Tuesday, September 25, 2007

Trinta e Cinco Cêntimos de Prosa e Poesia

Foto:
A caminho de Viseu, outro dia – © Sandra Bernardo






1

Viseu, segunda-feira, fim da manhã, 24 de Setembro de 2007. Fui pela Rua Formosa, virei para a Direita. Vivi, entre pessoas que passavam, a evidência de todos sermos ambulatórias lápides: e anjos desasados. Não foi uma sensação mórbida, não foi um arroubo lírico. Foi uma evidência solar. As pessoas: para cá e para lá, seus rostos historiando as vidas que passam na rua que fica, no tempo que passa.
Entrei no Café Isabelinha, comoveu-me a visão, numa estante de vidro, de embalagens de bolacha-baunilha: a trinta e cinco cêntimos, o preço da minha infância. A três mesas, quatro anjos: uma mulher não jovem, três gajos de trintas. Cervejas e copos de branco. Estive perto deles até o fim deste parágrafo.
Voltei a passar junto à casa onde nasceu (1864) e morreu (1896) uma das mais amadas vozes do fado de Coimbra: Augusto Hilário. Dada a manhã, branca e lavada como um azulejo, experimentei polir a luz: bafejei-a, passei-lhe um pano mental, brilhou como um cristal. Antes, do lado da sombra, tinha passado rente a um dos mais representativos exemplares da fauna local: um padre. Encoleirado de branco, andava de saco de compras. Passei por ele, temendo pela minha alma.
Segui, lapidar e angelizado, pelo lado do sol até que o xadrez da arquitectura me permitiu novas quadras de sombra-luz. O meu coração pulsava num sossego de paço episcopal em dia de bispo fora. Vi uma rapariga dando a mão à mãe deficiente, que me olhou desse detrás tão remoto da loucura. Em que dimensão existimos, quando somos vistos passando na rua? É tudo em campo santo: hilários datados a prazo entre pedras: as ruas do xadrez calçadas de pequeninos paralelipípedos de bolacha-baunilha numa estante de cristal brilhante como a minha infância a trinta e cinco cêntimos.

2

Essa flora de mulheres queimadas
pela veterania do amor.
Estou vivo perante as que passam
na cidade episcopal.
Convites e participações de casamento
numa tipografia local.
Sardinhas fritas numa aura de vinagre.
Braçadas e braçadas de flores:
pela terra gritadas a cores.
A minha Mãe sozinha em casa,
mijando-se no sofá, perante a televisão
ligada há 83 anos.
Um mercedes a arder na noite branca.
O coração ventilado a versos.

A tragicómica tristeza para rir.
A grande alegria triste de ter sido amado,
por um homem numerado a anos,
de um inumerável amor:
como um vento antigo
arrepiando hoje
o mar antigo.
A gentileza transparente dos rostos
das minhas filhas.
O fogo-posto do amor
na minha noite montanhesa.
A claridade das fontes – de que
a cabeça tenta imitar,
têmpora, o intemporal
rumor da água.
Quando não escrevo, como sopa em silêncio.
Fora da minha casa (dentro de mim),
o vento mareja o arvoredo,
lunando-o de augúrios: vozes
dos meus idos e de antepassados vossos.
Maravilhoso é o idioma que no-los
eoliza de volta.
O futuro era isto.

Tenho algum tempo.
O corpo multiplica olhos
por todo o corpo:
no tempo que passa.
Máquinas e homem urdem obras
ribeirinhas: as obras ficam
como ruas,
levam lápides.
Brilha, combustível, o ar da luz.
Escrevo.

Ao vento dos comboios, revoam fotogramas
como folhas do meu outono privado.
Filmes mudos da pobre gente de pé,
entre árvores inquinadas.
Muros de fábricas desmanteladas
reclamam direitos autorais
sobre a passagem do tempo.

