Saturday, September 01, 2007

A Noite em Breve - 8


Antero retratado por Columbano
A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)




8
Caramulo, tarde de 17 de Agosto de 2007


Sometimes in a dream, everyone hears you except yourself
(
J. le Carré, Absolute Friends, pág. 138)

In a dream, one asks the questions too late, with no expectation of a reply
(ibidem, pág. 141)

Prosa fina, como sempre. Mais me toca, na sequência de uma noite de sono que se me acabou sem aviso às três e meia da madrugada. Um sonho figurou-me uma mansão abandonada à pressa pelos donos. Lembro-me de uma sala circular de pé altíssimo cheia de gavetas. Rebusquei as gavetas. Numa delas, um bolo redondo parecia fresco. Havia uma mulher sentada num tamborete ao centro da sala. Depois, eram três da manhã, três e meia. Desisti de procurar o que nos encontra quando quer, o dormir sem dívidas nem dúvidas nem dádivas. Pus-me a ler sobre Carlos de Oliveira, depois dois contos da língua inglesa: The New Sun, por J. S. Fletcher, e Hot Water, de Val Gielgud. Às seis e meia da manhã, ao cabo de um cigarro para celebrar a alba lindíssima, pude enfim adormecer até às nove. Devo ter feito algumas pazes com alguns dos eus do sono, pois que acordei pronto para a mais recente sexta-feira da História. Levantei-me, fiz chá e cozi um ovo. Verifiquei o correio (algumas mensagens), joguei o tetris, reorganizei apetites, possibilidades e decisões. Nenhuma expectativa, coisa de que vou felizmente desistindo. Direi melhor, dizendo: d-existindo.
Agora, no torpor da tarde (agosto convencional de cimo de serra), progrido nas horas como se, descalço, afrontasse um areal atlântico. Este trabalho, à minha revelia quase, acabou encontrando o seu rumo no usufruto simplicíssimo da mesma hora que vive. É o caso de lembrar-me, agora mesmo, da tarde do dia 1 de Outubro de 1981.
No dia 1 de Outubro de 1981, em Trancoso, entre numa papelaria-bazar-livraria em frente à Barbearia S. Paulo. O meu cunhado Zé Lima, com quem viajava para alguns dias de pausa na aldeia da Prova (Meda) – exactamente a mesma onde nasceu o doutor Jerónimo de Lacerda (1889-1945), fundador do Caramulo – tinha ido fazer não sei o quê pela vila do sapateiro Bandarra (que o iconógrafo Fernando Pessoa preferia à alegada Virgem de Fátima como espécie de santinho místico da Nação). Entrei na loja, levava comigo um conto de réis que furtivamente me dera o meu Pai para consumo daqueles dias. Na altura, eu não fumava nada que me fizesse bem nem bebia nada que me fizesse mal, pelo que os mil paus chegavam perfeitamente, como chegaram. Dei com uma estante repleta de exemplares da Livros do Brasil. Estavam velhos, os volumes, já então. Comprei de enfiada uma data de obras de Somerset Maugham a cinquenta escudos cada. Fui lendo-as ao longo do tempo. Ainda esta mesma tarde estive com uma na mão, precisamente uma das que me falta ler – Biombo Chinês. No saco, para ler na Prova, levava comigo Carlos de Oliveira, magnificamente impresso na viseense Tipografia Guerra, onde tantos anos depois tive a felicidade de ver impresso o sêxtuplo Licor, Sabão e Sapatos. Já na Prova, em casa da mãe do meu cunhado, escrevi a lápis uma série irrelevante de textos a que chamei Fotografias. Por falta de caderno, escrevi-os nas páginas de guarda do Carlos de Oliveira (salvo erro, em um dos dois volumes do Trabalho Poético). Já passaram vinte e cinco anos, quase e seis. Lembro-me hoje dessa irrelevância de finiadolescência: não sei por nem para quê, mas lembro-a e escrevo-a. Recupero esses livros, por estes dias, em biblioteca finalmente reunida, ao cabo de anos perdidos por casas desencontradas de mulheres e filhas esparsas. Embora Maugham (lê-se Móme) não seja, de modo algum, um gigante como Greene, le Carré, Faulkner ou Calvino, também ele retomará o seu lugar na prateleira.
