Tuesday, March 18, 2008

Breve Apontamento de Interesse Comercial

Um aspecto do comércio que me interessa muito
é o do aspecto dos olhos tristes das pessoas.
Ando entre elas pelas ruas e recolho-lhes
os olhos.
Elas não se importam, barafustam ou vociferam.
Colho-lhes os olhos, elas continuam cegas
como já o eram, de facto e aliás, antes
destes versos.
Ao pé da Casa da Sorte, esta tarde, colhi
os da rapariga que tentava parar as velhas
de aspecto próspero
para efeito de um inquérito.
O inquérito é a isca.
A ideia é arrastar as velhas para um vão,
digamos, de louças ou colchões
a seiscentos e tal contos dos antigos
a prestações.
Os olhos da rapariguinquérito eram
de um azul aguado, um
azul-água-de-farmácia,
não sei como dizê-lo de outra maneira.
Escrevo versos, aliás, para dizer tudo

desta maneira.
Se eu tivesse seiscentos e tal contos dos antigos,
deixar-me-ia levar a louças e colchões,
claro que deixaria,
sempre quis um serviço-inglês-de-sacavém,
o meu desejo foi sempre umas costas ortopédicas,
um sono feliz.

Eu não tenho um sono feliz.
Eu não durmo.
À noite, fico sozinho nas ruas,
à espera que o comércio abra
os olhos.


Viseu, tarde de 18 de Março de 2008

4 comments:

Manuel da Mata said...

Eu não sei se conheces ou conheceste o Eduardo Olímpio. Era funcionário da livraria luso-americana, que não sei se ainda é ali no Cais do Sodré e que escreveu uma narrativa chamada "António dos Olhos Tristes".Gostava de bom vinho e se vivo for, vive no Alentejo.
Actividade meritória a tua, a de recolher olhos. Assim um pouco à maneira de Blimunda a recolher vontades.
Se encontrares, eu compro "um sono feliz". Eu preciso muito de um "sono feliz". E não é porque queira ficar na rua "à espera que o comercio abra os olhos".
Brincadeira à parte, eu gostava de ter escrito este texto.

Abraço comovido,
Manuel

Manuel da Mata said...

Eu não sei se conheces ou conheceste o Eduardo Olímpio. Era funcionário da livraria luso-americana, que não sei se ainda é ali no Cais do Sodré e que escreveu uma narrativa chamada "António dos Olhos Tristes".Gostava de bom vinho e se vivo for, vive no Alentejo.
Actividade meritória a tua, a de recolher olhos. Assim um pouco à maneira de Blimunda a recolher vontades.
Se encontrares, eu compro "um sono feliz". Eu preciso muito de um "sono feliz". E não é porque queira ficar na rua "à espera que o comercio abra os olhos".
Brincadeira à parte, eu gostava de ter escrito este texto.

Abraço comovido,
Manuel

Daniel Abrunheiro said...

o senhor manel da mata é que me comove. ainda por cima, percebe destas coisas de comércio e tal.
e tal.

LM,paris said...

olà aos dois amigos poetas de olhos comovidos, eu também gostava de ter escrito este texto do daniel,é lindo!
recolher os olhos é isso, comovedor...as tais janelas das almas.continuo a dizer, teimosa a moça, que vejo tudo quando leio os textos do daniel, ele também recolhe os meus.beijos aos dois,esperem por mim, eu jà venho, vou ali à République e jà venho...
promis, LM, Paris