Friday, March 28, 2008

Estenoginografia – versos de sereias


Estenoginografia – versos de sereias
Viseu, manhã de 28 de Março de 2008

Intróito do Mau Estenógrafo

Bem vos avisei, em poema escrito ontem e hoje aqui canilado, que

Paro num sítio, ponho-me a ouvi-las.

Foi o que (re)fiz, agora mesmo. Antes de almoço, fui a um café de semente-de-arrepio, aqui perto. Havia três mulheres a uma mesa perto da porta. Eu estava a ler o primeiro número da fanzine poética A Coisa. Deixei de ler, que a conversa delas era irresistível: sereias pobres cheias de uma poesia improvável e comprovada. Transcrevi o que pude, que não sei de outra estenografia que a da poesia: não gastar as linhas até ao fim. Vai tudo em itálico porque os versos são das sereias, não meus.

******

detesto pessoas assim
o carteiro passa aqui muito cedo ainda assim
como as cadelas andam ao cão
/salta-me o muro
eu disse logo
no mês passado
foi assim
a minha vizinha disse-me
/a primeira para quem vem
nem vi o correio
/até abril
não se preocupe porqu’á-de vir amanhã
ela já nos viu
e eu, carago!,
ai mas eu ainda não
eles antes cortaram-na
a minha comadre recebeu uma carta
/a dizer assim
e ela não percebeu
para o mês que vem já vais receber
ah!, tá tá tá tá!, eu caí da cama
ainda não foi à cama
não me lembro mas diz
/que não fiz
tem favas todo o ano
sabes porqueque não truce mais?
não tenho aqui nada na cabeça
só bati co’ela
tinha dois mas ficaram vinte
se quiser vir buscar o fatinho
/da Comunhão da menina
quando vi aquilo
não me lembro do que fiz
tirei-lhe o pijaminha
/diz tudo
perdi-me exactamente no mesmo sítio
ele foi comer marisco ela não foi
puseram tudo estava lá
/um tacho por lavar
acho que foi com vitela
nem no prato havia um vestígio
uma carninha qualquer coisa nada
mas fiz-l’e
pensava ele
não havia mais filtros
vejo lá muitos ventis muitos ritzes
olha esta merda
obrigado
Mãezita, diz qualquer verso
punha Nossa Senhora
agora sou eu
tenho d’ir pà cozinha
ainda estou à espera mas não
/olhes p’ra mim
ai ó Mãe!
a Rita que é a mulher dos olhos
/dele
até a minha cunhada teve medo
/de pedir a ele
a Mãe não gosta
não l’e sabe dizer que não
a Rita pode dizer horrores
que passava horas p’la internet
ele retirou a queixa ela deixou-o
nem as coisas dela
bem feito
tu não estás capaz
ela fez uma jura
são bem merecidas
será que?
ela deixou-o
como é que consegue ser tão
/burrinho
/ a esse ponto?
isso é quê, 96?
tenho 16 e pouco
sé pa’ 96
meidia e 20
vê lá se dá pa’ ligar
triplicar o saldo
saiu-ma dos quinzeuros
o dinheiro não l’e permite
tá tá tá tá!
o quê
cabelo
digo eu assim pà Rita
não ligo mais
se chegares ò dia 31
45
45 euros só pa’ 96
digo eu pà Rita
vocês têm amigos 96?
hoje é dia quê?
se tu visses
eu passava horas
/mesmo contigo
tenho mensagens grátis
quando é que foi Sexta-Feira-Santa?
tinha trinta dias
15, não!, com 20
por isso
quanto tempo é que tinha
de 21 a 21, 11 de Maio, não,
1
c’a Mãe
a Mamã não pod’ir
onde é que tu andaste com a cara?
uma mensagem
não há ninguém que me faça isso
gostas mais de quê?
só fumar um cigarro
estás tão branca hoje
a minha irmã está no
/quarto-de-banho
à Quinta do Galo
pront’então eu vou-l’e perguntar
espectacular
a gente a olhar de lado
sim, tu
no Palácio do Gelo
às vezes também tenho essa mania
tenho uma filha muito
/linda, anda cá pá, Chiquita,
no queixo, no narizito
oh sim!
ela já ’tá a caminho
qu’ela ’tá à’spera que
/eu l’e digalguma coisa
’tão ’pèraí
não sei se
olha, ’tàqui a chave
já l’e disse
cala-te!
cala-te!
só há esta
sim sim sim sim
a minha irmã e as
/crianças
sabes porquê?
parecia-me uma senhora

eu se pudesse.

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