Tuesday, March 25, 2008

Impiedosas Imitações e Pias Visitas

Impiedosas Imitações e Pias Visitas
Poema: Cafés Avenida e Paris, Viseu, tarde de 24 de Março de 2008

Foto: Viseu, manhã de 8 de Março de 2008

I

Florescem os dias no coração
que de si mesmo é floração
nocturna embora.
Traz o vento um hálito de neve
longe caída
como sempre longe cai e se reergue
a vida
esse alheio espectáculo cuja piedosa imitação
impiedosamente nos oferecemos
em caídos dias de florescidas
neves.
Infinitos improváveis números nos
contamos e representamos
quantos passos quantas batidas
quantas ruas e avenidas
quantos tantos nadas nos somamos.
Dos lábios a poesia nos aflora ainda
vocábulos que foram das bocas
de sepultados romanos
soldados mercadores ciganos
na terra solta de um verso
digamos
português.
Os olhos de uma cadelita prolongam
a trela
dou por ela farejando ossadas
digamos
romanas
na cidade condenada ao futuro
isto.
Queimam-se-nos os pés nos mosaicos pobres
das frias manhãs da mais deserta cidade
a de dentro.
Nunca mais fomos atlânticos
por mais que à praia tenhamos ido em pequenos
pequenos somo-lo agora
agora e para sempre desejando
refeições económicas sapatos duráveis
no baú fechamos os retratos dos amados
como a empalhadas rolas
de uma altanaria que deu já
o que nunca teve a dar.
Também
é certo
somos arrepiados de quando em quando por
inomináveis alegrias
tem dias.
Esta mesma manhã colhi de uma página de jornal
dezasseis poemas de rica composição e compostura
e fui feliz e absurdo num café onde me
dizem ser possível abrasileirar um engate
ou assim.
Certo é que lhe sucedeu a tarde
outra baça lâmpada que Alice reconheceria
na mesma noite do próprio dia.
De um outro lado nos vem chegando
a asa aérea da borboleta respiratória
forja-se-nos o duro coágulo que às neurovias
obstruirá
instituirá
o fim dos dias
tenho sabido de casos assim
as pessoas muito bem em suas casinhas
e então a notícia
o alegre pânico na rua
fulano de tal coitado
já está
de um outro lado.
Envelhecemos quando menos e menos nos chegam
notícias de nascimentos
quando a necrologia se nos atém como
desporto de eleição
nos jornais a página dela
é a das palavras finalmente cruzadas
solucionadas finalmente pelas agências
com a conivência de Deus
e Seu economato.
Enquanto porém nos não
como nas finanças e nas padarias
toca a vez
é talvez mais avisado reler
Caio Valério Catulo
e Martin Lindsay
um senhor que foi à Gronelândia e
voltou.
Tudo é tão ultimamente:
o bater da porta do urinol
a desabitação das igrejas
a fúria existencial dos taxistas
as janelas como olhos de cegos
o musgo nas têmporas das fontes
o cigarro tremendo um pouco na mão que não escreve
o feijão gomando os intervalos dos dentes
a cerveja respirada por invisíveis mergulhadores
os frios coitos dos casais arrefecidos
as putas de lotaria ao sorteio das ruas
a itália repentina de um par de calças
uma mulher definitiva e litoral como uma praia
uma praia deitada e nua como uma mulher
uma coleira ortopédica tornando busto vivo uma cabeça
a inominabilidade da alegria e os mil nomes da amargura
aquele casaco castanho sem corpo dentro à passagem
as vozes articuladas dos móveis na noite da casa
Raul Brandão no Chiado
um renque de choupos na retina de meu Pai.
Darei o peito em breve
ao dédalo de sapatarias e expositores de pão-de-ló
nunca mais serei criança fora de versos
à poesia volto como os onicófagos aos dedos
tudo me é possível nos grandes marços
da minha vida
só dói um pouco a princípio
depois as sinapses negoceiam tratados indolores
com o idioma
bruscos clarões de couros queimam de negro fósforo
as estepes
e é que são
cavalos na neve
longe caída
como tudo longe dentro cai.
Frente a burguesas vivendas amarelecem relvados
e crianças
insones como epifanias de mesas-de-pé-de-galo
meninos e meninas a quem basta
o papel de um areal e o lápis de um molusco
para a mais duradoura escrita
em jornadas atlânticas a que não voltaremos
dado o preço dos sapatos das refeições
das calças italianas.
Sabemos e concedemos
por humanidade
que o coração é um acontecimento local
com implicações de âmbito regional.
Os homens que foram à Lua
terão visto isto
como eu vejo nas montras o pão-de-ló
os sapatos caríssimos.
Como quando
lançados nas estradas
aceitamos a lança contínua
que aos peitos nos sansebastianiza
a condição viajante
parados dentro do olhar
que à sangria de laranjas do crepúsculo fixa
coleccionador.
Mais terrível é ir ao barbeiro e descobrir
no espelho
o quadro do menino-que-chora.
Também
na velhice
as mães se nos põem a fosforescer como
senhoras-de-fátima incontinentes
de súbito amargas
como um longo poema
ou
um longo jantar
com estranhos.
Se mamamos das máquinas o leite quente
mais válido nos resultará um verso de água
à beira de uma barragem que hidroeléctrica
é a flor do coração de abertas comportas.
Digo isto assim porque me tornei impossível
outro modo e outro tempo.
Parei nisto vai para meio século.
É sempre possível não ter isto em conta
como incontáveis são
os passos as batidas
as ruas e as avenidas.
Importa-me lá muito.
Às cinco da tarde em ponto
desfolho pelas mesas e cadeiras
um olhar de gardénia.
Um velho que aposta no totoloto
conta as pétalas e regista o número delas
sacana do velho
com esta idade óssea
e a apostar ainda no futuro
úrico.
Único
púnico
guerreiro sozinho a minha flor de cem anos
antiga rosa que com o coração
trava a impiedosa imitação.

