocei numa estação de serviço, entre cidades.
Fiz uma nódoa de mostarda na calça direita.
Também sou um homem, um ribeiro também.

1.


Duas árvores em uma: sombra e madeira.
Uma é a outra a vida inteira.

Antes de tudo se me ter volvido um depois sem futuro,
dei-me ao luxo de mínimas felicidades.
Aviso que eram apessoais alegrias palavrosas.
Num quarto encerrado, palavras escalavravam paredes.
Tâmara e damasco; janeiro e aspereza;
boca e dentes; peixe e prata;
e elas me faziam: feliz e mínimo.

2.


Este pano de luz lá fora que arde:
tudo me é tarde.


Vínhamos noutro tempo de rés-do-mar,
parecia-nos possível sermos para sempre litorais.
A terra enxugou o mar, secou a praia:
eram os empregos, os filhos alheios, era isto.
Regresso sem ti, árido, a tais vastidões secas.
É a vida mortífera, concordarias, digo.
Desta tarde regressarás sem mim, digo.

3.


Desalmadamente acredito no corpo movediço.
Digo boa-tarde e desando, enfermiço.


Já ontem era noite, devo ter chorado um pouco.
Nas janelas da sala ardia a Lua eléctrica.
Em vão chamei os mortos, fiquei rouco.
O chão panejava uma treva tétrica.
Não cultivo usos de higiene alimentar:
engulo, até, o próprio sal do mesmo chorar.
Eram ontem vivos os mortos, terão chorado um pouco.

4.


Ainda olho na rua as mulheres, digo:
juvenílimas gazelas são para leão antigo.


São de maravilhosas curvas apertadas de licra.
Laqueiam as cabeleiras de rubras fogueiras.
E muito parem elas, parideiras
que à Igreja confirmam hissope e mitra.
A outros homens cedem, muito tácticas,
as belas letras e as frias matemáticas
de seus curvos corações, que passam tarde.

5.


É cedo ainda, bebé, não ainda desças
a ser adulta: não cresças.

O nosso corpo é um território coçável.
Nem sempre amado, nem sempre amável,
vive de aspirações como os tapetes e os talentos.
É uma estrutura vocalista, o nosso corpo.
Cai na morte como na cama: ridículo e de borco.
Ainda assim, é tudo o que vemos passar, repetido
no dos outros, como fora siamês diferido
de si mesmo, passando tarde.

6.


À passagem, colho imorredouros lábios
de mortos, os mais vivos sábios.



Recordo o amor que me tomava, tal
tranquila febre, pelos vivos que me viviam.
Sabiam eles antecipar todas as justas palavras
do dia, cada dia, no tempo em que existiam.
Recordo os crepúsculos sanguíneos, além-monte.
Eles saíam das fábricas, reestabeleciam o horizonte.
A minha tristeza é um animal muito bonito.

7.


Mui douda corre a música pelo relvado.
Somos jovens, vamos morrer, há-de ser sábado.


É segunda-feira: o mundo range ferrolhos.
Sobrevivi à manhã, fiz uma nódoa de mostarda.
Que o meu coração de gelo arda,
a começar pelos olhos.
Tive um cão.
Tenho dias.
Sou, por assim dizer, um proprietário.

8.

Derivemos, mansos e videntes,
por entre as tendas e as gentes.


Duas igrejas, face a face, como um duelo de cristos.
Uma loja oferece Lindas Peças de Prata a partir de 3,50 euros.
Um talho dispõe Borreguito a 5,99 o quilo.
Uma montra diz-se capaz de instalar Piso Radiante.
Era tudo isto, agora: um homem numa cidade,
atento por fora ao comércio milenar do mundo.
E ler as montras é, perfeitamente, ler poesia.

9.


Levanto-me e não ando, olho e não vejo.
Supri e suprimi, conforme meu não-desejo.


Um café como um aquário.
Dentro, um peixe feminino de setenta e tal anos
arredonda boquinhas de café-com-leite.
Dela as mãos são já inofensivas garras de pergaminho
cravadas no duro bolo-de-arroz.
Está completamente sozinha.
Vê-la, ensina.

10.


A terra sobe ao céu em azulouro,
pés e olhos compartilham o tesouro.


É quarta-feira: rangem as pedras amodorradas.
O sol pintor, todo tela, todo cor, plana
na eternidade e no coração da semana.
Incham de açúcar os bolos nas montras.
Ataviadas senhoras passam, muito lontras,
na fátua peregrinação da burguesia.
Tudo é tarde, mas ’inda é dia.

11.


Levaremos as mãos à boca.
As bocas terão unhas, a mão há-de ser rouca.


Iremos hoje almoçar a uma casa-de-pasto
a que outros velhos casais de velhos acorrem.
Bacalhau com grão-de-bico, humílima isca
de fígado alhada em fervido gomo de batata,
peixe frito entre fradesco feijão, atum molhado
em azeite da lata original, frito frango
debulhador de arroz: e, por uma hora, a paz atroz.

12.


Prevê hoje o boletim para Portugal Continental
uma estátua em cada praça central
.

Álgido sol viseense tempera o Senhor D. Duarte
(1391-1438-2008).
É, como ele, revestida de bronze a érea eternidade.
Há por aqui poucas pombas – e na verdade
mais uso saudar vivos columbos do que brônzeos chumbos.
Vale o Sol, frio mel anil: eu
vivo ao Sol, El-Rei também – e também não.

13.


Amanhã de manhã, a noite voltará.
Estaremos ou não estaremos cá.


Passo na rua connosco dentro para outros (s)ermos.
Confio me leves contigo em alheia cidade.
Herdamos dos outros a noite sempre individual.
Homens dentro de cartões frigoríficos dormem teatros de arcada.
Crianças e cães, todos nossos filhos, filhas.
Furiosas genitálias urdem novos outros, velhos eus.
Passais na noite comigo fora, atrás, na atroz paz.

14.


Um pouco de febre, de esperança também:
o corpo é por dentro outro alguém.
Duas árvores em uma: sombra e madeira.
Uma é a outra a vida inteira.
Este pano de luz lá fora que arde:
tudo me é tarde.
Desalmadamente acredito no corpo movediço.
Digo boa-tarde e desando, enfermiço.
Ainda olho na rua as mulheres, digo:
juvenílimas gazelas são para leão antigo.
É cedo ainda, bebé, não ainda desças
a ser adulta: não cresças.
À passagem, colho imorredouros lábios
de mortos, os mais vivos sábios.
Mui douda corre a música pelo relvado.
Somos jovens, vamos morrer, há-de ser sábado.
Derivemos, mansos e videntes,
por entre as tendas e as gentes.
Levanto-me e não ando, olho e não vejo.
Supri e suprimi, conforme meu não-desejo.
A terra sobe ao céu em azulouro,
pés e olhos compartilham o tesouro.
Levaremos as mãos à boca.
As bocas terão unhas, a mão há-de ser rouca.
Prevê hoje o boletim para Portugal Continental
uma estátua em cada praça central.
Amanhã de manhã, a noite voltará.
Estaremos ou não estaremos cá.


Viseu, 3 a 6 de Março de 2008

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