Wednesday, October 10, 2007

Poesia da Tarde de 9 de Outubro de 2007

Foto: Gloria Swanson, 1924 - © Edward Steichen
Fonte: http://www.masters-of-photography.com/

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Notas:

1 - O primeiro dos Três Sonetangos para Dançar Sozinho nada tem a ver com a fotografia (aliás maravilhosa) aqui exposta. O rosto de Gloria Swanson, estrela maior (e cadente) dos loucos anos 20 do século passado, fica aqui bem - como em toda a parte. Mas o tal soneto aconteceu-me como tudo, em poesia, me acontece: vem de uma imagem linguística. Embora muito me comovam e digam as artes superiores como a Pintura e a Fotografia, são sempre palavras o que vejo.

2 - Todos os textos que se seguem, mas todos, aconteceram-me no decurso da tarde de ontem, 9 de Outubro de 2007, na pastelaria caramulana do costume (chama-se Giesta Dourada). Recolhi-os nos intervalos de outras escritas (digamos que profissionais). São palavras excessivas, naturalmente. Aqui ficam - são vossas, agora.

D.A.

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Tábua

I. Três Sonetangos para Dançar Sozinho

II. Da vida o Tempo Dubiúnico

III. Já Agora Todos os Dias

IV. De Mar Preto Fazemos

V. Um Dia

VI. Uma Terça-Feira à Noite em Lisboa

VII. Madame Blanche



*****


I. Três Sonetangos para Dançar Sozinho

1

Sombrios rostos través transparentes tules
cortinam das janelas ópticos silêncios.
Geralmente mulheres muito sós num tempo
estancado a alturas de terceiro andar.

Colecciono tais rostos. Roubo-lhes a clandestina
observação do mundo para dela vos dar
conta e recado. Poucas quando descobertas
sorriem. Fá-lo por elas a tristeza.

Com elas partilho a tristeza e a posse de gatos.
Também os anos teóricos do futuro e a sombra
no rosto além-transparências rendadas.

Diferimos porque elas ficam ao vivo e eu passo, diferido.
O meu recurso é a redacção de sonetos quebrados
e crepusculares que olhem e não calem.

2

Manhãs há que duram anos.
Noites que a vida toda.
Dias clareiam bruscos fósforos.
Nada contamos tudo nos conta.

Passamos junto a rios que ficam.
Em parques antigos renova-se a flor.
Esmolamos da luz um rosto claro.
Retemos do mar dois grãos de areia.

Pelo chão outonal olham as castanhas
de olhos castanhos à face do chão.
Formosa natura tão bem imita

da Mãe os olhos outonais.
Não deixa nunca de comover-me
tanto sermos nada todo o tempo.

3

Matutinas senhoras de café-com-leite bebedoras
pilares da rotina peregrina dos lares
são minhas vizinhas nas manhãs sonhadoras
das pastelarias mais crepusculares.

Migram nossas vidas relojoeirinhas
as tardes dispersam os seres ruminantes
vivemos morremos eu e as vizinhas
às vezes comemos em bons restaurantes.

Chegando a noite volta nosso inverno
eterno lunar tão vindimador
que a dor acutila a fundo o esterno
nos dá este rosto cristão sofredor.

Manhãzinha cedo porém com deleite
vou ver as senhoras e o café-com-leite.


*****

II. Da vida o Tempo Dubiúnico

Da vida o tempo único as dúbias cumplicidades
o mais que posso guardo em arquivos-mortos
custa-me reencontrar algum gajo hoje mármore
algum desamor hoje menos que nada
algum poema escrito antes de esta única tarde.

Creio nos animais e nos versos de Rilke
não muito mais me sobra o tempo é pouco
muito é o sentimento sim mas com educação
até tal se suporta em perfeita conveniência
e exemplo aliás moral na circunstância.

As conversações anoitecem muito na memória
pés brancos de senhoras refulgem idas cavalarias
em pátios de bombeiros bate sem água o sol
vasos de sardinheiras ressumam mijo de velhotas
muito a memória amanhece sem conversação.

Da vida dúbia o tempo único e assim.

*****

III. Já Agora Todos os Dias

Todos os dias a água do dia chega à praia da noite
todos os dias o ouro do dia chega à prata da noite
e o meu receio é chegar sem palavras à noite
que se me dissipem rarefeitas as palavras
tenho muito medo disso não quero ter mas tenho.

Suporta-se de modo melhor a prisão do que o desamor
de melhor modo o esquecimento do que a estupidez
mas o meu pior modo é o medo de à noite
chegar e não ser água
chegar e não ser prata
chegar e ser só noite
e não ter para ela
uma humana palavra que lhe diga

ou escreva

já agora
que se faz noite.

*****

IV. De Mar Preto Fazemos

De mar preto fazemos cada um
em a sala da senhora antiga
que retrato velho de nossa Mãe é.

De mar preto em a sala dela fazemos
pois que nos encadeiam os faróis dos retratos
do alto do fraco pinho envernizado das estantes

o Avô de costas para as Obras Completas de Júlio Dinis
da editora Civilização
o nosso Irmão dando espaldas a guias de conversação
Alemã Inglesa Francesa Italiana
para viagens que não fará
o nosso Pai entalado entre Camilo Castelo Branco e o
Dicionário de Pintura Universal.

A Grande Maré nos enegrece escumosa e literata e triste.

*****

V. Um Dia

Não morreremos
se um dia
todos tivermos
vivido.

*****

VI. Uma Terça-Feira à Noite em Lisboa

Uma terça-feira à noite em Lisboa
num estaminé de bifanas de sujo chão
como sujo o céu da tarde encartonada
precário o sono dos sem-abrigo ao
dito Teatro dito Nacional
fui feliz devagar como uma osga literária.

Eu tinha olhos para o rio
precisava de barco nenhum.
Descendo a toleima comercial
da Augusta ou da Áurea
chegava-se ao rio
e o Rio era o Tempo e nenhum Sono
e toda a Vida e toda a Morte.

Na terreira Praça urdiam-se fodas e negócios

– e eu de negócios e fodas livre
como um formoso passarinho
comedor de bifanas
e vedor de putas.

Andei por lá.
Andei mesmo.
Andei muito.

Cheguei a cumprimentar pessoas
nessa vitalícia noite de terça-feira
na também muito minha cidade
de Lisboa.

Bonita
a sacana.

Muito dada
é certo
a putas e analfabetos.

E a carnavais nas hortas
em 1928.

Mas tirando isso.

Vezes houve que o Sol
alabastrava marfins súbitos
bruscos ouros
(bruscos fósforos)
de História.

Eu já usava esta felicidade triste
dos versos
embora menos.

E ainda lá estou
e mais hoje
que terça-feira
voltou a ser

como por vezes
uma pessoa a si mesma
volta.

E daí não sai.

*****

VII. Madame Blanche

Correm entre aldeias os riachos
e deixam nos olhos bonitos ferimentos vegetais
são hortas claríssimas e coisas que tais
puros sangues verdes de uma cristal cegueira.

Ao álgido vidro há fêmeas e machos
uma vez por ano a Fátima vão
nem da ecologia bons adeptos são
mas levam os porcos cagando aos riachos.

(Se a Mãe de Deus usa vestido branco
eu também quero usar.)


Caramulo, tarde de 9 de Outubro de 2007

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