Monday, October 01, 2007

A Noite em Breve - 12

Foto: © Alexandre Rodchenko
(Reunião para uma manifestação
no pátio do Instituto Superior Técnico e de Artes de Moscovo,
1928 )
A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)


12
Caramulo, entardenoitecer de 24 de Agosto de 2007

Estas são linhas de um homem que vive numa vila de alto de montanha. É um pequeno homem, é uma vida pequena, a montanha não é alta. As linhas não podem nem pretendem ser mais do que linhas. Umas vezes, as linhas são frases, outras vezes são versos – linhas sempre. Adicionam-se a anteriores, prenunciam seguintes. Articulam a falsidade com breves lampejos de sinceridade: coruscações no imo de sombras. Umas vezes, faz a sinceridade de coruscação; outras vezes, de sombra. É tudo no imo. Não tem importância – mas tem seguimento. Exactamente como a vida – sem importância, com seguimento.
Escrevo na decadência da sexta-feira. Toda a semana vesti fato-gravata sobre camisa branca e sapatos pretos. No novo emprego, aprendi coisas e reconfirmei coisas: das máquinas, do Tempo, das pessoas, dos lugares. Por três vezes, fui condutor de uma idosa sisuda com muito mais fortuna do que tempo de vida. Almocei no piso inferior a zero entre gente que anda ali ao mesmo: ter com que pagar os almoços dos dias de folga. Atendo o telefone, vigio o fax, marco refeições, preencho formulários, faço trocos, dou recados, aceito mensagens, transmito chispas da electricidade económica que mantém tenso este mundo sem descompressão possível. E depois, ao fim do dia, escrevo linhas que não serão mais do que linhas: escrevo, escrebebo, escrevivo.
A fadiga acende-me os cigarros. Do alívio pós-profissional, bocejo catacumbas chorosas, cujas aflorações enxugo com guardanapos de papel. Como não se passa nada, tenho de fazer com que se passe. O recurso mais proveitoso está na maleabilidade da memória.
Esta madrugada, acordei pelas quatro horas. Não estava calor, mas tal não me impediu de passear nu pela casa. Sentei-me ao computador e procurei correio: pessoal, não havia. Frequentei dois ou três sítios argentinos, um inglês, dois portugueses. Às cinco e meia, tentei desistir de estar vivo – ou, pelo menos, acordado. Resisti à tentação de engolir uma pastilha sonífera, deitei-me, esperei. Tive alguma sorte: antes de passada meia hora, o lápis-lazúli emoldurou-me as janelas da cara, que fechei para dentro. O sono veio até às oito menos um quarto. Levantei-me outra vez, outra vez nu – como se nascer tantas vezes me safasse do passado prospectivo. Não safa, valendo que aquilo a que chamamos consciência é um ópio. Ajoelhamos, todo o santo dia, ante essa nuvem: carregada de imagens naturais mansas em convívio com flashes violentos. Crianças bonitas, bonitos clarões de sol que devassou bosques para filmar o lago. Estertores do anavalhado no asfalto, à chuva, cruzando-se os charcos de água e de sangue. Crucifixos de mármores quebrados pela eternidade. Linha a linha, guardo estas imagens como as mulheres guardam nas gavetas, em papel vegetal, as tranças da mãe e das filhas. Claro que sei: escrevo como se carpinteirasse um psyché. Não o inevitável espelho triplo deste móvel me convoca, mas suas gavetinhas especiosas. Fadas, burlões, anjos, econocratas – todos podem entrar nas gavetinhas para minha colecção de vistas sobre a vida tida por não-real, por tão-só falsa, fictícia, versilibrista, hialúrgica, insensata. Quero lá saber: é sexta-feira, já anoiteceu, trabalhei todo o santo dia no meu ópio privado, estou fatigado, preciso de escrever: se não para viver, ao menos para ter vivido.
