Monday, March 17, 2008

Podografia Viseense - Tríptico - III. Noite


© Manuel Alvarez Bravo, First Solitude, 1956
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III. Noite

0.

Pulcros sepulcros nos habitam, sucedâneos
de piropodógrafos arcaicos e coetâneos.


Há muitos séculos, rodeámos juntos o fogo.
Era por causa da noite mais que por nossa.
Séculos e cinzas nos tornámos, frios.
Tínhamos descido das árvores, subido dos lagos.
Uma força nos pôs de pé, outra nos desandou.
A podografia nos fez evocar deuses da chuva,
que inundações nos legaram contra o fogo.

1.

Onde era a Pista, é hoje a Cidade.
Uma jaula é a vida: só pós-ela, liberdade.


Costumo fazer assim: recolho luas matinais.
Sei de cor que a noite tira da rua as bancas de fruta.
Ao pipilar de gás das estrelas ambulo, portador.
Nunca reparastes que os mortos subexistem nos escritos
do comércio encerrado, nas portas das sanitas públicas?
Escrevemos com os olhos postos nos pés.
Olhamos os vivos sepulcros subterrâneos coetâneos da cabeça.

2.

As sentenças escritas fumegam poéticas
que remuneram as almas peripatéticas.


“WC: só para quem fizer despesa”.
“É favor não urinar no chão obrigado”.
“Borreguito 5,99”.
“Lindas Peças de Prata a partir de 3,50 euros”.
“Instalamos Piso Radiante”.
(Então, borregos de prata mijam-se, radiantes, à borla,
pelo piso lunar da Pista Nocturna.)

3.

Noite, ó Mãe de extirpados ovários,
ó parideira de urinóis podoviários.


A Podoviária arrefece muito à luz-de-presença.
Maçãs mal roídas juncam o asfalto.
Há, ainda assim, quem sinta pertença
ao fátuo sepulcro do gás lá do Alto.
O gelo churrasca tais encerramentos.
Já todos na vida tivevivemos alguns bons momentos.
Agora é a Noite: de pé toda a noite.

4.

Exerço muitíssimo a piedade pessoal
de ter nascido e sido escrito em Portugal.


É pena o tigre. É pena tanto azulejo.
A noite branqueja, muito cerâmica, o azul.
As vivendas abandonadas silvestram fantasmas,
dar-se-iam bem por aqui os Ingleses.
Perto, o ribeiro corre de extintos homens, capitães, fogos.
Troquei de calças, de dias, de mostardas.
É quarta-feira, voltaremos um sábado.

5.

Ruões, vielanços, taquicardias.
Consumos mínimos, mínimos dias.


Acabei por gostar da serenidade mortal dos edifícios.
Sonhamos com asas rés-voz precipícios.
Fiordes flamejam gelo-geometrias.
E a noite é a noite: e a noite tem dias.
O álgido senhor D. Duarte é meu vizinho.
Ceio por ele um copo de vinho.
Tornamo-nos bronze: e podo(a)éreos, fictícios.


6.

Quem me dera nevasse
na noite, na face.

A lázara noite convoca dos vivos a mortandade.
Noites esgueiram-se por vielas como gatos
corridos pelo esquecimento: nenhuma toponímia
nos ressuscitará: corroídos de esquecimento.
Ainda por cima, um vento de neve grassa
espinhaços ambulatórios: mas nem neva,
só o vento lazarilha por esta cidade, estas noites.

7.

Transportamos outros na passagem:
ao espelho, o bastidor da imagem.

Pode acontecer: por um mínimo instante,
os nossos olhos têm costas.
Face a face, alguém nos surpreenderá
essa retaguarda única. Pode acontecer:
e de trás dos nossos olhos saltarão os outros,
os que nos foram, na árvore do sangue,
raízes.

8.

Cruas ruas, tais pisadas frases,
são linhas erógenas que repisas e desfazes.


E se, bruta, brota a flor do sexo contra ninguém,
pelas ruas correremos ao néon cru tal agonia.
A húmidas pensões recolhem caixeiros-viajantes.
Tardias churrasqueiras acolhem comedores de tremoços.
Em bares uns dos outros clonados, clonar a flor.
Nunca confundi-la com amor, que não brota
assim.

9.

Deixarei um verso e duas rosas na terra,
terei (homem, ribeiro) perecido na guerra.


Este verso terá um dia sido escrito por um morto.
Nenhum incómodo eu o povoará vivo.
Reunido à terra, o corpo dele produtor dormirá
entre farrapos outrora orgânicos, minerais ora.
(Composto o verso já, já me dirijo às profundas,
onde me aguardam a dignidade da dissipação,
não toda porque filhas fiz, vivo.)

10.

A velha cauteleira, parecid’ embora com a Agustina,
trai-traz ainda no rosto a fundação de menina.


É de passo métrico, que arrasta
por a cidade indiferente.
É uma a menos por entre gente,
que à cautela não joga e afasta
de si a dela fantasimagem.
Porém, como senhora de sua mesma viagem:
breve, eterna, infundada menina.


11.

Entre berçário e necrotério,
não te leves muito a sério.

Recordo na noite um homem antigo
que me recordava a noite.
Tinham veias de mármore, unhas de vidro,
dele as mãos muito brancas, muito antigas.
Ocorre-me por vezes, na noite, que escrevo
com a direita desse par.
Não com a minha, que legarei a outro braço.

12.

Sempre mais despeço que peço jamais.
Cada vez mais e mais monte, menos vendavais.

Um vórtice de sóis à noite condenados,
ditos estrelas pela cosmografia,
não vistos nem tidos no curso do dia:
a nós se assemelham, eternos porém,
que nós, morredouros de pai e de mãe,
podemos, se tanto, arder poesia.
Que em vez da vida a poesia.

13.

(Final com rufo de tarola e guinchos de trompetes,
numa petisqueira que serve omoletes.)


Que vejo além disto, que livor?
É a alba fria da última manhã de amanhã.
Que respiro além d’ar, entre pedras?
É voz que respiro, de quebrados, como ossos, versos.
Que livor, ou livro, de versos, ou berços?
Este azulejo guardado por um tigre que vi.
Um verso me não te dirá que andei por aqui.

14.

Pulcros sepulcros nos habitam, sucedâneos
de piropodógrafos arcaicos e coetâneos.
Onde era a Pista, é hoje a Cidade.
Uma jaula é a vida: só pós-ela, liberdade.
As sentenças escritas fumegam poéticas
que remuneram as almas peripatéticas.
Noite, ó Mãe de extirpados ovários,
ó parideira de urinóis podoviários.
Exerço muitíssimo a piedade pessoal
de ter nascido e sido escrito em Portugal.
Ruões, vielanços, taquicardias.
Consumos mínimos, mínimos dias.
Quem me dera nevasse
na noite, na face.
Transportamos outros na passagem:
ao espelho, o bastidor da imagem.
Cruas ruas, tais pisadas frases,
são linhas erógenas que repisas e desfazes.
Deixarei um verso e duas rosas na terra,
terei (homem, ribeiro) perecido na guerra.
A velha cauteleira, parecid’ embora com a Agustina,
trai-traz ainda no rosto a fundação de menina.
Entre berçário e necrotério,
não te leves muito a sério.
Sempre mais despeço que peço jamais.
Cada vez mais e mais monte, menos vendavais.
(Final com rufo de tarola e guinchos de trompetes,
numa petisqueira que serve omoletes.)



Viseu,
manhã de 6 de Março de 2008 (0. a 5.);
entardenoitecer e noite de 6 de Março de 2008 (6. a 8.);
manhã de 7 de Março de 2008 (restantes).

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