Monday, July 16, 2012

Ideário de Coimbra - 26 (fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010


Antero de Quental, representado numa "estátua viva". A Questão Coimbrã nas ruas de Lisboa.
© Inês Antunes



Em carta datada de Lisboa, 12 de Novembro de 1914 a Álvaro Pinto (da direcção da revista Renascença Portuguesa e secretário de redacção da revista A Águia), escreve Fernando Pessoa assim:

Compenetrei-me celularmente da absoluta inutilidade de qualquer esforço e da ridícula incongruência do acto fundamental de escrever – expor aos outros cousas que ou são opiniões ou sonhos, como se as opiniões, quando por acaso alguma acção têm, fizessem mais do que perturbar para fora dos seus saudáveis e naturais instintos os pobres cérebros humanos; e como se o destino lógico e nobre dos sonhos não fosse ficarem apenas sonhados dentro de nós, sem a ousada imperfeição de serem expressos. Não podendo ter a maravilhosa e natural saúde de não ter opinião nem sonhos, esforcemo-nos ao menos por adquirir a artificial saúde da renúncia.

Pobre Pessoa, jóia raríssima imersa e ignota num charco de rãs-integralistas, sapos-lusitanistas e girinos-saudosistas. Nem lusitanismos nem integralismos poderiam perceber, sequer de esguelha, o drama estático O Marinheiro. Acrescente-se “apenas” isto: que já a 8 de Março deste mesmo 1914 Pessoa, de pé, sobre uma cómoda alta, recebera a visita mediúnica de um tal Alberto Caeiro, guardador de rebanhos

Já Teófilo, a páginas 100-101 da op. cit., cita, a propósito da chinfrinada da Questão Coimbrã (Bom Senso e Bom Gosto), uma excelente intrusão (tão actual, infelizmente) de Cunha Belém, autor do folheto Horácios e Curiácios:

A facilidade com que entre nós se fabricam as reputações literárias, a impunidade com que se adormece à sombra dos colhidos loiros, o deleite com que tanto os grandes como os pequenos ouvem reciprocamente o canto da sereia denominada elogio mútuo, a má-fé ou nímia condescendência na crítica literária, são decerto a principal origem da astenia que apresenta a nossa boa literatura.

Pois é: a trampa é antiga. Do século XIX ultra-romântico do Castilho cego e do deslumbramento revolucionário do Antero suicida – ao nosso XXI, nada de novo debaixo da cloaca. Hoje, os chicos-zés-viegas, o VGraçaMoura (vero Pinheiro Chagas da nossa idade), os peixotos, os possidónios, as pedrosas, os manéisaroucas, os pivôstêvês – tudo é genial por destinal ou asneal de asinino. Bardamerda, enfim, que no país “literário” só a estupidez, o compadrio, a putaria, o piercing e a infecta madalena que os/as pariu a todos/as são vernáculas.
(E isto numa língua que deu um Nuno Bragança – quem?, um Miguéis – quem?, um Sena – quem?, um António Osório – quem?, um H. Silva Letra – quem?, um Wenceslau de Moraes – quem?, um Soeiro – quem?, um Luís Filipe Costa – quem?, um Fernando Pessoa – quem?)

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