Saturday, September 15, 2007

So(m)bras de Setembro

Foto:
Estação de Bagdad, 30 de Maio de 2007
© Associated Press



Com metódica desarrumação, vão-me surgindo no caderno sobras de sombras. Talvez sejam poemas. Duvido de que o sejam deveras, mas, na dúvida, deixo-os aqui e não volto por eles.

Tábua

I.
SOU DADO A T.V.
– Caramulo, noite de 9.9.2007

II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS
– Caramulo, tarde de 12.9.2007

III.
MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES
– Caramulo, entardenoitecer de 4.9.2007

IV.
TODO O NILO ARDEMOS
e OUTROS COISOS
– Caramulo, tarde de 8.9.2007

V.
MOBILIÁRIA
– Caramulo, entardenoitecer de 5.9.2007

***********************************************************

I. SOU DADO A T.V.

Vi o homem descendo do expresso, duas ou três
pessoas entre nós, penultimava eu a coxia,
reparei nele pela mesma sem-razão de nascermos,
esqueci-me dele enquanto o via descendo,
a maleta de couro na mão dobradiçada
a cobre.

Usava chapéu como usava os olhos: coisas
que estão na cabeça para o resto do corpo não confundir
a hora de impedir a luz
com
a de limparabrisar as lágrimas.

Ele era um corpo velho de mais para que
se não notasse a frescura do fato novo.

Cambaleava com as mãos, o que dele
me sugeriu uma condição de gaivota ou
de homem dado à tristeza vitalícia do álcool.

Voltei a lembrar-me dele vendo-o comprar
cigarrilhas de creme no quiosque da gare.
Por instinto entrei no bar antes dele, eram
dez da noite, o serviço rarefeito haveria de
permitir reavê-lo na luz crua
de todas as chegadas.

Ele chegou com as cigarrilhas, pediu água,
vinho e um pão com peixe frito.
Bebeu a água de uma vez, comeu o pão
devagar, guardou o vinho para o fim.

O fim era a álea de táxis. Ele pareceu
hesitar um pouco, eu resguardei-me na
sombra. Ele entrou num carro e dissipou-se
como gelo numa toalha deixada ao sol.

Eu fiquei.
Não uso chapéu, não trago maleta, não
tenho aonde ir e sou dado a
tristezas vitalícias,
também.



II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS

1. Rápidas Pupilas Negras

Rápidas pupilas negras riscando o céu:
os pássaros do entardecer.
Riscam riscam riscam riscam:
caligrafam a pauta da noite
a somatória noite dos riscados ofícios.

Todo o dia toda a vida os espero
estes pássaros estes riscos
este escrever anoitecedor.

Deveria talvez ter escolhido uma profissão técnica
não este ofício estéril de sacristão nocturno
é tarde não vou escolher outro
a Mãe
desculpe.

2. Semana Armada

Deponho à noite as minhas armas
desvisto o dólman fico nu
faço chàzinhos oro a karmas
invoco a Deus e a Belzebu.

Sábado vem vou eu dançar
ao Clube das Três Mariposas
aquacolonizo a andar
atrás das putas mais vistosas.

Vem o domingo morro em casa
sofá suscito piedade
na Associação jogo uma vasa
bebo uma ginja sem vontade.

Chuva devém segunda-feira
quando foi sol na minha vida?
a vida pesa por ligeira
passa tão breve tão comprida.

Às terças sofro eu de outonos
folhas volitam-me o pensar
caduco cai o caducar
abro bocejos de mil sonos.

Às quartas pronto vem a esperança
de só três dias p’ra mais dança
dá-se uma volta pela vila
ninguém me vendo coço a pila.

Quintas e sextas siamesas
já falta pouco Mariposas
águas de malvas e de rosas
duvidar nunca de certezas.

Pior a noite cada dia
não ser a noite uma mulher
chegando a noite eu chegaria
noite do dia um qualquer.

Todas as armas deporia
pois se as um homem depuser
merece à noite por alegria
despir o dólman ter mulher.

’ssim sendo não não foi ainda
talvez não sej’ ou venha a ser
a morte é feia a vida é linda
é uma maneira de dizer.

Passa tão breve tão comprida
tão fora que nunca penetra
deponho à vida a minha vida
deponho as armas etc.