II

Sento-me nesta sala branca à espera de uma palavra.
Todo o idioma é todo uma sala-de-visitas.
Cada um de nós na sala é um tu prometido.
Valemos nada cada um excepto cada palavra.

Quero ser visitado enquanto olho cortinas.
No pátio de gravilha enferrujam limoeiros.
Restolho de risos? Talvez meninas
correndo rastos de meninos poedeiros.

São-nos brancas as noites fátuas.
Tais santas de quartzo, luminescem frases.
O horário das comidas, o asséptico assentamento:
quantos filhos tivemos, e onde, e contra quem.

Lúmenescem graves cascatas brancas têmporas ao lado.
Pulsa nas fontes a dolorosa água madura.
E na boca um travo de couro veste de blusão a palavra.
Toda a criança nasce velha p’ra ser futura.

Estou sentido na sala branca de nenhuma espera.
Torno-me parecido com a mãe do meu vizinho.
Os telejornais garantem a chegada da primavera.
Mas onde o pássaro rubro como a flor do azevinho?

Estou sem tudo nos nadas somados, à desespera.
Correcto oficial do economato de Deus virá um dia.
Chorarão rápidas gotas as mulheres da copa.
Nunca faltei uma gratificação, senão a própria.

Agora, calma. Agora as moscas.
Passam e bradam, violetas, as toscas
do operático cimento, fora, no pátio:
duras gangas sopranas, de homens, cantores.

Um cão rápido – e no espelho-de-água
lentos peixes que a cor diluem escamada.
É o tempo – são a hora – da floração dos corações.
Uma pessoa tem de ser pessoa de palavra.

Disseram-me isto há muitos anos.
Recupero, só na sala, brancamente, as visitações.
Mas vêm tão poucas vezes: coitados,
sujeitos a sapatos, calças e imitações.

1 comment:

fj said...

Olha, meu caro, uma belíssima foto!