Friday, September 28, 2007

ENFIM A FELICIDADE e outras DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO

Foto: © Sandra Bernardo, 2007
Tábua

I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR
Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007

II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

V
PRAÇA
Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA
Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

VIII. SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

IX. DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

X. PONTUAÇÃO
ibidem

XI. SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

XII. DUAS ASSINATURAS
ibidem

XIII. VELA
ibidem

XIV. TELQUÉLÉ
ibidem




****************************************************


I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR

Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007


1

No ocaso de 1996, recebi de um amigo
um pedido de favor. Veio de Inglaterra por carta.
A carta tinha uma carta dentro.
Era para entregar em mão ao filho.
Fiz a entrega ao filho da mão do meu amigo.
O meu amigo depois morreu.
Trouxeram-no de lá do mar
até se onde não vê.
Agora já não escreve cartas de cartas.
Eu ainda entrego.

2

Tenho passado por prédios novos
quando nova era a infância
que me calhou.
Perderam a pele da tinta,
a madeira dos caixilhos ganhou as
brancas de perder.
De dentro das casas, saem deitados
os homens e as mulheres
que as geriram desde sempre.
E até nunca.

3

Quartos pintados a verde ou cor-de-rosa,
conforme os filhos dos outros casamentos.
Absoluta economia e expansão relativa.
Inscrição na Associação local, pacíficas ambas,
Associação e inscrição.
Livros e discos, na sala pintada a creme,
guardam histórias diferentes,
em tudo iguais, da comum vida.
Só os poemas seriam iguais a eles.
Mas não há poesia em casa.


4

No Inverno de 1988, viajei muito de comboio.
Conheci o tempo no tempo: o horário da chuva.
Descia numa estação pobre como alguém
no começo – ou como alguém no fim.
Eu estava entretanto.
Eu não era pobre.
Tinha um inverno por minha conta.
Aprendi os horários, fixei a chuva.
Vi o Natal passar, o Novo Ano hoje extinto.
Quando volto a um comboio, estranho o tempo.

5

Uma solteira de cinquenta anos sai manhã cedo à rua.
A mãe ainda é viva, continua a morrer em casa.
Ela marcha sobre tapete de folhas, álea além.
A mãe cheira a remédios irremediáveis na saleta.
A mulher vai continuar rapariga até o último dia.
A mãe vive de últimos dias.
O outono da mulher é um caso absolutamente particular.
A mãe sente as ideias mortíferas do gato que dorme.
A mulher abre a carteira de mão, tira um lenço.
A mãe deu-lhe o lenço em pequena, cheirava a alfazema.

6

Um homem de pé na noite aumentada de um rochedo.
O mar, canal entre pontões, giza bruscas flores brancas.
Alguma da espuma borrifa o rosto do homem de pé.
Primeiro, gritam as aves. Depois, gritam os peixes agarrados.
Barcos enforcados deitam-se no cais como peixes terminados.
É provável que um deles seja o meu amigo terminando 1996.
Estou na manhã, o sítio é alto como as aves do mar.
Vivo entre pedras ferrugentas e caras de espuma.
O mar já andou por aqui, ninguém o recorda.
O rochedo do mar encabeça alguma montanha submersa.

7

Andorinham crianças ao sol de um pátio.
O carvalho antigo esconde delas antigos enforcados.
Derrubam perto estábulos para um hotel novo.
Um velho solteiro colecciona carrinhas funerárias.
De noite, vozeia o vento uma sede pluvial.
O Estado plastifica as crianças com leite chilro a subsídio.
Em alpendres, há mulheres negras que foram brancas.
Um fio de música inquieta a sonolência dos cães.
No gabinete do contabilista, urdem-se pequeninos infernos numerários.
Do carvalho, algumas folhas caem numeradas, calendárias.

8

Tenho amigos que fazem o mesmo: vivem
sozinhos dentro dos mesmos que são.
Isso acontece a vida toda, às vezes.
Ou às vezes nota-se mais que acontece.
Eles labaredam por dentro – alguns são
mulheres.
Eles e eu vemos separadamente os gatitos
que vadiam sob os contentores do lixo,
as bacias de chuva atiradas à cara do ar,
quando novembro arde nenhuma espera.