3. Movilização

Devo estar a envelhecer porque sinceramente
tenho já menos certezas do que móveis
molham-se-me já os olhos ante coisas risíveis
como o mar dando leite o céu dando marés.

Já nas encruzilhadas me benzo rápido
dos retratos as alminhas minhas me acossando
ouço tipóias cavalpedratrotando
por noites de areia e bosques de litografia.

Sinto avós roçando saias pobres de chita
que m’aveludam a nostalgia nas sinapses
ser neto de mortos capuchinha a vermelho
o coração exposto aos lobos da velhice florestal.

Devo estar a envelhecer porque logo topo dos moços
e das moças a afiambrada ansiedade
das glândulas das sublinhas dos leites do mar
e da vibração fria da órbita lunar.

Também me acontece estar hoje por exemplo em 1984
e o boletim meteorológico corresponder a 1975
num clarão humano de água cor-de-ouro
a engraçada chuva magra través os laranjais de 2007.

Lojas de móveis na noite parecem-me casas de que fugiu
gente. Olho-as ainda com a tristeza jovem
dos que querem casar-se e ter psychés cómodas
cabeceiras camas prosperidades imóveis.

Tenho os móveis.

4. Do Recibo Verde e de um sem Utente

Correndo a noite, teu rosto espelha ainda montras
de lojas de ferragens, ourivesarias e sétimos-dias
de um outro Cristo vendido a dízimo.

Quando ao teu rosto acorrer tão-só o espelho
do armàriozinho de medicamentos,
pensa na juventude mamilar dos limões,
no bom que foi ter ido às laranjas.

Ainda marchas pela mesma ambulação.
A cidade é pródiga de filhos voltados
ao contrário.

Não terem as laranjas mamilos.
Não deixou de onanizar, jamais em
tempo algum, a efervescência
até citrina, cristina e cristiana
de alguém que, como tu,
foi à noite eterno – e hoje
corre a noite ao dia
e à semana.

5. Sacramental

Que nos diga
um poema
alguma coisa da vida
enfim
não está mal
até uma notícia
serve p’ra isso.

Que um poema
nos diga
alguma coisa
para
a vida
bem
enfim
temos de ir aos clássicos
que
escreveram
da vida deles
para
a vida dos outros.

Assim
de repente
não sei.

Não.

Sei.

Bocage.

Machado.

Rimbaud.

Eliot.

Rilke.

E o senhor Sacramento da minha rua,
não era poeta, era
pai dos filhos e dos do outro,
que antes de morrer de cancro tabágico
foi um homem bom e nunca
escreveu outro verso senão
este:

Bom dia, menino.

6. Declaração Sinceríssima quanto a Merdas Pagas pela União Europeia que Tenham só Sumo de Laranja e Águas

Não muito fui e nada irei
a recepções que não recebem.
São percepções dos que percebem:
já fui, não vou, não voltarei.

7. Ente

Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo ser.

8. Utente

Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.

9. Fim do Verso Primeiro de Movilização

Trago muitas vezes para casa
coisas que já levava à saída.
Coisas que a ninguém adiantava
nem ao regresso nem à partida.

Mas essas coisas importam
e exportam.

São a munição de um barco.
O dev&aver de um estivador.
A flecha de um arco.
O lixo de um contentor.

Porque sinceramente.



III. MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES

1. A Leste como a Oeste


A salvação do desespero está na bifurcação.
O caminho há-de ter cornos, a montante.
Timshol é a palavra fundamental: está em
East of Eden, que Steinbeck escreveu, mas adiante.

A salvação está na recusa dos termos do desespero.
A realidade ofereceu-nos uma língua: não com ela
lamberemos, antes viveremos dizendo.
Eu digo bifurcação, mas pode que outra seja a
palavra.

2. M.O. é G. quando T.

O mínimo olímpico é a glória quando a tristeza.

3. Soneto Sujeito a Retenção

Passo a vida nas repartições de finanças
a desejar um Haiti não descontável.
Sou (todos o dizem) pessoa amável
– e não é meu uso maltratar crianças.

Na fila p’ra pagar seja o que for
escuto sem ouvir os Portugueses.
Assim saudades (e assim amor)
m’ilustram íncolas tão corteses.

