Thursday, September 06, 2007

Fico Cá

Foto: Refugiados en la estación de metro de Sevilla, año 1938
© Juan Pando

Hoje, 6 de Setembro de 2007, n'O Eco (www.oeco.pt), mais uma crónica Pedra e Hulha

Fico Cá

Vivemos tempos sem a mínima glória. Não me lembro de tanta e tão triunfante mediocridade. Nem se me opõe já a clássica dicotomia Governo-Povo. Não, já não. Um e outro são medíocres, menos do que medíocres, rascas. Aquele porque não sabe mas manda, este porque obedece e não quer saber. O 25 de Abril está morto. Resta-me a esperança de que, ao menos, esteja mal enterrado.
Ao altar da televisão, sacerdotizam os idiotas a missa da ignorância. Nós, ajoelhados, engolimos a hóstia colorida de olhinhos fechados para o preto-e-branco da existência real.
A corrupção indigna-se muito de ser acusada. A Comunicação Social é obrigada a não ser comunicante, sendo restrita ao social. Não se pode dizer piadas. Eles são muito sérios. Os que estão no poleiro, garnizés pensando-se faisões, cacarejam leis desumanizadoras, clarinetam moralidades de campanário europeu e aparecem em debates de capoeira esbracejando penas e fluorescendo cristas.
Os que não estão no poleiro, são pelo Povo, claro. Só que, para mal de nossos pecados, também eles não distinguem Povo de Polvo. Fazem caras muito sérias, tentam produzir ironias que a malta não entende porque a malta é como eles: obtusa, vã, gasta e redutível.
O direito ao trabalho é uma provocação aos frequentadores dos campos de golfe transgénico. O direito à saúde é um incómodo para os doutores. O direito à justiça é uma chatice pouco simplex. O direito à educação não faz sentido: ninguém vai querer, à saída da escola de telemóvel na mão, saber ler. O direito ao futuro é uma coisa do passado.
Claro que não vou emigrar. Fico cá. Isto diverte-me: ver os velhos reformados a receber (por enquanto) uma esmola humilhante, enquanto seis meses num cadeirão dourado do “serviço” público assegura ao feliz traseiro uma aposentação escandalosa. Não, não vou chapiscar massa para o Luxemburgo. Fico cá, a chapiscar mossa enquanto puder. Não adianta nada, mas sempre apareço no jornal sem ser na necrologia nem na fila de trás de alguma inauguração de chafariz.

6 comments:

pc said...

Não vivi o 25 de Abril, sou mais recente(pouco mas sou). Tenho pena. Ou não. De facto, parece actualmente que o esforço de outros foi totalmente em vão. Felizmente ainda há pessoas como o Daniel que sei ser jornalista e não é apenas Social. É também Comunicação. Deviam existir mais pessoas assim. Mas somos seres em vias de extinção. Apenas as futilidades parecem ser relevantes e capazes de continuar a mover o mundo. "Domage".

Cp said...

Olá Daniel

Que agradável surpresa encontrar-te por aqui!

Só mesmo tu para te divertires com a ardileza de garnizés, ou então é o meu sentido de humor que anda em baixo...

Fica bem
Cp

Daniel Abrunheiro said...

Meus caros PC e CP: não é divertimento, meu. É uma tristeza, isto de os idiotas-da-turma estarem todos no poder.

Manuel da Mata said...

Caro Daniel,

Eu costumo dizer que carrego o fardo de ter nascido num tempo sem humor; porém,este tempo presente começa a pesar como chumbo.
As patas da cáfila começam a querer cilindrar tudo e todos. Temos de a levar a sério.Ai temos, temos!
Mas muito cuidadinho...

Abraço,
Manuel

José Antunes Ribeiro said...

Daniel, boa noite:)
A "PC" não viveu o 25 de Abril. Mas eu vivi o antes do 25 de Abril e, meus caros, era um tempo de medíocres, facínoras, pides & Cª. ilimitada...Não podemos comparar!
Não devemos...
Um grande abraço!

LM,paris said...

Olà, emigrei, exilei, uma coisa assim, olha, fui à vida.Fui tentar pôr os pés onde as pedrinhas eram menos bem organizadas no chao, mas nunca olhei muito para o chao..." ladrar sempre " parece-me bem.
Hoje ladra-se melhor, andamos menos engasgados, mas continuamos a coçar muita pulga, gaças a deus!
Vai ser assim até ao fim do mundo.
Isto da resistência, nao parece ter fim. Sejamos mais perto do bambou que do carvalho, vergamos todos, uns mais prà direita( salvo seja!), é preciso é nao quebrar!Malta, um bom dia, mio eu, a gata perfumada diz que plo menos vocês tens sol. Querem 8 graus?
Beijos LM, paris