Friday, September 21, 2007

PROSTIPOEMA

Deito-me cedo, levanto-me cedo.
Recebo dias inteiros como pães.
Olho tudo, vejo quase nada.
Colmato com palavras escritas a cegueira
relativa da vigília.
No tabuleiro da pastelaria, assisto
às jogadas dos peões. Sem rei nem roque,
sonham com cavalos e rainhas.
Eu já não sonho.

Indicaram-me esta manhã
na pastelaria
uma mulher que se prostitui por menos euros
que os anos que tem.
Disseram-me que leva uma nota de cinquenta
por atropelo consentido.
À primeira vista, não merece mais de
cinco,
mas ele há prostitutas como poemas:
de cinquenta valendo cinco,
de cinco valendo cem.

Já quase só falo de poemas.
Gostaria que houvesse prostitutas para
falar de poemas.
Só isso.
Pagava-se a uma mulher.
Falava-se de poemas com a mulher.
Não era preciso aquela lamentável
sucessão de imitações: o pénis do pai,
a coisa da mãe, os gemidos brasileiros,
o vai-tembora-queu-jávim.

Escolhia-se uma mulher, ela subia-nos
a um dos quartos da espelunca,
levava-se uma garrafa de licor.
Eu sentava-me na cadeira à janela,
ela aproveitava para ir colando pelas costas
os múltiplos filhos ao álbum familiar.

Por cinquenta euros (ou cinco, ou cem) uma hora,
os preliminares seriam desconstrutivos, ao contrário
do costume da outra disciplina.
Começávamos por apear dos poleiros garnizés como
o Torga, o Eugénio, o Vasquinho do PSD e o
Alegre do P-ex-S.
Depois, iniciávamos, iniciaticamente, a função
propriamente dita – ou escrita.

Eu reconhecia em João Miguel Fernandes Jorge
um dono de estilo; em João Camilo, ela vincaria
o discursor visual; eu, em Vitorino Nemésio, mostraria
o mestre virtuoso da portugalidade; ela, em Alexandre O’Neill,
sorriria de tanta puerilidade; eu, sério e comovido, reconheceria
em Pedro Homem de Mello o Autor do mais bonito nome
de livro: Há uma Rosa na Manhã Agreste; de José Régio, ela,
muito hierática, muito hierofanta, recitaria uma braçada de versos
definitivos e penduráveis como crucifixos;
em Guerra Junqueiro, eu ressaborearia uma oratória métrica
não ultrapassada; e, em Joaquim Manuel Magalhães, ela
confessar-se-ia atraída pela madurez da luz no toldo
vermelho.

Perto do fim da nota/hora, silabaríamos os Mestres:
Ce-sá-rio, Pes-soa, Be-lo, Her-ber-to,
Pes-sa-nha, Car-los-de-Oli-vei-ra, O-só-rio.

Depois, eu desceria sozinho, como sempre
que se me acaba a poesia da noite (há uma rosa)
e o poema da tarde (agreste).



Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

8 comments:

Afectos said...

Au point. Gosto quando parte da realidade para a poesia.

Armando said...

É impressionante a intensidade do poema.
Parece que surgiu num espirro, parado num semáforo.

Alex said...

urnl- Veste-te! Eu pedi-te para te despires? Veste-te, por favor, veste-te!
- Mas ...
- Já disse. Veste-te. Quem te disse que te quero nua?

Pousou as notas em cima da mesa de cabeceira, uma a uma.


Vestiu-se em silêncio. O ar demasiado pesado, demasiado carregado, aquilo não lhe soava bem. Já nem o olhava. Ainda há momentos lhe pedira para o acompanhar. Vestiu-se devagar, quase a medo de algum gesto que pudesse quebrar aquele silêncio. Por fim, calçou os sapatos e ficou de pé a olhá-lo. Já lhe tinham aparecido tipos estranhos mas nunca um homem a tinha mandado vestir. Ele continuava sentado na berma da cama com um livro pequeno na mão.


Ele olhou-a, estendeu-lhe o livro.

- Lê-me um poema ...

LM,paris said...

Olà daniel, como édificil, para mim, conseguir ultrapassar a realidade da prostituiçao, do que se pode imaginar ao vê-la qui mesmo ao pé da porta.
é bonito, intenso, como sempre o seu poema.
" o filme da alex", parece um court-métrage o comentàrio que faz nao?
Gostei da imagem do espirro!
Gosto da forma como o daniel enrola as palavras na historia, e vice-versa, estamos de imediato no momento da escrita,mais nada existe:(...) por menos euros que anos tem/por atropelo consentido."
Na realidade dos sonhos,o que faço mais vezes é o do apocalipse...
uma pequena Cassandre de trazer por casa!
um abraço de paris,
um canto grego, LM, paris

Daniel Abrunheiro said...

A gentileza é a rosa do comportamento: tenho recebido rosas. Obrigado, amigos, amigas.

José Antunes Ribeiro said...

Belo poema, Daniel!
Um abraço!

RC said...

Atropelo consentido é o ler-te, Daniel. Agora - depois de te ler - até eu sou uma puta. Cada texto, um "atropelo consentido". Espirro? Chamem-lhe espirro, chamem. Cá para mim, é capaz de ser um pouquito mais do que isso. Talvez mesmo, quem sabe, muito, assim mesmo muito mais do que isso. Mas isto devo ser eu a armar ao intelectual. Convençamo-nos de vez que isto não é um blog. Está difícil, hein?

LM,paris said...

olà, o espirro é um momento sincopal em que suspendemos o tempo!
Para onde vamos nesse curto espaço de respiraçao curtada?
Essa sincope é um espécie de desmaio e em cada desmaio esconde-se uma promessa e o daniel, a sua escrita leva-nos para esse espaço unico onde estamos sos e tao bem acompanhados.
Agora até pensei nos surrealistas
" isto nao é um blog",ceci n'est pas une pipe!
Intenso, c'est le mot.
Beijinhos de paris
LM