Se relevo a irrelevância de tudo isto, relevo bem. Perante a realidade não solipsista, no imediato, impõe-se a brutalidade: no Peru, um sismo matou quinhentas pessoas, feriu mil e seiscentas e desalojou não contados milhares. Na minha vidinha de pantufas e literatices, os sismos são recicláveis em versos dengosos e em prosas córneas que não aquentam nem arrefentam – nem matam, nem ferem, nem desalojam.
E, apesar de tudo, levo já uma vida. Como um dos papagaios de cana e papel-de-seda colado a farinhágua que fazíamos antigamente (tão antigamente, na infância justa), tenho cauda, já. Identifico mais e mais depressa o bom e o merdoso. Também perdoo menos e sou menos perdoado. De modo que está tudo bem. Frequento mais velórios do que baptizados – e tudo está correcto, assim, pois que a idade faz proliferar cerimónias antitéticas, sendo ela mesma, a idade, a antítese movediça mais sensata.
Às seis e meia da manhã, o livor da alba era comovente como uma música composta e executada a partir de tintas, não de sons. O primeiro azul refrigerava sobre uma fogueira oriental: marfim e oiro ardiam sem que o terror da consumpção vicejasse nas árvores que cercam a minha casa. Antes pelo contrário: erguiam-se do chão as adormecidas, reverticalizavam-se com um frio garbo de estrelas de cinema as árvores todas. A calçada, oca de carros, oferecia os primeiros cães da manhã. No jardim penteado pela brisa, as flores fotocopiavam estrelas descidas para a láctea via dos pássaros astronáuticos. É falso que tal não possa repetir-se: estive vivo no curso e no corso desta alba irrepetível. Se amanhã, a uma hora irmã, for parecido, terei de reviver o desassombro da experiência.
Dizem os que sabem (eu não sei) que o amor, quando se torna amores, assim é – como a minha alba. Não sei, não perorarei. Nem da textura grossa do meu caderno faço hierática: escritura é, sagrada não é – tudo isto, incluindo essa tarde esvaecida de 1981 em que comprei tantos Maugham. Carlos de Oliveira morrera precisamente três meses antes. No dia de Natal desse mesmo ano, fui ao Clube da minha terra. Era o meu tempo de euripos. Tinham tornado aquilo numa discoteca pobre. Comecei a namorar o meu primeiro namoro nesse crepúsculo irrisório. Foi com uma rapariga mais bonita ainda do que católica – e ela era muito católica. Deitei fósforo aos vulcões todos que, aos dezassete anos, ainda se não amornaram como esquentadores. Foi um namoro bonito e triste – sem cama e sem futuro. Pelo menos, definitivamente sem cama e sem outro futuro que esta nota de rodapé num caderno de quarentão sem pressa nem praça. Os dentes já então me zuniam cáries, mas não nesse dia. Dançámos umas lentidões chamadas slows, conversámos uns acnes, acho que nos beijámos sem técnica perante a indignação póstuma dos Oliveiras e dos Silvas fundadores do Clube, que a nova gerência jovem respeitosamente mantivera pregados às paredes em retratos de fumaça oval e pretibranca. Isso passou, a moça é hoje casada, mãe e contribuinte do Tesouro. Acho que vive na Guarda. Eu ainda hoje não sou moça, nem casada, nem mãe, nem católica. Só contribuinte involuntário do Tesouro – talvez por isso nos tenhamos apartado algures na névoa de sebastiões dos anos (15)80. Não sei, nem já quero saber.
Trabalho para um envelhecer sem glória nem azedume: a primeira metade do projecto está garantida. Mas ainda ontem, pensando vagamente nisto, me surdiu e surtiu efeito uma linha que era mais ou menos esta:


