Thursday, September 13, 2007

A Noite em Breve - 9

Foto: © Cathy. H
Madrugada na Ponta de São Lourenço, Madeira
A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)
9
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Agosto de 2007

Quem me dera saber escrever, tal que vos resultasse filme o que me é dado ver, agora mesmo: o vento dando por baixo dos castanheiros, ao fim do dia. Tanta força, tão delicada força, a força de ambos os lances do mundo: o vento, os castanheiros.
Ao cabo de um dia bom (muito trabalho, quase sempre de pé, mas trabalho limpo e honesto), descanso pés e olhos no café dos anjos terminais. Há um Naval-Belenenses na televisão (zero-zero ao intervalo). Sub-reptício, tiro os pés dos sapatos, desincham ao fresco. Tiro os olhos de dentro, deixo o olhar ir com o vento a refrescar-se sob os castanheiros. O dia foi solar, o entardenoitecer acontece num céu de glaucoma.
Todo o dia me permiti a paz das palavras sem literatura: as que designam as coisas sem transcendê-las. Foi como se recordasse o mar perante o mar. Sábado passado, aliás, aconteceu-me isso. Perante o mar, recordei o mar.


Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.


Perante o mar, sábado passado, foi isto que se me escreveu na cabeça. Não precisei de um papel para retrabalhar a frase (o verso?). Ficou-me. Domingo, fui a casa da minha irmã buscar mais sacos cheios de livralhada. De hoje a oito dias, vêm a minha casa o Rui e a Cecília para montar as estantes. Anuncia-se um dia feliz, portanto. Não é mau, viver um dia feliz, ou dois ou dezoito, na vida. É bom trabalhar em várias coisas. Deixar o caderno fechado para aí uns dois dias: que veraneio! É bom merecer, pela noitinha, a chávena de café bem quente, a cerveja fria, o cigarro de lótus na boca budista. Tenho ali o le Carré, gosto de o ter à mão mesmo que o não leia de momento. Às vezes, os objectos não mapeiam a inquietude. Há vezes em que cedemos à sua condição estática e extática.
Um dia, recordarei este dia. Não porque fique escrito (não fica, um dia não é legível), mas porque passa da escrita para a dimensão da oratória: “Recordo-me de 20 de Agosto de 2007…” – ou algo parecido: uma sombra numa frase própria.
Continuo no vento sob os castanheiros. É no sítio do largo reservado aos táxis. O glaucoma deu lugar a uma bonita pátina azul-escura. Em menino, gostava desta cor. Ainda gosto, mesmo longe do menino. Muito longe: uso fato cinza-quase-negro, camisa branca, correctíssima gravata de um grená amortecido a sombra, meias pretas, sapatos pretos. Estou bem penteado, raspei a barba. Roo menos as unhas, pareço um dos alguéns masculinos que vi passar na minha infância como promessas cumpridas.
Se pudesse ser, dormiria esta noite na montanha, a Via Láctea por telhado, entre fragas protectoras. Um saco-edredão, uma garrafa de água, uma almofada grande e a esperança de sentir a vizinhança rápida de uma raposa – gostaria dessa noite, esta noite. É possível que, um dia, uma noite mereça assim. Poderei ser o soldado que sobreviveu à emboscada, dormindo abraçado ao rifle que o há-de proteger dos batedores inimigos. Poderei ser o marinheiro no beliche do porão, entre sacos de biscoitos secos e carne salgada, dormindo entre medusas feitas de água dos olhos e mansos tubarões. Poderei ser o norueguês que conseguiu no último glaciar a primeira fogueira, dormindo entre mapas novos de gelos os mais antigos.

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