Wednesday, September 19, 2007

Montanha Mágica nº 19 - Guião do programa

Carlos de Oliveira (1921-1981) é, com Joseph Brodsky e António José Forte, um dos três poetas convidados do Montanha Mágica. Logo, às zero horas (repetição de sexta para sábado, às zero horas também), em 91.2 FM ou em www.emissoradasbeiras.radios.pt.
Guião
Montanha Mágica nº 19
(para madrugadas de 20 e 22 de Setembro de 2007)


1
Boa noite. Vamos subir a Montanha Mágica (MM). Com mais paciência do que esforço. Em companhia de grande música e de poesia tão humana quanto a mania de subir montanhas de noite.

0001 Eleni Karaindrou
(obrigado, LM!)

2
A onda do mar que a teus pés chega, não chega para ti. Quando chegas, uma nova partida é por si mesma, nunca, nunca mais, por ti mesmo.

0002 Bobby Darin – Minnie the Moocher

3
Na noite, subindo alguma montanha, podes ser tu ou ter sido outro que, à noite, uma montanha subiu. Ou ninguém, na montanha da noite.

0003 Claude Nougaro – Toulouse

4
Praias verdes ao olhar alongam repousos cromáticos. Ilhas de nenhuma ventura papilam além-joalharias. Piratas, flibusteiros e corsários armam madeirames. Por baixo, os tubarões e as rémoras comem águas e futuros.

0004 Neil Young – After the Gold Rush

5
Dizem que a II Guerra Mundial começou a 1 de Setembro de 1939. Era mundial, sim. Mas não era a segunda. Só há, desde sempre, uma guerra mundial. Chama-se Humanidade – e não tem tréguas nem armistícios.

0005 Jacques Brel – Les Vieux Amants.mp3

6
A Peste Negra é mais negra do que a noite, na noite da História. É uma cor aprendida de cor por inumeráveis mortos que não lembram. Os camponeses tornam-se feras inchadas de pus. No palacete, o que não toma banho tem medo do sujo.

0006 Lacrimosa – Sacrifice

7
Tempo agora para descansarmos um pouco. A subida à MM de hoje ainda vai no início. Oportunidade para ouvirmos a voz da Sandra Bernardo projectando o texto Cinema de Carlos de Oliveira.

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.


0007 Diamanda Galas Gloomy Sunday.

(JINGLE LONGO MM)

8

Depois do Cinema de Carlos de Oliveira, lembremos as vozes e as músicas de quem se juntou a nós na subida de hoje à MM:

Eleni Karaindrou
Bobby Darin
Claude Nougaro
Neil Young
Jacques Brel
Lacrimosa
e
Diamanda Galas

nem mais nem menos. Para cima sigamos agora: devagar e em português, com Jorge Palma invocando a Senhora da Solidão.

0008 Jorge Palma – Minha Senhora da Solidão

9

As mulheres nunca querem morrer. Os homens querem – mas de noite, durante o sono. Eles chamam a isso outono. Elas prefeririam não nascer, sendo assim.

0009 Fleury Landouaki
(que serait-il de nous sans toi, LM?...)

10

Quanta beleza pode correr-nos as mãos como água não represável? Toda a beleza, mas em quantidade: do que supusermos seja o tamanho do mar. Que seja a beleza a chamar-nos.

0010 Patricia Barber – Call Me

11

Dos montes mais escurecido pela Lua, desce ao casebre a rouquidão solitária: é a do lobo lunar, que pede à Lua uma mulher, quando deveria pedir uma loba.

0011 Nat King Cole – Fly me to the Moon

12

Homens e mulheres assombram galerias de simesmosunsmasoutros. São a repetição dos retratos: outros são por repetição, mas cada um, cada uma, há-de sofrer as suas.

0012 Scott Walker – Farmer in the City

13

Alguma vez na vida deveremos ter amado algum animal, pelo menos. Um cão, um gato, um pássaro. Alguma vez deveremos ter amado. Se o não lembramos, não somos. Nem nunca fomos.

0013 Edith Piaf & Charles Aznavour – Plus Bleu

14

A linha da boca de cada homem tem escritas as palavras de alguma mulher. A tinta da caneta foi a vida. O destino há-de ter sido o papel.

0014 Mafalda Arnauth – Este Silêncio

15

Sentemo-nos agora um pouco, um pouco mais descansemos, que a subida ainda só vai a meio. Instante bom para ouvirmos a Sandra Bernardo dizer um poema constante do sítio http://poesiailimitada.blogspot.com/ criado e administrado pelo poeta português João Luís Barreto Guimarães. É um poema chamado Para a minha Filha e foi escrito por Joseph Brodsky. A tradução é de Carlos Leite.

Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.
Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.
De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objecto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objectos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.
Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum
contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante
bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.