O calmo mar recebo entre árvores da serra.


Levava pão fresco no saco de pano, retornava a casa. A linha, como um das da mão, tocou-me a testa sem violência nem utilidade. Era que o vento dava nas árvores do caminho – e ondas subiam e desciam, verdes também, espumigrisas também, como no mar. Sou muitas vezes tocado por tais marés, frases tais – e ponho-me a viver em gavetas que depois me aparecem em sonhos, transmudadas em recados simbólicos que não posso decifrar por não ser nem áugure nem mãe.
Nem augúrios nem maternidades me esperavam, às quatro e meia da tarde de cada sexta-feira lectiva, na paragem do autocarro em frente ao Liceu. Esperava-me ela. Era em 1982. Uma prima direita dela vigiava-nos o consórcio, que nunca se atreveu, perante testemunhas, a entrelaçar mãos ou a, muito menos, a tocar a rosa frívola de uma mamilo ou a tensa dentadura da braguilhéclair. Apanhávamos os três esse autocarro, depois outro até à nossa dormitória e adormecida aldeia-bairro. Eu falava-lhe de Carlos de Oliveira, a prima, muitíssimo menos bonita e muito mais católica do que ela, pedia-me para tocar órgão à missa, coisa que fiz por causa dela, da minha, cujos olhos eram de um veludo de que a indústria tirou cópia de brilho, exemplo de textura e justaposta patente de mansidão e maciez. Eu pairava como um anjo sem mortos a tratar. Tinha acabado de descobrir Correia Garção e o Padre António Vieira – e a vida parecia-me compaginável com o viver, coisa que se me arredou vivendo, como a toda a gente sucede. A biblioteca do Liceu era uma casa clássica. Entrava-se noutro tempo entrando nela, dentro de outras cabeças e de outros corações. Eu ia fazer dezoito anos, a biblioteca já tinha feito isso muitas vezes. Fidelino de Figueiredo (capas verdes), Hernâni Cidade (encarnadas), Guerra Junqueiro (amarelas), Raul Brandão (azuis), Tolentino (brancas com filete encarnado), Bocage (azuis), Sá de Miranda (ocres), António Ferreira (verdescuras), Afonso X o Sábio (castanho-ferrosas), Eça (douradas), Óscar Lopes (grenás), Catulo (cor-de-rosa), Simenon (verdazuis e negras), a Vida (arco-irisada) – a outra – tudo ali demorava a vida que eu queria ter e não pude senão perder, a caminho das vidas que (se) sucedem no fogo-de-artifício da fixação adulta, hasta la muerte, em sorites. Fiquei com o exemplar de Fidelino de Figueiredo. É verde. Vai para uma das prateleiras. Não consegui sonegar o Teófilo Braga que, tantos anos depois, encontrei retratado no Julião Quintinha de Imagens de Actualidade (o velho, muito pobre, muito perto da morte, recebeu em casa o publicista – comia ladrilhos de marmelada e arroz magro, fazia um café chilro que lhe perfumava a solidão inequívoca, terminal).
Tenho sido a aranha destes fios – destas babas. Continuarei sendo-a: nada me sobra. É bom. Um homem deve olhar para a obra que fez e, perante os cacos do entulho, dizer – a obra é isto. Tenho as manhãs da montanha, as tardes da montanha, a montanha das noites.


*******

O calmo mar recebo entre árvores da serra.
Anos e árvores acompanham o vento marinho.
Umas e outros voltam a ser da terra
como o vinho e a água e a água e o vinho.

Recebo calmo, arbóreo, a serra do mar.
Petrificada onda de pétrea maré.
Anda um gajo calmo na onda, pois é
próprio da alma ter calma e ’sperar.

Desesperar, não. O mais é topar
casais de pastelaria. Tudo é litoral.
O cume da serra disfarça de mar.
O mar acalmado, de pedra e cal.