A cal ferve o leite dos verões anteriores,
todos esses estios estiolados ao lume
da Lua.
Materiais de construção, tintas,
ferragens, ferramentas – palavras
de uma solidez terrível,
atiradas ao passeio
para reeducação de esfumados gajos
como eu.

Na infância, assisti-me hoje por este bairro,
antes anos depois, hoje, a este sol: vivendas
insufláveis bordadas a palmeiras anãs, ninguém
à vista excepto nós dois: o que reescreve (e) a
criança vidente.
Estou na hora única do não-tempo:
contemporâneo Sol de uma mesma febre
termonuclear, sua mesma cal obliteradora,
dourada dor branca sem remédio.
É um bairro dos subúrbios de Viseu.
Casas tomadas de ausência.
Torradas de falta humana, só um cão,
aprisionado num jardim, enlouquece
sonhando gatos e mãos com anéis.
Esta deriva ubíqua da nem sequer dor já, só o branco.
Esta atenção terrível às vindimas da memória.
Mulheres dormindo como gardénias apeadas.
Tóxicas crianças de envenenados amores.
Flash: nos campos do Sul, as labaredas horizontais
do trigo – e a grécia individual de cada
oliveira.
E as outras crianças atentas ao eterno
futuro delas: vendedoras de materiais de construção,
tintas, ferragens, ferramentas.

Agora tu vens daí comigo.
Olha as casas, as palmeiras anãs
intendentes de cães solitários como
faróis.
Revoadas de tinta açulam mares ultrarromânticos.
Agora tu estás aqui comigo.
Deves querer uma laranjada Serranita ou Buçaco.
Deves saber em que vais tornar-te-me:
este homem num bairro, ao sol, desprovido
de obscenidade e de carreira profissional:
um menino com duas fontes na cabeça, outra
na boca – e uma estação de tratamento de águas residuais
no coração.

Olha os pátios vazios.
Desertaram as crianças.
Esqueceram-se da cassete no altifalante:
a mesma música repete a existência
desertada.
Olha os cubos das casas: Sagradas Famílias
em sêxtuplos painéis de azulejos 15x15.
Ossarticulado andar de leopardos
é o dos dias: o mesmo único leopardo,
o mesmo único dia.
Terei vindo quando um dia não for.
Terei completado a ilegível colecção de marés
e de tardes: em subúrbios estiolados
pela desertificação do mar, dos relógios.
Velhos homens tornam-se roxos sob tílias.
Táxis dormem como sapatos vazios.
Dormem frente a pátios.
Ouve-se a invisível criança filha do taxista,
ela olha comboios que daqui não partem
nem aqui chegam.

Sedas em cinturas que dançam:
ao vento, as flores.
(Sim, espera, o futuro tinha flores.)
Raparigas que vi, como flores, nuas:
subiam dos pés os caules das pernas, floriam acima
duas rosas cegas duas vezes:
os mamilos, os olhos.
Sedavam as cinturas um homem
tão depressa já não menino,
tão depressa embaixado o coração
ao pénis, bicho-da-seda.

Agora volto sozinho, vê-me, sozinho
voltando aos aquários sem outros peixes
que as palavras borbotadas,
no café dos anjos terminais
que não terminam,
seus olhos lunares minguando nos quartos
do Lar.

Agora antes de tantos depois mal gastos,
tantas lojas de ferragens, tantos pintores
pintados da destruição civil,
implodidos cavalheiros que não puderam ler
os avisos dos meninos ominosos,
seus fulgurantes retalhos de luz-sombra,
suas necrologias mamadoras
de prospectos e arrepios crespos
de águas ao vento,
balancés de gaivotas
e de corvos.

Quero uma mão no escuro,
lâmpada de brandos filamentos
iluminando o gesto.
Fecharei estes olhos mentais,
onde as imagens ardem,
caudalosas e montantes
como inícios de rio ou de
choro.