Ao meu lado direito, no carro do hotel, a idosa abastada contou-me de sua nespereira em seu jardim, lá no Norte. Ela tem pavor do frio. A idosa, digo, não a nespereira. Como Proust, não pode com uma corrente d’ar. O vento frio fulmina-a. Sinto-a secar e com agravo. Não posso fazer-lhe nada, nem nada por ela. Dou-lhe a boleia consagrada pelo acordo de hospedagem: hotel-estalagem, estalagem-hotel. Dorme no hotel, passa o dia no jardim da estalagem por ser em cova e imune ao vento. Sei o nome dela, ela nunca perguntou o meu. Está certo, está bem assim: não passo de um motorista ocasional. E a verdade é que lhe presto a ela o mesmo que me presto a mim: serviço de motorista a bordo de uma lembrança de nespereira. Contei-lhe de já ter vivido em casas com quintal e uma árvore de fruto: o pessegueiro da infância, a laranjeira do ano 2000. Tenho a certeza de que nem me escutou. Está já tão atenta aos últimos pássaros, para ela entardecedores já da manhã ainda. A porra da idade. Não tardo muito. Não tardo muito, mas não me dou ainda a chorar as babas e os ranhos da entrega. Hei-de dar-me a esse luxo pobre, é quase certo que sim, mas antes dessa noite em breve tenho de alinhavar falsidades sinceras, talvez, frases, talvez versos, sempre linhas.
Lembro-me de vogar por linhas de Portugal a bordo de expressos de calçado hidráulico. Era como ser um anjo com bilhete, admitido à navegação diagonal pelos ópios da madrugada. A Lisboa, por exemplo, chegava pela hora rutilante dos últimos drogados e dos primeiros quiosques. Ia comer uma bifana no pão e beber um branco alto a um tasco muito perto do sítio onde a família do Eça tinha casa. É no Rossio. Eu acho que era quase feliz, desde que com bifana e branco. Depois, desandava pela evidência histórica dos monumentos, essas pedras e esses bronzes que desde menino me comprovam a fatalidade de ter nascido tarde de mais. (Já o disse em linha e em linha o repito: não tem importância, nada disto importa, tudo isto segue.)
Em Braga, nos últimos dois dias do único Outubro do ano (era 1986), eu era um pássaro apedrejado. Estava ali como se o telhado, de que via as ruas e as formigas fato-gravata-camisabranca-sapatopreto, tivesse aluído noutro céu. Tinha a minha dor invencível, tinham passado cinco meses e uma semana apenas sobre a ida ao campo santo da Pedrulha do Campo, Coimbra, para depósito do meu irmão. Em Braga, estive no Café Vianna (onde João Miguel Fernandes Jorge esteve e terá escrito e/ou guardado alguma coisa). Estive n’A Brasileira de lá. Não pude ser outro libertino pachecal na Idólatra. Fui um rapazinho na tormenta como um bastardo serôdio de último imperador em vésperas de o império ser abrasado pelo oxiúro multitudinário do cristianismo. Vi uma peça de António Patrício, O Fim. Estive em casa de actores e actrizes dessa peça. Uma lia os policiais e os sci-fis da Editorial Caminho. Outro fazia um truques com as orelhas (dele) que era de rir até ao pranto. Eram ambos da Figueira da Foz, minha Meca de peregrinação memorial. Estavam em Braga, nessa outubralgia da minha vida, da minha pequena vida pequena. Sigo.
Chegou o tempo das caminhadas, pouco depois. Pus-me a andar a pé por todo o lado. Caminhei milhares de quilómetros mentais com o corpo todo. Fiz Louriçal-Pombal, fiz Pombal-Coimbra, fiz terra-mar-e-ar. Já assentei praça sonâmbula em pinhais casquinhados a prata pela Lua. Já estive em praias à procura do mar sem o encontrar. No caderno do céu, assisto ainda ao lápis branco dos jactos. Catrapilos e helicópteros hipnotizam-me ainda, mérito de obras e urgências.