*******


Algo vos disse de café e de anjos terminais. São os internados pós-tuberculose. Isto, o Caramulo, era uma estância magnífica, dezoito sanatórios full time, contra o Bacilo de Koch. A partir de meados da década de 70 do século passado, fecharam as casas grandes. Duas ou três ou quatro foram recicladas em terceiridades e/ou hospícios psicotrópicos. Os muito velhos não saem de entremuros. Os outros vêm ao café a horas certas. Todos fumam, pelo que são divisíveis em dois grandes únicos grupos: os que têm sempre tabaco e os que nunca têm tabaco. Eu assisto. Formigo a minha carreira em pose de assistente. Anos e anos, linhas e linhas, cigarros e cigarros, páginas e páginas. Isto não é uma brincadeira. Há Segurança Social nisto, nisto há fortunas de família. É a sorte pequena e a terminação. Velhice, droga, álcool e outras ornitologias. Esses anjos já não estão: são: daqui. Integraram-se na paisagem como árvores móveis. Pouco móveis, aliás. Vou dizer.
Depois do pequeno-almoço, vêm tomar café em mesas separadas. Fumam. Um segundo depois da chávena, voltam à estatuária da serotonina-gota-a-gota-de-fluoxetina. Existem marmoreamente. Estão uma hora, duas: do nosso mesmo alheio tempo. Quando debandam, debandam apelados por um relógio já interior, clínico para sempre, para sempre isto. D-existem. Depois de almoço, retornam. Tomam café, fumam. Emmesasseparadamente. Enchem os cinzeiros de bocados de papel: frases, décadas, todas outras, décadas e frases. Há um que escreve. Já sobrevoei o caderno dele, roçando a montante esse rio de tinta. É noutra língua – o que escreve. Não pude ler. Eu também escrevo – a jusante.
Tenho águas. Uma viagem de carro, anywhere you go, é-me suficiente para libreto de espirais de casca de caracol. Águas, portanto. Muito bem. Certas crónicas familiares (portanto íntimas, portanto da pobreza que achava na ideia de livros a Ideia, o Livro) começaram empurrando cedo este carro: este barco. As crianças ouvem falar. Quando envelhecem, pensam ter dito. Mais: pensam escrever. Não. Não é verdade. É falsidade.
Brancas fêveras agalinham os primeiros apetites masturbatórios. A ideia-montra alastra a partir da ourivesaria-raparigas. Digo isto: talvez 1978, vivia ainda Julio Cortázar, morria Ruy Belo. Sim, nesse Verão de tira-e-mete-pele, essa espermática morte da infância. Essa coisa imperdoável: um corpo deixar morrer a infância que o (i)lustra: essa coisa que não mais o corpo (nem o copo) há-de (hão-de) perdoar.
Eu não perdoo porque recordo. Falsamente recordo todas as irrisórias verdades do meu corpo. Perdoavelmente recordo? Haja cristianismo. Haja literatura, que é o que os homens fazem quando as mulheres conseguem trabalho para sustentar a casa.
Tudo isto é tão sério, que só pode fazer rir. Assim o espero. Tenho umas chilras luzes da Teoria da Recepção. Mas o Althusser parece ter estrangulado a esposa. Buchenwald, ex-RDA, ex-Hitler, ex-Jorge Semprún. Tenho umas luzes. Não dão para um iluminismo. Não é suficiente partilhar um motel. Não chega ter escurecido com a noite para adverso exercício da genitália contra uma mulher quase qualquer. Carlos de Oliveira cortou versos da década de 40 em 1969, depois 1976, dedicou-se a morrer em 1981, ano da loja em frente à Barbearia S. Paulo, Trancoso, ninguém mexe. Tudo isto é tão sério. Recordo sem precisão o triénio 1982-84, época em que visitei com o Jorge uma clandestina casa-de-pasto da nossa cidade. A nossa cidade era Coimbra. Subia-se da Sá da Bandeira para a Antero de Quental (o poeta que se matou quando a banda tocava,


quando êle se suicidou, tocava bem perto, no átrio do Convento de S. Francisco, uma banda militar, que nesse momento executava a partitura da ópera Sapho (*).
(*) Este pormenor foi-me contado pelo sr. Joaquim Cruz, que era músico militar em Ponta Delgada ao tempo do suicídio, e ainda se recorda da funda impressão que ele causou.
Julião Quintinha, Imagens de Actualidade, pág.203 ),