Peço devagar durante a sopa,
arborizam-se-me os pulmões,
tenho muita pena de putas e de polícias,
sempre tive,
mães e pais de bastardos
versilibristas
como meninos.
Esta força doente, no sofá a Mãe,
nos cafés a energia das televisões,
nas praças as crateras alunadas
pelo Sol, nas escolas as meninas
preenchendo cupões e ginecologias.

Acaba-se-me a tarde,
todas escritas as folhas das árvores,
tílias tinindo colherinhas de prata,
só quem não vive não mata.
Olhos azuis interrompem-me a cegueira:
uma mão lampadária, as barrigas brancas
cheias de escuros órgãos faladores:
palavras do corpo anteriores
a toda a perdida salvação
dos ambulatórios: na rua que fica,
no tempo que passa,
no rio que afoga as crianças,
dando nele e nelas um vento antigo,
segunda-feira, quase noite,
24 de Setembro de 2007.

3

Estou à espera do homem
que descerá um rio ou de um comboio.
Estou à espera dele.
Não combinámos nada.
Ele saberá hora e local.
Eu faço horas em locais:
agora, aqui.
Estou à espera: não
do que me traga, mas
de que me leve.

Já fiz o trabalho dele.
Levei um irmão, um pai.
Trabalhava eu então a bordo
de rios, de comboios.
Deitava-me no barco da noite:
pouca terra, toda a água.

Acordei para sempre por causa do meu trabalho.
Levei-os.
Estou à espera de um deles.
Pode ser que venham os dois – e a mesma
idade sem anos nem esperas seja
agora a deles,
assim rapazes
como quem não quer a coisa,
assim muito menos velhos
do que eu.

Estou à espera dele entre árvores.
Deito-me na cama, os pés no rio.
Laranjeiras me piscam olhos verdes,
tocadas as pupilas de pigmentos de ouro.
Belo é o rio sulcado de comboios.

Para me entreter enquanto ele não vem,
tenho escrito versos.
Existem outras artes gráficas – e até bons
negócios, de churrasqueiras a carreiras
no ensino técnico-profissional.
Mas não.
Pus-me à espera – e só
trabalho nisso.

Há uma beleza mortífera nisto?
Há uma beleza mortífera nisto.
Por sorte (por graça) sucedem-se-me
capitulações cinemáticas: os olhos dos mortos
em filme, olhando vivos
as ruas (as tílias)
de hoje.

Expressos largam a horas dos casulos tóxicos
de gasóleo, vendedeiras de bolos
carpem os egiptos secos da mastigação,
quartilhos de água mineral
numeram viajantes a euro e meio.

Estou à espera dele.
Agora vou para a rádio, vou falar,
enquanto falo não digo,
digo aqui:

ele está à minha espera.
Ao pé do outro.

Atrás deles, um comboio traz um rio dentro.




Textos:
1 – Viseu, fim da manhã de 24 de Setembro de 2007
2 – S. João da Carreira, tarde de 24 de Setembro de 2007
3 – Caramulo, entardenoitecer de 24 de Setembro de 2007

4 comments:

LM,paris said...

olà daniel, bonne nuit.
" as mulheres dormindo como gardénias apeadas ", o seu poema é lindo, jà estava em vizeu.
Maravilhoso, nao me canso, isto jà é addiction!!!!!!!
um abraço de Paris,
LM

José Antunes Ribeiro said...

Olá Daniel, boa noite!
A Lidia tem toda a razão...Maravilha de escrita!

RC said...

Sou viseense de clara, não de gema, mas suficientemente plasmado para conhecer cada uma das pedras de que falas, Daniel. Trágica e cómica como um circo pobre e dourado, transformas a cidade ao lê-la, meu "versilibrista". Aí estás tu à esquina à espera dos agarradinhos que, como eu, nunca falham. Falta-lhes a dose. E tu aí, sempre diposto a alimentar o vício.

Manuel da Mata said...

Como ele vai querer o óbulo, gasta-o e finta-o. Diz-lhe que estás teso e que não tens vagar ( falo do 3).

Um abraço,
Manuel