Wednesday, March 19, 2008

Mentecapta - nº 44 de Rosário Breve com direito a intróito e tudo

Por ser um triste profissional (e até, profissionalmente, um triste), vejo-me na contingência diária de assegurar um naco decente de tristeza que morder, mastigar e engolir. O aparato lírico costuma ser-me suficiente q.b.. Mas nem sempre. Digo-vos a verdade: os versos não bastam a um triste escrupuloso. De modo que não perco uma jornada de jornais. Suspeito seriamente (com essa seriedade suspeita dos líricos que, desculpável embora no seio de amadores, é imperdoável teta a profissionais) de que é nos periódicos que está patente, todo o santo dia, todos os santos dias e todos os dias de todos os santos, a alegria-mor de todo o triste, por mais mínimo. Digamos:

o preço do petróleo que paga o terrorismo anti-terrorista
a expulsão do padre da Praia do Pedrógão
a morte de Arthur C. Clarke
as unhas dos pés de Jorge Nuno Pinto da Costa
os Chineses no Tibete Olímpico
o senhor Durão Barroso
o
piercing na língua
o “acordo” “ortográfico” também na língua
os poetas da
net
a CGTP e os Amanhãs que Cantam no Chuva de Estrelas
a etnia cigana e o sabão
as 30 mil flores cortadas para nada, certo dia de 1986, na Abadia de Westminster
o senhor Rui Rio,
Felgueiras:
the landlady
as roubalheiras impunes do Poder Local
a tropa
os coimbrinhas
o Scolari
o senhor Manuel Monteiro
e o casamento de Sarah / André, certo dia de 1986, na Abadia de Westminster.

Tudo isto conjuga a mais gritante felicidade aos pavilhões auditivos de um triste alegremente devotado ao ofício de sê-lo. Posto isto, deixo-vos a crónica nº 44 da série
Rosário Breve, a partir de amanhã em papel e online n’ O Ribatejo do costume.

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Mentecapta

Assoma-me por vezes tão perfurante fadiga, que a temer chego me suma, de tanto me assumir ela. Digo: uma fadiga da pátria piolheira e do piolho patriótico, um e outra querendo, não sabendo nem outra nem um escrever, ensinar-me-nos ortografia. Neste rincão que ladra e morde, parece que o inimigo é a consoante muda, a qual, muda embora, mas precisamente porque não muda, nos permite o aroma da memória: a etimologia, a raiz, o cadinho genesíaco que nos faz ser, precisamente, portugueses.
Esta gentinha dos “acordos” (plural que se lê “acôrdos”, não “acórdos”, como eles dizem), esta lama que de alma só tem as letras trocadas, é tão incônscia e divertida, que até apita nas curvas que os aviões dão a caminho de Bruxelas ou Brasília. Agora, depois de 1911, depois de 1945, depois de 1986, depois de 1991, voltaram à carga com um disparate “ortográfico” que só significa uma coisa: como não têm nada melhor que fazer no intervalo de nos roubar, decidiram, entre cachaçadas de caipirinha e beijinhos de cálice de porto, obrigar-nos a aceitar que a Língua Portuguesa é para ser escrita conforme o cânone telemobilístico SMS. Porra e chiça, que é aleivosia! Gaita e catano, que se não pode ser crítico sem se saber riscar o diacrítico!
Não, isto não é acintoso amor meu à verruma catilinária. Isto é só saber escrever português, idioma cuja assumpção sempre me foi sempre, e me será sempre, a gema preciosíssima e o vero tesouro único de um palheiro nacional onde o melhor muar é o das patas no ar para efeito de coice em quem os tem, ortograficamente, no chão.
Fadiga sinto, mas não vontade de desistir. Serei sempre vogal e vocal, jamais consoante os ventos que despassaram pelos ares as turvas turbas de arribação legidecretadoras. Triste corja, que de mente só tem parte – e logo a parte capta. Com aquele “p”, claro, que mudo nunca foi.

2 comments:

Afectos said...

Quem se confidencia merece perdão. Boa continuação.

alice said...

uma bela crónica poética, gravada no bom humor, daniel. gostei do pormenor das unhas do presidente.

votos de uma boa páscoa para si e para a emissora das beiras. beijo*