mas não se chegava lá. Uma família abria a casa, comia-se barato e bem em casa deles. O meu irmão descobria estas coisas. Não as queria para sempre, como eu queria, mas eu era mais novo do que ele, tão ao contrário de hoje.
Também isto passa, rio alheio a festividades: as sinceras e as falsas: as rainhisabéis e as outras que não perduraram no operariado católico. (Na biblioteca do Liceu, a Crestomatia Arcaica e outras delícias de açúcar velho.)
Há aquele funeral em Antuzede, mas não tenho crononúmeros para ele. Sou muito pequeno, muito infante (embora infante signifique o que não fala – eu já falava, só não dizia). É o enterro de um homem velho. O meu Pai teria cinquenta anos, talvez nem tantos. É muito cedo na minha vida, o que conto: como quando acordo. Há um corpo vestido de caixão. Há um sol branco na praceta sem obras: as aldeias eram, então, ínvias e silvestres e desérticas e portuguesas. Estou a ver corpo e caixão do alto de uma barreira de terra crua, cuja retaguarda hoje associo, mal decerto, à casa de meus tios António & Laurinda (cujos funerais vivi, depois, em S. Facundo, não longe da original Antuzede). O corpo morto, os homens escurecidos, a luz branca, a infância toda: essas praias trágicas. Passado um pouco, a mão do meu Pai penetra num arbusto e volta, mágica, com uma maçã. Não é o mesmo dia? É. A maçã é ácida e alcoólica. Penetro-me todo desse sabor memorial. É o meu Pai. É a Oferta. É ele Tratar de Mim. É tudo maiúsculo, em pequenino, como na má prosa.
Do tal morto, nada sei. Este mesmo ano de 2007, voltei a Antuzede para um funeral, o do pai do meu amigo Joaquim Jorge. Era o mesmo sítio. Vi chorar o mesmo sal. O País era. Voltei para casa sem trocar o filme.
Sei algumas coisas. Furo-as para sabê-las. E, do coruscante imo de sombras, painéis de azulejos pintados pelo meu operário Pai tocam a celebração angélica, como se ele morresse, como se ele morresse, como se ele pudesse morrer, como morreu o irmão dele nascido em 1914, Alberto, no Caramulo, dia 14 de Agosto de 1980, como morreu o meu irmão nascido em 1954, Jorge, em Coimbra, dia 23 de Maio de 1986. Não. Espera. Dá tempo ao Grande: ao Tempo. Dou:
é uma noite de violas e guitarras, vozes de mulher e senhas de vinho tinto para caldo verde – 1984, Pedrulha. O apresentador da noite vai assassinar à facada, dois anos depois, um rapaz da terra ex-emigrante na Suíça. O apresentador também é da terra. Não é assassino, vai sê-lo. O primeiro crime dele é interromper um namoro vitalício de sete ou oito anos. Ela é bonita, seio perfeito, respondona, olhazeviche. Ele foi hippy em França, tem lá um filho sem retorno, é matriculado-para-não-acabar-nunca-em-Psicologia. O rapaz morto é, quando vivo, vivaço. Tudo acaba (tudo começa) no Junho de 1986. facadas: duas dezenas e meia. Morte pública: sangrando junto ao poste amarelo-branco do autocarro. Dois anos antes, o Grupo Cultural afiambra uma noite de fados. Sou um dos violas. Tenho de transitar entre veteranos e mocidades. Tenho de tocar à antiga. Tenho de parecer novo. Tenho vinte anos. Não tenho nada. Estou vivo – é tudo. Ainda não vou ser assassinado. Nem assassinar vou. Encontramo-nos depois, anos largos, eu e o perpetrador. É num café da rua, em frente ao prédio da mãe dele, local do crime. É muitos anos depois.
De modo que se morre de tanto viver, enquanto a banda toca.

4 comments:

Fernando said...

Amigo Daniel perdoa a ousadia do trato.
O texto está simplesmente delicioso.

LM,paris said...

manha de todos os dias, bonjour.
o daniel mata-nos com estas coisas..." (...) erguiam-se do chao
as adormecidas", " o jardim penteado pela brisa", " ladrinhos de marmelada com arroz magro", " eu pairava como um anjo sem morto para tratar"...
vou começar a transcrever as perolas do daniel!
Vou passar a fazer so isso,
hà muitas, nao teria mais que essa vida, seria boa e encheria mais que so cadernos.
Ando por ali como num fime do Tarkovski, por dentro, nao sei como faz, vê-se tudo, sente-se demais. um bom domingo para si, pour la montagne recevant la mer.
abraço de LM, paris

José Antunes Ribeiro said...

Olá, Daniel!
A Lídia tem razão...nosteus textos paira a sombra do Tarkovski!...
Tenho o privilégio de te ter apresentado a alguns (excelentes!) amigos!
Um abraço! Também para a Lídia, minha amiga há mais de 30 anos. Como passou o tempo...Ou fomos nós que passámos?...

LM,paris said...

Olhem amigos como esse também tao imenso, Andrei Tarkovki nos enche ainda e vamos como pela primeira vez, reconhecendo desde ao pormenor da luz a descair do tecto, a lentidao do andar do cao lobo, o barulho do comboio quase dentro do quarto, a estremecer a mesa , principio de Stalker.Passamos, fomos passando intemporais nos passos incertos mas pelas maos dos poetas acompanhados, que boa é a vossa companhia.
Acho que é a musica, a respiraçao que se apanha na suas escrita daniel, que me aproxima das imagens de Tarkovski.Alba e esperançosa manha de todos os dias parece que vens ai e nao durmi ainda. Um abraço de paris
LM, paris