Saturday, July 07, 2012

Ideário de Coimbra - 24 (conclusão) - Coimbra, sexta-feira, 25 de Junho de 2010



Objectos acumulados sobre a mesa, fundindo as respectivas personalidades:


o bloco-notas & a disponibilidade mnemónica;
o cinzeiro & a omnivoracidade escatológica;
a afiadeira & a obstinação recapituladora;
a chávena vazia & o utente de serviços públicos;
o telemóvel & o silêncio primitivo.

*

Uma sala branca. Cadeiras azuis. Tampos das mesas aos quadrados cinzentos e brancos. Porta entreaberta sugerindo um corredor silencioso como via de claustros. Rumor de água invisível dos flancos da atenção. Consciência perorando, arrumando-se como lhe é possível.
Passagem: noção radi(c)al dela.

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(Fim de manhã. Não permitirei que a penúria financeira seja capaz de impedir-me de escreviver.)

*

Uma mulher de saco com cerejas.
Outra mulher, rosto de morte-da-bezerra.
No meu queixo barbeado, um risco de sangue seco.
Confiança nos Antípodas, aqui só inquietude.
Tempo de ossicalcificação mental.
Sou um movimento que espera,
uma espera que se mexe,
uma cereja num saco.

*

Encontro não combinado com o meu Irmão Fernando nO Nosso Café. Assuntos: a Mãe, o Desemprego/as Expectativas/as Perspectivas/a Falta Delas. A (des)economia das nossas vidas pesando mais do que os anos. Mas irmandade e fraternidade, no nosso caso, rimam de facto e deveras.

*

Esta espera interior, esta estranha acção dos mecanismos neurovolitivos. A “selecção natural”, como me acaba de dizer o Fernando. Desprezo pela sociodeficiência voluntária. Rejeição do jugo pré-conceptual, mesmo algum de cariz familiar (espécie de imerecida ancestralidade obstinada, presente, asfixiante, irracional e irracionada). Esta interior demora: pele de pele, vida de Vida. Corpos jovens residindo numa dimensão paralela/mas visível a olhos-nus/à nossa – mas nossa não já. A poesia ante a realidade: uso de gabardina no Estio. Nos estabelecimentos-bebedouros-da-Noite, mais co(r)pos: penetrando os sacrifícios, cotejando estátuas-de-jardim nas esplanadas, devastando gelados, folhados, granizados, gins, amendoins, rosquilhas, salsaparrilhas & ingentes aguardentes. Esta íntima demora, este morango cardíaco, esta ressoante e ressumante humanidade toda intestina. Falo-Vos de vós adentrando-se sem partilha maior que este crescente de unha que acabo de roer. Uma vida: mel & pus. A um momento lúcido corresponde a percepção da não-gravidade de quase nada. Gomes Leal, por exemplo: cara & coroa de si mesmo, o Gomes da mais completa/abjecta prostração material & o Leal leal ao sonho dos salões do terreal paraíso nobiliárquico. O pelo sonho é que vamos do pobre Sebastião da Gama na Candidinha de A Farsa de Raul Brandão, mas em versão ódio. Estas coisas, estas elucubrações ao tempo genesíacas & apocalípticas. E, ao cabo como ao fim, não-graves.
Espero, sim, por dentro, a consumpção e a assumpção. Agora sou todo já tão-só palavrinhas. Manuais de conversação, breviários gramaticais, cadernetas corocartográficas, sinapses (v)ideográficas do Sul da Hispânia quando os Mouros repousavam o alfange e deixavam dormir as mulheres, Althusser antes de estrangular a dele num acesso de loucura toda sináptica, os gajos em Oxbridge cheiinhos de erudição exegética, de prisma hermenêutico e de paneleirice mal recalcada (o estudante muito louro, muito velocipédico través o extenso relvado gelado na calafria manhã de cinza), o toucinho viático, saudades deste e daquela, o perfil pai-natal daquele homem hirsuto de neves barbibigodeiras, Marlowe escanhoado (um deles dois, ou o detective de Chandler que bebia ou o coevo de Shakespeare que também), José Rodrigues Miguéis como guarda-redes desta quadra de hóquei-em-patins: Hemingway, Faulkner, Fitzgerald e Dos Passos; adversários: guarda-redes Jorge de Sena, em campo Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Steinbeck e Caldwell. Estas coisas já sem gravidade, sem dor já nem remédio. Um poema, portanto –

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Queremos o que ter vamos
Uma outra vida iluminando uma frase
Que sabe pérsicos os pêssegos
E a boca por primeira das três fontes da cabeça.
Teremos o que querer não vamos
A guarda do cipreste
O coração fátuo-fogueteiro
A estrelícia em vão enamorada do cravo
E uma revolução toda cagada pelas ruas futuras.
Julho não tarda aí nem tarda a ir-se embora
Certo Novembro recebemos uma carta transparente
Tinham proibido as ínsuas e as perdizes e os selos
E tudo aos de então pareceu agora como nunca mais.
Falai-me V. de meu insensato primo
Que à mulher insensatamente desamou
Depois de lhe feitas as filhas e as malas.
Contai-me não salteada a história ponderosa
De quem pinta dos ricos as mansões
E das mulheres a roxo as vistas.
Na mente do suicida, falhei a vida
Mas a morte me não falha,
A terra a quem a trabalha.

*

Sim, espero dentro esse dia já ontem.

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Fitzgerald, pág.ª 87, perto do final da história intitulada Tarquínio de Cheapside:

O hóspede voltou para ele um rosto pálido como pergaminho, no qual dois olhos perturbados ardiam como duas grandes letras vermelhas.

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