Friday, September 07, 2007

Do Coração Portátil do Mirone de Afogados em Barragens




1. De Todo

Um coração portátil é o que temos
que por alguma razão nossa
não muda nunca de sítio
por mais sítios a que o levemos.

Mudamos de casa e de estação do ano
nada adianta que ele não atrase
que ele lá está onde o deixámos
fixo movediço como o oceano.

Relógio da mesma hora futura
nascimento e fim marcando
bomba de sangue de bolhas de ar
subindo e descendo a hora pura.

Um coração é o que usamos por defesa
do indefensável descoroçoante mundo
vivendo gastamo-lo amamos morrendo
possível que pulse que não pulse concerteza.

Na treva do bosque em noites de lua
surge pendurado qual corda de roupa
partida de um lado do outro pendendo
quem não tem mais gasta a nada o poupa.

Um dia que do portátil alguma corda se parta
tal que ela se partindo nós partamos
não sei se esse há-de o dia ser que conheçamos
se muito viajámos ou só ficámos.

Penso eu que não ficámos.
Nem ficamos.
Mas enquanto temos estamos.

Claro que digo isto de todo o coração.



2. Termina o Dia do Mediador de Seguros

Termina o dia, depõe suas armas.
Aljavas deitadas, setas não voando,
recolhem guerreiros a suas mastabas
de barro e palha em paragens ermas.

Sangrado o ocaso, veludada a noite,
a ímpia ave não pia deitada.
Vem ’ma morna brisa de leite ou azeite,
ressuma da brasa carnação assada.

É um tempo parado: o ter merecido
em casa o cachimbo, em casa a paz.
Tornando a fogueira, com caldo fervido,
sopram as papilas a mãe e o rapaz.

O homem tranquilo alonga as tíbias,
não pensa sequer clicar internet.
São onze, são doze ou zero?: isto são perfídias
do sono-sofá que ao corpo derrete.

Na alba fresquinha, o renascimento
vem todo de lado como uma janela.
O mediador (um olho, um momento)
preguiça um momento de cor amarela.

Um polibanhito e sempre um cuidado
em não acordar o filho alheio.
Manter uma casa é dar por criado
o próprio e o não e o belo e o feio.

Séc’lo XXI, globalização:
casas inseguras contra tempestades.
Vem da humana condição
o ser insegura das próprias vontades.

Carlos Alberto Teixeira Amorim,
assino em baixo, que falei por
mim.



3. Cartas para o Mudador de Móveis

Alheando em casa uns móveis de cantos
tropeço pés de páginas embolorecidas
’mas são das finanças como sempre fartas
de alembraduras as mais esquecidas.

Outras são de gente que tal é diferente
recados chegados de algarves baratos
ao tempo postal que tal se só sente
quando os cães sem gatos e os gatos sem ratos.

São palavras breves de gráfic’ azul
riscadas num credo de eternidade
mandadas p’ra norte origem do sul
vê se podes vir que temos saudade.

Nunca fui não sei responder à missiva.
Eu só mudo móveis não sei como viva.



4. Fala um dos Mirones do Afogado da Barragem

Derivas ainda, alguém afogado
na minha água.
Entendo que recorras ao entardecer
para de novo me afogares.
Suporto menos a memória de ti
do que a tua memória,
pois que te lembras de coisas
que nunca digo,
só escrevo.

Uma folha de mármore,
a página só de cima escrita.

O vento em volta dos pontiagudos ciprestes,
madeira de berço e de terço.

O breve rosário de cada afogamento.

O gajo que fica,
de aumentada sozinhidão
pelo número de páginas brancas,
pela caneta verde.

A arquitectura de todos
estes loteamentos transparentes:
ar correndo nomes,
datas,
uma data de nomes,
uma data de datas.

Vives enquanto eu viver,
o que é pouco.

Apoucado pela escrita,
moras um pouco mais,
mais monástico e sibarita.

Esse pungimento das flores cardíacas,
na podrágua dos jarros de plástico,
entre sanzalas mecanográficas do Ultramar
e permilagens infantis com cujas mães solteiras
dançaste no Clube.

Esse cheiro a roxo de todos os cristos votivos,
essa lágrima de cera que perdoa por não saber.

Não tão depressa te afogarias,
se soubesses o que custa tanta água,
pá.

Nenhuma razão para alarme, porém:
a aldeia funciona sem ti, há um desenrascanço
notório nos subempregos laborais.

A guita não corre, corre
o vento
nas tabuletas
das oficinas e demais
comercindústria.

Alfarrabistas vendem ainda zolas e steinbecks
ao preço da chuva.
Tudo bem, desde que se não
leia.

Pelas margens da barragem,
curiosos de província deliquiam-se de puro êxtase:
um afogado televisivo para de alguém
a cinemateca da memória
– e os pneumáticos de borracha
dos bombeiros especializados.

Afogar-se é uma coisa, pá.
Derivares-me, outra,
sem luzes nem natação.



5. Soneto para Senhoras Fabulosas e para Acabar

Senhoras fabulosas que não são fabulosas
tartamudeiam cinzaluzes à púberadolescência:
ser burro é quase uma ciência,
que lhes chamar rosas não é vê-las rosas.

A quem se faz filhos? Ou contra quem?
É certo dormir quando o Acordai!
desfralda avisos a pai e a mãe
que não sabe ser mãe nem sabe ser pai?

Na ingente puberdade, borbulhas nas costas
do rosto mamilo e planta de pé,
’ma coisa é chamar perfume a bostas,
que outras são crostas, ciúmes, pois é.

Só virás à vida atrasado
se à morte não arrivares adiantado.



Caramulo, entardenoitecer de 6 de Setembro de 2007

2 comments:

Alex said...

Um coração portátil ... nunca tinha pensado nisso.
Que imaginação!

Ficamos, definitivamente ficamos, a prova viva são esses livros amontoados pelo chão. O cheiro do tempo e que nos fica nos dedos no desfolhar de páginas.

Gostei muito.
Mesmo muito.

Daniel Abrunheiro said...

Gentileza do seu portátil, Alex.