9

Certos serenos afrontamentos de homem:
um rio, um casario; um toque, um bosque.
Veredas e azinhagas alongam a pulsação dos olhos.
Acometimentos não serenos chagam peles,
por mais curtidas. Encerram ao público
estabelecimentos outrora honrados, mas é que
morrem os velhos estabelecedores, florescem os negrumes:
sobrinhos, netas, noras, irmãs velhas. E ninguém
se lembra de concorrer à herança da serenidade,
lembram-se só de acometer sem afrontar para estabelecer.

10

Amo-te além de ti, tanto, que nem amar há-de ser
isto, antes provocação às demandas do apagamento,
do suave desprezo que aos outros votamos
em insígnia do mesmo que a mim voto,
se lhe der atenção como a ti, por mais contrariado,
sigo dando. Fora do amor sem salvação do mundo, guardo
em casa – em caixas de papelão, gavetas de
castanho e sacos de plástico – tudo
quanto me não ofendeu nunca, senão fendeu,
cessado havendo. Uma carta de 1996. Um comboio de 1988.



II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Vêm as chuvas como as doenças, os rios.
É do coração a circumnavegação da flecha.
Mínimos ataques electrizam os fios,
um rio de sangue pára, que não mexa

na chuva, não mexa no vento, que deixe
a doença ter tempo também.
Os nervos se laçam depressa em feixe
se, vendo chover, se lembre ninguém

de sol já ter sido, nascido e posto.
De nem sempre novembro, setembro ou assim.
Que o digo por mim (e o digo com gosto):

às vezes, há coisas feitas para chover,
outras que a saúde quer adoecer.
Rios no-las dão e vão reaver.



III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Adentro urinóis pobres da pobre nação municipal
muitas vezes – para urinar, que não outra salsugem
me lá leva.
O mesmo faço – ou fiz, o tempo vai – em festas
prósperas de gente rica, a croquetéis dada
por desfastio de sóis e rissóis.
Adentro urinóis até em casa – tendo casa.



IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

As presépias janelas da pobre gente candelabram
luscos-fuscos na matina mal acesa, cinzeira.
É uma aldeia de escritórios. Acordam. Lavram.
E desjejuam tarde com dois gravetos na lareira.

Têm perto rotundas, circunvalações.
Tasquinham tremoços da marc’ americana.
E acham que é bem, mesm’ aos encontrões,
passar sem passar o fim-de-semana.

O mais é sermos burros e vacas dados a palhinhas
qu’efervescem sem Djíza-se nem pelas alminhas.

Borrada nas ancas, sulfúrea ovelha
balindo às alminhas caga-se e ajoelha.
Do resto futuro, só netas cantoras:
concursos TV, amor – e manjedouras.



V
PRAÇA

Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

É uma praça todas as manhãs inaugurada pelo Sol.
Muito branca, de olhos verdes no múltiplo rosto.
Calçado o chão de motivos atlânticos, hipnóticos.
Cercadura de árvores que já viram tudo
e a tudo e todos esqueceram já, menos
aos animais.

Perfume de comida popular mana de uma cave aberta,
negra. A taça alta da fonte recebe os pés
da estátua do conquistador de manual escolar
hoje cagado pela amnésica diarreia das pombas.
A hora é sempre a mesma, na mortandade
dos ponteiros.

Somos os ponteiros, todos: quem vê, quem é visto.
O céu perdoa-nos os ufanos afãs da irrisória condição
nossa. Senhoras maneirinhas arrulham compras deluxe
na loja francesa. Cavalheiros apessoados cigarrilham
política no café de poetas bilharistas que jogam
e não escrevem. Velhos assexuados xaropam na
farmácia os poemas das receitas. Na casa das
lotarias, expõe-se a sorte dos outros.

É, enfim, a felicidade.
Dói um pouco, ser tão parecida com a eternidade.



VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA

Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

1

Ainda podemos ser, temos tempo ainda.
Não de todo nos desertou a funda vaga.
Meia vida com outra meia se paga.
Meia para ser, muito tempo ainda.

2

Fora do tempo te tenho ’scrito coisas fora.
Dentro me não cabem, d’escrevê-las tenho.
Quando soltas, já cabem, embora
coisas muito idas, já delas não venho.