0015 Red and Black- Les Misérables


(JINGLE BREVE MM)

16

Já não falta tudo para sermos recompensados, lá em cima, com a Lua a que teremos direito quando chegarmos ao topo mais tópico da MM de hoje. Nós e quem a nós se juntou:

o poeta Joseph Brodsky

e a música de

Fleury Landouaki
Patricia Barber
Nat King Cole
Scott Walker
Edith Piaf & Charles Aznavour
Mafalda Arnauth
e
Red and Black.

Agora, uma novidade absoluta no MM: são portugueses, são jovens, gostam de cantar em inglês. Senhoras e senhoras, My Cubic Emotion.

0016 My Cubic Emotion – Violent (acoustic)

17

Enfartes miocárdios e hemisférios gelados compartem nossas vidas equatoriais. Temos memórias de sumos tropicais. A despesa é paga a frio: com gelo, com neve, com a memória.

0017 Los Fabulosos Cadillacs (con Deborah Harry) – Strawberry Fields Forever

18

Em camas anoitecidas (que não escolhidas) repartiremos nossa solidão essencial com essências solitárias não repartidas nem, muito menos, escolhidas.

0018 Jimmy Page & Robert Plant – Blue Train

19

A noite sobe-nos à cabeça pelo lado do coração. A noite sobe: o que desce, chama-se dia. Um dia de cada vez, todas as noites.

0019 Rickie Lee Jones – Ssomeone to Watch overMe

20

Já não conversamos tão bem como antigamente, nós todos. Já nem somos uns dos outros. Falamos para não ouvir. Ainda bem que nos calamos, uma vez na vida, uma vez na noite, para escutar.

0020 Mike Stern – I Love You

21

Quando do oriente vem a manhã, cora o sol como uma romã. Quando da Lua o gelo, gota-a-gota, platina o veludo, o oriente adormece no frio – e guarda-nos, em segredo, a promessa de uma romã, amanhã.

0021 Ronda dos Quatro Caminhos com Coros do Alentejo e Orquestra Córdoba - Limoeiro

22

Agora, quase-quase a chegarmos ao topo mais tópico da MM de hoje, a vez e a voz do Poeta em Lisboa, de António José Forte, poeta português.



Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
Sem pressa de chegar seja onde for
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror
Entra num café.Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha – numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
Espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
Atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
Dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
Segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
Vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
Da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
E dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
A aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

0022 Léo Ferré canta Rimbaud - On N'est pas Sérieux quand on a 17 ans


23

Esta é a noite, esta é a montanha. Esta é a nossa atenção. Não, já nenhum mistério nos perdoa termos deixado, por humana distracção, de ser sagrados. A noite é sagrada. A montanha é sagrada. Nós não. Mas tu ainda podes sê-lo, esta noite, a partir daqui.

0023 Astor Piazzolla – Adiós Noniño

24

Estamos a chegar. Foi uma subida boa, lenta, humana, não solitária. Connosco subiram

Los Fabulosos Cadillacs (con Deborah Harry)
Jimmy Page & Robert Plant
Rickie Lee Jones
Mike Stern
Ronda Quatro Caminhos com Coros do Alentejo e Orquestra Córdoba
Léo Ferré

e
Astor Piazzolla.

Quem se lhes junta agora é Camané, numa balada muito nossa.

0024 Camané – Balada

25

E pronto. Cá estamos. No cimo mais cimeiro da MM, merecemos a Lua. A Lua e um bom regresso a casa. Sempre a descer, agora. Com cuidado. Com cuidado e com Joan Manuel Serrat. Até para a semana, sempre com a magia possível.

0025 Joan Manuel Serrat – Canción Última

4 comments:

Manuel da Mata said...

Com um guião assim, é impossível falhar. Invejável guião!

Abraço,
Manuel

Daniel Abrunheiro said...

Honras-me o MM, M.

LM,paris said...

Manuel é um programa invejàvel, daniel, nao consegui ouvir!!! Destroçada...a minha ràdio é um gadget eo meu computador lento, lento...e com pernas artrozicas...uma amiga minha francesa a quem pedi pra me ajudar com a cena de ir buscar plugs e remendos pra pedalar com força ela ouvia là em casa e nao percebias nada, dizia-me " Estàs a ouvir? Ele està a falar português..." pois bem, é normal!Ouvi a sua voz...là longe...do Caramulo...
Pronto, mando-lhe mais cançoes é
uma alegria!
Bom domingo, um abraço pra si, pra si Manuel também.
Até jà, nos poemas diàrios,LM.
PS: daniel, a minha amiga é que estava contentede ter encontrado a emissoradasbeiras!

RC said...

my cubic emotion no MM? Desculpa mas onde é que... que raio de... quem foi que te... a que propó... "Ó mãe, nesta parte da piscina já não tenho pé"