O mais é menos, é estar vivo.
É ser da lã outro cardado.
E hip-hopar tango e fado
e atender o idiota televisivo.

Quem nasce em Portugal, em nada é morto.
Em nada, é morto, o nado-morto.

4. Ambulatório. E Orográfico

É-me muito evidente o humanismo costureiro
dos arvoredos.
Bosques terminais devasso ainda e sempre,
os não ardidos.
Orografia e sapatos de lona entrecruzam-se-me
em as ambulações
ando muito, não vejo muita água,
vejo casais empobrecidos
pela teimosia
da associação.

Cães transparentes medusam
pelas ruas aquárias.
Árvores japonesas nostalgiam orientes.
E dias há que são diferentes.

Não as noites, iguais como mães:
roxos engendram para virginal mamadura
de procissão à base de leite e de vinho.
E de transparentes cães

às pedras do que vejo
ladrando.
Vou andando.

Além, uma cordilheira de lixos
frapeja bandeiras de esterco voador.
Mais acolá, uma língua de restaurantes
açambarca camiões.
Estações de serviço: insucesso escolar e
magazines ao gosto europeu.

Na orla da barragem hidroagrícola,
espremem pontos brancos
os utilitários enamorados:
são as quecas dos vendedores.

Bucolizo, porém, eu, que, filho
de pai e de mãe
(e, ao demais, virgulador encartado),
sei o meu quanto de fado
e, até, sem rosca de sarilho,
faço minha rima também.

Circulo, quadrado.
Lonas calçadas em orografia.
Um pouco cansado:
de noite e de dia.

5. Em Verso para a Entidade Reguladora da Coisa Social

Ao contrário do garantido nas crónicas missionárias,
abecedário resumido das tónicas assassissocietárias,
não deves ejacular deuses de pagãs comichões.

Nem tens depois de ser FM Pinto
nem antes LV Camões.

Deves ser um homem se estiveres para ser homem.
Ou mulher se isso para mulheres.

Não deixes que te capem ou ceguem, nunca:
muito menos com escumalhas e assessorias
da democrata espelunca.

6. Muito Novo em Peniche, ao Vento

Eu era muito novo e o vento também
vinha de lado como eu.

Ajudei a mudar móveis de casa para casa,
em Peniche, surpreendido pela
omnisciência ubíqua do mar
peninsular.

Eu era tão novo, que nem descobrira
que comer merda pode ser uma vocação.

Conheci no istmo ’ma mulher triste.
Chamava-se Hª Lx., não sei s’inda existe,
não sei, não.


As minhas mãos no comboio que vai para o norte.


Isto é um verso escrito por ela.
Ela sobrevivia num quarto com livros
sem estantes.
Ela só tinha instantes – e livros –
e este verso maravilhoso.

Nunca mais a esqueci.
Não mais o vento a esqueceu.

Eu tinha um colega de Geografia
que depois se tornou mercador de gangas
de marca.

Eu tinha um colega de Matemática
que depois deixou de beber
e voltou para casa
no norte.

Eu tinha um colega de Pataias
que comprava heroa ao grama
e pronto.

Eu tinha um colega de Barcelos
que unhava o cavaquinho.

Eu tinha um colega palestiniano da Covilhã
que, pronto, era ele.

Eu tinha 22 anos.

Nunca percebi nada que não fosse a
Nau dos Corvos.

Nunca vi nada em Peniche que não fosse a
maravilhosa oferta a dez escudos
de tantos livros do
Vilhena.
(Comprei lá também um
Carlos Fuentes, O Velho Gringo,
no dia 28 de Abril de 1987.)

Eu era um anjo suspenso: meses de nada,
um pouco antes, tinha-se-me ido
o Jorge.

Eu era aprendiz de professor,
(mas nunca aprendi),
tinha 22 anos, não tinha
nada a dizer ao futuro.

Vale que havia o vento.
O vento de Peniche é o vento mais humano do mundo.

Também havia o senhor Alfredo
e havia o senhor Manuel
e havia o Cesaltino
do Nau,
um café que era ao pé da muralha,
já não é.
Havia, à janela do Nau, o ex-embarcado
da Marinha Mercante que lia
livros espíritas, vestido de branco
contra a pele solária acima
do escaracolar dérmico dos pés
nas sandálias mariconças.
Tinha uma pancada muito jeitosa, esse senhor.
Acho que já morreu.