3

Aveludadas orquestras costumo ouvir
nas brandas horas sossegadas
a que não usa o coração latir
a cavas ânsias descompassadas.

4

Amour e glamour e azul luz e blues
e moscas as mais carniceiras,
emoções e presuntos e mamas e cus,
mais o desemprego vital das carreiras.

5

Já quinhentos anos comemorei de autodescobertas
que me não valeram descobrimentos.
Panelas há sem testo, abertas.
Outras, dadas só a fechamentos.



VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

1

Em Sesimbra, uma noite, aranhei
pela teia nocturna de candeeiros fios
composta. A asma do mar areava
o alumínio da respiração, que já então
era o menos alegre dos meus cantos.

Procurei nessa Sesimbra de Coimbra um rapaz,
além estabelecido em nocturno bar, como outrora aquém.
Não encontrei o rapaz. Entrei no bar dele, falei
com quem estava, ouvia-os através da presença
do mar do ar. Alongava cautelosamente os
braços de aranha, finos na teia de garrafas.

A manhã chegou depressa de mais, como sempre
que recordo antes. Ao olhar irisado, as falésias
monasteriavam a fé do sítio
em si mesmo: sem homens nem aranhas
nem vidas. Eu estava lá, sabia que o

meu futuro passava, sabia que a recordação
se estrofaria sozinha, uma vez que eu estivesse
(estou) na serra, longe do mar e sem outra
teia que a da miríade de babas e estrelas,

na qual deponho minha aranhação e minha
respiração, o tal canto.

2

Na Telhada, falei uma vez francês
com uma família que tinha vindo à festa
como eu ao baile.
Eu era música de conjunto: cantava segundas vozes
que nunca chegariam a primeiras
e tocava um baixo de terceira escolha,
não tinham arranjado mais ninguém,
nem para aquele conjunto,
nem para aquele orago,
como aliás acontece nos casamentos.
Fritavam peixe e assavam carne
em barracas cujos pilares eram
grades de cerveja, voluntários hirsutos
cuspiam para o chão enquanto
esfaqueavam broa e salgavam tremoços.
Moi, j’ai bavardé un tas de conneries:
comme d’habitude, d’ailleurs.

Os anos terraplanaram esse Verão irrisório.
Não sei que é feito dos franceses.
Sem conjunto, arranjei maneira
de seguir tocando mal:
vim para a poesia.

3

Tirando os anos na Lameira do Saramago,
hoje Rua 1º de Maio,
fui feliz por segundos aqui e ali,
mais ali do que aqui.
Recordo uma noite em Lisboa.
Era no Bairro Alto.
Num bar sepultado pelo coveiro da músicambiente,
gritava-se para se ser ouvido.
Eu ouvia, pois que já então
(como aliás toda a minha poesia comprova)
nada tinha a dizer.
Éramos duas mesas, talvez dez, doze pessoas.
Calhou-me uma cadeira de ferro lascado
a verde.
À esquerda, estava um monhé mentiroso.
À direita, uma rapariga boa como uma manhã
sem horas.
O mentiroso era inculto: mentia sem aquela
superioridade reconhecível nos abonados
pela graça da oratória.
A rapariga era alta nas botas pretas.
Mudámos de bar, a noite trocou-nos por outros
e a si mesma por outra.
Mas guardo um lastro feliz: uma noite,
em Lisboa,
convivi com a mentira e com a beleza
ao mesmo tempo.
Daí vim para a poesia, também.

4

Verticais pardais a senhoras subidos,
ao balcão do café café tomando,
me encantam por trás à visão das aves,
aliás casadas e ’m’ a uma perfiladas.

Tumefaz os vestidos a firme nalgação,
sustentam pontões em concha os mamilos.
Altaneiras aves de altanaria nenhuma:
com os anos não voam, q’aumentam de quilos.

Mas sempre bonitas, sãs e comestíveis.
Algumas, por graça, badanam gestinhos
’inda de solteiras, águias-passarinhos,
de brancas barrigas respirando sáveis.

