Thursday, March 27, 2008

Numa Avenida do Paraíso - nº 45 da série Rosário Breve

É a crónica nº 45 da série Rosário Breve, sempre nO Ribatejo (www.oribatejo.pt).

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Numa Avenida do Paraíso

Pode muito bem acontecer que a desesperança nos parta o coração em dias e bocados separados, que depois é preciso re-unir com a vassoura da resignação.
Penso, sinto e escrevo isto num café igual a todos os cafés do Mundo Português. São, aliás, coisas assaz idênticas: a patriótica desesperança portuguesa e o mundo dos cafés do mundo. Em torno: uma criança feminina com uma fita verde no cabelo e uma boneca cor-de-rosa ao colo; de casaco de napa, um homem cujas orelhas, de tão vermelhas, me levam a dizer-vos que parece ter dois bicos-de-lacre pousados nos lados da cara; uma senhora de setenta mil anos portadora de um guarda-chuva mais roxo do que o coração do Senhor dos Passos; um homenzinho de gestos basculantes como um gnomo inclinado, o cabelo prateado e as sobrancelhas nigérrimas, os pèzinhos breves e embolados como tamanquinhas de casca de amendoim; e as mesas vazias aguardando mãos – como todos nós, às vezes.
Outrora, não era assim. Não era no Café Avenida, em Viseu. Era no Paraíso, na Figueira da Foz. Eu tinha a eternidade de sete anos e alimentava-me de bolas-de-berlim. As ruas não eram todas a subir, como agora são. E derredor não havia qualquer mesa vazia, ninguém tinha adoecido, as famílias festejavam a festiva ausência de futuro, pois que 1971 eram anos suficientes para todos nós, que hoje somos eles no passado.
Ainda assim, tenho, naturalmente, projectos. Uma mobília de sala-de-jantar. Um candeeiro capaz de fases lunares. Uma boquilha de ébano. Um casaco de napa. Uma bola-de-berlim.
Pela vidraça do meu café de Viseu, passam raparigas de Santarém: e vão altas e coloridas como estandartes. Este senhor polícia de cá boceja aí, as mãos algemadas de tédio nas costas do dólman. E aquele pombo cata aqui uma migalha de pão em uma rua da Glória do Ribatejo.
É assim agora. Não tem mal algum. É outra vez a eternidade de um dia, pela tarde: uma eternitarde. Não importa que o número do ano não seja 1971: ainda há casacos de napa, há bolas-de-berlim ainda. Mas o que me fazia jeito, hoje, agora, era a tal vassoura.

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