Fui à Praia da Consolação, mas
não encontrei Ruy Belo,
devo ter-me atrasado,
oito sete, sete oito.

Perto da muralha, uma cabine telefónica avariada
deixava telefonar de borla. Telefonei muito.

Um dia, de repente, choveu tanto,
que entre os Correios e a Caixa Geral de Depósitos
não se podia passar sem
carta de Cristo ambulatório
à tona d’água.
Telefonei todo contente do Banco para a Escola:

Olhem, vou chegar atrasado por causa distassimassim.

E cheguei.

Ainda hoje chego.

Vale que hoje,
mesmo longe,
está vento.

Estou é menos novo.
Isso e sem nada que dizer
ao futuro.

7. Mãe

Amo-te antes de morreres
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

Amo-te antes de morrer
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

8. José Mário Lírio Branco

Um lírio é branco na água controlada
de um tanque municipal: coerência, senhores,
coerência.

9. Se Deus por Acaso Fosse

Já agora, que olhasse também por isto aqui em baixo, carago.

10. Telegrama para Fernando Álvaro Alberto Ricardo

O que sinto, é mal pensado.

11. Enquanto Elas Não Varrem, Tu

Vem, uma vez mesmo depois.
Anuncia-te pela trémula comoção das empregaditas do restaurante.

Nem de anjo te peço.
Flanelei já minha infância.
E d’adolescência não mereço
nem memória nem distância.

Ainda assim, olha, vê – e vem.
Está aqui um homem cujos impérios
são o cigarro a 3.15 o maço, menos ou mais,
e outras tantas imperiais.

Trabalho ainda, sim, ao fosco lusco-fusco.
Adianto braçadas de lenha ao rio.
Mato aves carnívoras, pesco safio
– e tenho certa ciência do molusco.

Conheço o Prévert, sim, ’té lhe dei lume.
Sou um tanto tóxico de ciúme.
’ind’ assim vem: vem, que o meu costume

é rimar sozinho, sem comoção
das empregaditas da restauração.



IV. TODO O NILO ARDEMOS e OUTROS COISOS

1. Todo o Nilo Ardemos

Os nossos pés são animais da terra.
Nascem rápidos, correm todos os caminhos e todos os
perigos, morrem verticais.
As nossas cabeças são máquinas voadoras.
Voam sempre, mas com os anos voam mais e mais
baixo – porque voam para dentro.

Entre uns e outras, está o resto de tudo
o que nos é dado.
A alma, que é uma consequência da regularidade
da digestão, participa da tragicomédia geral,
de que a nossa é particular manifesto, com uma
sisudez de glândula – como as outras,
Maria.
O sexo é infantil toda a vida, sobretudo
perto do fim.

Não temos um corpo: somos dele: somo-lo.
A vida e a morte tornam-no ponte.
Somos o vento na ponte.

O piso da ponte é de terra: temos animais para ela.
Ao vento levamos palavras voadoras, maquinais.

Cumprimos o apelo da água chorando,
cuspindo, ejaculando, sangrando, suando, bebendo,
falando.

Todo o rio ardemos de ponte e alma.

Os Antigos não nos deixaram continentes a descobrir:
por isso habitamos ilhas – para dentro,
baixas e baixas, mais e mais,
com os anos.

Tiracolamos oblíquos pássaros negros entre
ombro e quadril: atravessam o coração,
enegrecem-no de não estéril lodo.

Às vezes, comparamos o coração ao Nilo – mas não.
Nilo é a morte e é a vida: isto de nós
é a ponte.

2. Ser o que Não Volta

Outubro, outono e rosas
voltarão à minha vida
para ser tudo
o que há
ao quase alcance
da quase mão
que quase sempre uso
para quase tocar
a minha vida
que não volta.

3. Grega, Fenícia e de Cá, a Pessoa

Mágoas viris são flores junto ao pântano público do mar.
Vejo daqui uma delas, a do homem grego
voltando a casa, pela tardinha da Antiguidade.
Pedras cuneiformes riscam o passeio deste homem.
Fenícias barcas juncam o porto da norueguesa capitania.
Avionetas riscam longitudinais reclamos no céu, a giz.
Crianças crestam a praia à lareira do sol.