Isto é no café, num dos do País.
Sou um dos que entram p’ra não mais sair.
Assisto aos pardais os mais mulheris.
Desolho e peço um copo de anis.

5

No Teatro do Príncipe Real, em meus anos poucos
da pouca idade, recebi filmes emanados
ou de Deus, se O houvera, ou dos Irmãos Marx,
que os houve.
Era em Coimbra, na Sá da Bandeira.
Eu já anotava as árvores a canivete
memorial: escrevia-as por mim o palavrador vento,
como a todos e a todas.
O vento do cinema de Coimbra trazia
rebuçados gustativos e camisas baratas
metidas à força adentro o cós.
Já então éramos todos, os dois, sós:

eu e o Príncipe Real.

6

Tenho lugar marcado, não
na História da Poesia Portuguesa, mas
na histeria da poesia portuguesa.

Sou como as outras:

mariposa queimando as asas
em torno das velas
que ninguém acendeu
nem vai acender,

que se fez tarde,
o Pai morreu
e a gente almoça.

7

Vejo-nos severamente limitados à luz dos ocasos,
o matinal por nascimento, o outro por epílogo.

Os de nós que não dormem sob as arcadas
do Teatro Nacional em cartões frigoríficos e mantas de outro
papel periódico, esses de nós
sabem(os) a insistência dos
ocasos.

Sermos sinceramente portugueses é
sinceramente
(o)caso para isso.

8

Em Setúbal, uma vez, adormeci numa conferência.
Era de gente que a si mesma chamava BDO
e síniórpart’na.
Tive pouco tempo para estar acordado
nessa importância preterível.
Eu tinha um caderno de folhas brancas,
um lápis nº 1 novo.
Deu-me o sono agravamentos nalgais
de boa cadeira num hotel tão bom,
mas tão, que a recepcionista até se chamava
desk.
Desk Tu aqui abaixo, Senhor,
a ver isto,
Cristo.
E guarda-me o sono,
Ó Benquisto.

9

Trata-se, mui naturalmente, de ter os livros
na cabeça e em casa. Trata-se disso.
O resto é a existência. Vai-se ali comprar

knorres, vai-se ao teatro provinciano,
vêm à têvê a loura feia da meteorologia
e a boa loura daquilo da dança que dá umas oficiais

com o ex-candidato oficioso – e pronto. Está feito.

Mas, naturalmente, os livros: na casa da cabeça.

10

Vem (veio) então a idade que torna siameses
todos os alheios gestos e olhares.

Sabemos ao que vêm todos e todas,
eles e elas:

ao mesmo.

11

Mesclam-se-me muito vilas e cidaldeias.
Muito a vida se me mescla.
Interdórficas secções ao pus de ideias
me ferem danticorpos: é uma festa.

12

Tenho alguns funerais infantis ’inda vivos.
Estive, mal tinha nascido, no, de um velho, enterro.
Guardei pessegueiros e raposas rápidas.
Estou pronto para o trabalho, mas vivo.

Viver, daí, acontece-me da cabeça para baixo,
onde o tampo da mesa recebe trabalhos
manuais. Vejo que isto é um cinema privado:
e um teatro quase-quase abandonado.

Avenidas ao frio sobem de cidades provinciais.
Tudo, como eu agora, se deitava cedo
ao esquecimento. E das magras chuvas de então,
não guardo senão o sol de dieta do regime futuro.



VIII
SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

O senhor das raposas desconhecidas
habita o meu coração dormidor de montanhas.
Ele identifica laranjas uma a uma:
citrina lhe resulta a onomástica.

Ele ouve a água das nascentes como a uma
hemorragia mineral: menos mal
que saiba quanto correr é viver e é morrer.
Na encosta nascente, o lado do sol e das laranjas.

Casebres pardos de vidas semelhantes a restos
de fogueira, chafarizes de pingão nariz metálico.
Uma frutaria vende peixe também – e selos
de correio para o Luxemburgo postal

de nosso Portugal.

O senhor das raposas desconhecidas
é um senhor – cá do burgo.
Ele amarelece com civismo ao sol diário,
chuva embora.