Os dias aqui postos como se continuassem dias, não linhas. Mas linhas. Este perambular quase inócuo pela hialurgia. Noite e dia, no fio da navalha de vidro, como se Maugham fosse da Marinha Grande. Marinha Grande?
Marinha Grande, Junho de 1978. Albergaria Nobre, hospedagem da selecção de iniciados de Coimbra, futebolzito. O fascínio daquilo: sumos à discrição, adultos benignos querendo, pelo desporto, que quiséssemos querer: conquistar coisas na vida, mais do que só no campo. Em Pombal, perdemos 0-1 com Viana do Castelo. Em Marrazes, empatámos 0-0 com Leiria. Em Leiria (no relvado!), empatámos 0-0 com Bragança. Perdemos nos penalties, ficámos em 6º de seis, ganhámos a Taça do Desportivismo (não altura, ainda não se dizia fair play). Ainda hoje acho que ganhámos tudo porque ninguém perdeu. Da mesma Marinha Grande saiu, oito meros anos depois, o assassino (sete vítimas) da Praia do Osso da Baleia. Ano para sempre mau, esse 1986.
Rápidas incursões (rápidos trapos) longevas (longevos): nos anos, na brevidade. Eu sei. Há coisas que sei. Elas voltam, fraccionadas a gosto do condomínio: lotes of it. Elas voltam: as imagens naturais mansas. Eles nunca partiram: os flashes violentos. E nem eles nem elas são mais do que seguintes, nunca importantes.
Minto? Sim. Atribuo importância a umas e alguns. Mas sou tão mau juiz, que não dou sentença. Vivo, escrevo, escrevivo, escrebebo.
Olha, nesse inverno em que andei pela praia sentado na sala da casa que não recordo, qual sala, qual casa, qual praia, qual inverno. Devo ter estado muito tempo nessa cadeira, o mar salgava os cortinados, o vento matriculava albatrozes transparentes pelas paredes, a lanterna mágica podia ser do mau vinho, sigo. Andei pela praia.
A praia era uma orelha de areia suspensa da música de búzio do mar. Como decerto voltarei a ela, a praia será uma orelha de búzio suspendendo a música do mar. Sim, a essencial surdez do coração. Sim, algures na caminhada. Sim, este corpo nutrido a bifanas, regado a branco e de si mesmo palimpsesto interpugillares.
Alegrias? Deixa cá ver. Olha, 1976-77, ano lectivo. A meio da manhã, chegava à cantina o tabuleiro de pastéis de carne a cinco escudos. Douravam o palato frígio, frigindo o barrete vermelho de uma boca que tinha céu porque tudo, então, tinha céu. Olha, 5 de Novembro de 1977: primeira vez que vi um texto próprio propriamente impresso. Foi num jornal português cujo papel era subsidiado pela União Soviética, O Diário. Na página infanto-juvenil editada por Oriam (Mário Castrim), saiu As Quatro Estações (com desenho de Catarina Rebello, filha do mesmo Luiz Francisco Rebello que, tantos anos depois, haveria de sair sem graça da Sociedade Portuguesa de Autores; e que, tantos anos depois, encontrei em Coimbra-A, encontro que depois me trouxe pelo correio uma oferta livresca do dramaturgo (duas peças: As Páginas Arrancadas e É Urgente o Amor); e o mesmo Castrim com quem por duas vezes troquei linhas faladas em sua/dele casa de Lisboa, à Avenida Luís Bívar; etc.). Publicarei no Canil, dia 5-11-2007, esse poemazito inofensivo atordoado pela remanescência, aliás sã, do neo-realismo.

2 comments:

Alex said...

Eu tenho a mania (reconheço que sim) de que o António Lobo Antunes é o único escritor capaz de escrever à velocidade do pensamento.


Tinha, a mania.
Um abraço Daniel.

Anonymous said...

Boa a vivência. Haja saúde para prosseguir dentro do que Freud afirma e concordo "A inteligência é o único meio que possuímos para dominar os nossos instintos."
Foi boa a leitura.
Afectos