Pesa na oleada água de tainhas a mornidão das barcas.
Riscam cruzes rápidas crucificados albatrozes.
Tudo é todo o, como este, homem a casa voltando,
ao cabo do dia de trabalho em alguma repartição
de Alexandria, antes da Guerra, a Grande, a II.
E o fato escuro deste homem é uma máquina magoada, viril.

Sombra ele derrama como um cobertor à insónia da luz
olímpica. Vendedores de pevides tremoçam escarlates
salsaparrilhas com capilés-de-alicante. Não é noite,
excepto no poeta grego, dentro dele, cercado já e ainda
e para sempre pela inverosimilhança da possibilidade
de regresso – a casa, aonde for.

Mais direi:

um homem magoado profundamente só por acordado
ter, outro dia. Grego, não gregário, de fato escuro
na correcção ortopédica do Martinho da Arcada,
enxuto o Cais das Colunas, num Portugal que não,
nunca, vive para o mar.

Tiras de entremeada e tosses de gasóleo acodem
à visão odorífera, na tremura de vidro do ar em dias
– ele há dias – de calor.

As máquinas trepidam – mas não muito.
As máquinas estremecem – mas não de mais.

Homens voltam a nenhuma casa a que chamam sua.
Não chamam, mas nós dizemos que sim.

É toda a vida isto: poetas gregos, um porto antigo
e o futuro,

que isto há-de ser, no passado,
de fato.

De magoado facto,
fenícias barcas etc.



V. MOBILIÁRIA

(Estabelece comigo algumas regras outonais.
São para a que desobedecer, queres?
Temos vivido entre mil gentes
entre crianças, velhas, velhomens e mulheres.)

A breve estrela separa coisas no céu da casa.
Há colheres lavadas e histórias não limpas.
As pessoas estão dentro da casa, imóveis,
como pardos parados móveis de pau.

As pessoas habitam muito a condição transeunte.
As pessoas colam estrelas de prata tatuada
ao peito das fotografias – e depois não são elas.

Depois, elas são estrelas tatuadas de nenhuma prata.
Depois, elas estão no mesmo antes agarradas
ao mobiliário.

Eu digo mobiliário – como podia dizer
versos.

Eu digo versos.

1 comment:

RC said...

Vida sem lixo é a que seja vivida por aqueloutra razão que envolve o tal segredo de justiça íntimo, que esconde inelutáveis, indesejáveis e adstringentes prisões preventivas. Sacramental é o escreveres. A falta que um "bom dia menino" faz - que é o tu escreveres - não se limita pelas palavras. Muito menos pelo cancro, como o provas. Quanto ao timshol - Caim matou o Outro muito embora pudesse ter escolhido outra coisa menos posteritária. Rousseau sabia-o e mandou isso tudo à merda. Fez bem. Contentes contentores evidentemente. De lixo, evidentemente. E depois?


Lindezas:

"Usava chapéu como usava os olhos: coisas
que estão na cabeça para o resto do corpo não confundir
a hora de impedir a luz
com
a de limparabrisar as lágrimas." - sublime


"a morte é feia a vida é linda
é uma maneira de dizer."

"Devo estar a envelhecer porque sinceramente
tenho já menos certezas do que móveis" - sublime

"ser neto de mortos capuchinha a vermelho
o coração exposto aos lobos da velhice florestal." - belíssimo

"utente de vida"

"Cães transparentes medusam
pelas ruas aquárias."

"vejo casais empobrecidos
pela teimosia
da associação"

"Não as noites, iguais como mães" - sublime

"verso maravilhoso" - e como.

"Amo-te antes de morreres
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas." - sublime

"Sou um tanto tóxico de ciúme"

"morrem verticais." - os pés. brilho.

"A alma, que é uma consequência da regularidade
da digestão" - nada mais sério

"Não temos um corpo: somos dele: somo-lo.
A vida e a morte tornam-no ponte.
Somos o vento na ponte." - belíssimo


Lindezas. Finuras. Laços e fitas. Sedas e veludos. Obrigado, querido Daniel.