Rápidas cortinas cinematecam a luz das salas.
Porões de giz escrevem pretas ardósias: a memória
falsificadora dele e de raposas

não caçadas ainda nos verdes, verdes
campos de Inglaterra

por discosjóqueis de casaco vermelho,
calcinha branca e chapéu do preto das botas

como o açafrão da Índia
depois de Índia-Índia-ele-e-eu
a caminho de Viseu.

Caramulo, ano 2007:
o senhor das raposas apolíneas
prepara a tranquila amaragem da Lua,
a lunar alunagem desse alto sítio
de raposas, crateras, transmissões a
preto-e-branco
e novidades
para sábado que vem,

entre habitações
e outras apoteoses nascentes
a oriente viradas
como janelas oratórias.

Vida desse senhor, outro ano qualquer:
escrever o que for, dê lá por onde
der.



IX
DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

À madura visão de uma mulher, digamos, boa,
sucede eu tremer adentro fracções
que não estão à venda em vulgares secções
nem economatos de portoulisboa.

Não gasto, mas gosto, de vê-la só ser
’ssim boa, madura, fruta a não colher.
Tudo o resto passa, passar é viver,
digamos, bem boa, dura, ’ma rica mulher.




X
PONTUAÇÃO
ibidem

Antes de alguma dessas doenças iguais
a pontos finais,
uma vida de reticências.



XI
SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

Vivemos suburbanos amores sujeitos a pilhagens
de terrenos submunicipais não longe do central clarão
da sede conventual.
Garagens mínimas mal alojam carritos mínimos,
amarelecem os relvados regados a prestações
como as aliáspectativas.

Ficção científica dos anos 50 não bruxuleia já
os serões televisivos de mortos-vivos:
consolas da interacção electrónica trocaram-nos
filhos e pai por gigabáites eventuais.

Duradouros, só o alcoolismo e a pobreza.
E o suburbano amor de substituição,
em casitas que os pais até teriam
ajudado a pagar se não houvessem
desfalecido tão cedo para nossas tardias
suburbanas existências

e desistências.



XII
DUAS ASSINATURAS
ibidem

O tempo da vida do meu tio António
transcorreu-se a si mesmo
como dos rios a água corre água.
Manteve ele décadas de um amor
com minha tia e dele mulher:
rios entrefluindo águas, dois filhos,
poucas semanas depois dele
morreu ela.
E assinaram ambos
estes versos.



XIII
VELA
ibidem

Folheiam as mariposas a própria cor das asas
ao lume que chama e mata, em chama.



XIV
TELQUÉLÉ
ibidem

Celebro as bestas e as rosas
por muito olhar e mal ver.
Sou da minha língua como sou da minha rua.
Sou da nossa gramática como somos do nosso tempo.
A felicidade vale mais do que o ouro
por tão mais rara ser do que ele.
A infelicidade também tem valor: não
na raridade apoiado mas na democracia
que lhe subjaz.
Esta mesma tarde, em casa, arquivando papéis,
dei com uma carta do meu Pai.
É de 1976, Agosto.
Eu tinha doze anos, estava numa praia do Sul.
Ele tinha cinquenta e nove, estava na pintura.
Um velho amando um menino.
Descobri depois uma carta imbecil escrita por
um desalguém qualquer.
Tive gosto em rasgá-la.
Também mato palavras, fazer que renasçam não
é o meu único ofício.
Rosas e bestas.
Como toda a gente, mato e revivo.
Não sou diferente: sou das minhas rua e língua.
Amo como um caracol: babada e lentamente.
Com a chegada do meu outono particular,
considero propedêutico o carácter falsário
da memória.
Tenho saudades do meu Pai.
Amo as minhas filhas.
Ouço dizer delas o que sempre soube: que,
quando passam nas ruas delas, na língua
delas, as pessoas se espantam de também
as rosas andarem.
As pessoas amam as filhas.
As pessoas amam os filhos.
As pessoas livraram-se da dissipação
por causa das filhas e dos filhos.
Amar? É ter saudades antes.
Continuo antes do meu Pai, por exemplo.
Antes dos últimos dias dele, quando
a doença o tornou transparente como a água.
Vivo tardes abertas numa casa que fecho.
Na varanda, os vasos exclamam hortelã,
salsa, coentros, tintas.
Na cozinha, empilham-se os restos vitais
da alimentação.
Na casa-de-banho, sabão azula fímbrias
de virilhas e axilas esfregadas muito cedo.
No quarto, mantas enrolam-se como peles
raspadas pelos cactos oníricos.
No escritório, os arquivos retomam os rios
sem margens do amor e do idioma,
das bestas e das rosas.
A casa partilha
a terra e o ar,
a água e o fogo
com as outras casas da minha vida:
sucessivas carruagens de um comboio triste
e pertinaz, contumaz e relapso.
A gata holograma-se a si mesma:
sombra, silêncio, brilho topázio de olhos,
sombra, silêncio.
Contemporânea, a vida da mulher da casa
decide perpétuos movimentos: cuida na varanda
de hortelã, salsa e coentros com gestos de tinta
amadurecedora de flores.
Nisto tudo, Sol e Lua filmam tudo isto.
A parada explosão de prata da Lua.
A cal termonuclear do Sol.
As nossas vidas minicalendárias:
saldos perpétuos e vitalícias mortes.
Caracóis me debruam de baba e lentidão
o coração.
Acredito na falsidade essencial da memória.
Acredito na dissipação aliviada pelo amor.
Acredito na minha língua e na minha rua.
Esta manhã, morreu lá o inquilino mais antigo
do prédio da minha Mãe.
Chamava-se Senhor Victor Morais.
Amanhã de manhã, subirei do rés-do-chão esquerdo,
depois de beijar a minha Mãe, ao primeiro direito,
de onde o Senhor Victor Morais dará início
ao houdinismo do costume.
Seguirei depois para a cidade de Pombal,
terra em que vivi, entre tantos outros interlúdios,
o Janeiro de 2005.
Catadupas de luzes, comboios, bares, palavras:
la vie tel qu’elle est,
de bêtes faite comme de
roses.

7 comments:

José Antunes Ribeiro said...

Daniel, li tudo de um fôlego, mas saboreando o teu lugar na História da Poesia Portuguesa, que decreto e assino aqui mesmo, eu que acho saber qualquer coisinha disto...
Que saudades do Ruy Belo! Que pena tenho de não lhe poder dizer o quanto gostaria que ele te lesse, eu que o procurei muitas vezes e outras tantas ele me veio procurar!
Sou um privilegiado, bem sei...É um privilégio ler-te! Quem tiver olhos para ver que veja...

Daniel Abrunheiro said...

Sabe quem te conhece, Zé, que o privilégio é conhecer-te a ti, não o contrário.
Uma rosa para ti, Amigo.

Manuel da Mata said...

O Daniel é um caso notável de criação e produção. Nem Fernando António - naquele dia triunfal em que lhe surgiu um tal Caeiro-, terá sido tão abundante. Aqui falamos só de abundância, é claro.
Eu confesso que não vou poder acompanhar o Daniel com a atenção merecida, porque lê-lo como deve ser, implica muito tempo.
...un coup d'oeil tous les jours, seulement!

LM,paris said...

c'est de l'addiction totale et absolue,venir vous lire,* tous les jours, attente quotidienne, ici le monde nous est proposé, et on le laisse entrer,il s'asseoit à nos jours comme si l'accueillir était le bien que l'on doit à qui sait si bien nous considérer.
éblouissement devant ce plus qu'écriture,car c'est de la peau des mots qu'il s'agit.
Prodigieux daniel, les photos du dimanche sont si heureuses! beijinhos , LM

Alex said...

eu tento, estou a tentar mas fico sem fôlego, não respiro.
De onde vem tanta criatividade? Da vivência? Dos livros? De dentro?
De onde? Confesso que me sinto como uma agulha perdida e o que tento fazer é sentir o que estou a ler, quando consigo, disparo como uma flecha em direcção ao meu - ao NOSSO - dia a dia na terra.


E como doi, a eternidade.

Alex said...

Esqueci-me de referir que a fotografia � espantosa, eu que gosto de c�us carregados e de luz, encontro numa s� fotografia a uni�o entre o homem e a natureza.
Sabe o que �

Daniel Abrunheiro said...

A Sandra Bernardo é uma fotógrafa de céus, precisamente. E não só.