Thursday, October 11, 2007

Cegas Imagens Palavrosas


© Joel Meyerowitz, A Estrada Branca (Toscânia, 2002)
http://www.masters-of-photography.com/




Na diáfana cegueira transversal às minhas já várias vidas, não muito me custa lobrigar o que me (des)gosta fora – e todo o vice-versa por igual. Tenho-me repetido, de bengala de alumínio tiquetaqueando as pedras chãs, que a Vida a tanto não importa quanto a Palavra – e com vivas cegas palavras mo repito.
Hoje, a manhã foi dada ao cumprimento de suaves compromissos decorrentes da profissão. Depois, levei pão fresco para casa, dei de comer à gata, comi a minha porção, engoli café e sentei-me à mesa para saber outras palavras de outras vidas. Entre umas e outras, folheei fotografias de tremenda beleza. Homens e mulheres (a maior parte já defuntos) perfumaram o futuro com os jogos florais de suas visões únicas e irrepetíveis. Como me não é possível, sequer minimamente, angariar imagens como as deles, deixo-me estar sossegado e espero pela hora propícia da tarde, a que me leva, antes do trabalho da noite, à mesa do costume na pastelaria do costume. Sento-me, abro o caderno e espero. A minha cegueira acorre em meu socorro a meu apelo. É o regresso das cegas imagens palavrosas.
Segue-se uma onzena delas.

Caramulo, tarde de 10 de Outubro de 2007


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1

Jasmina o pescoço daquela menina
os lábios ungidos da rosa-do-chá
um cão aos pés sonha buganvílias
outrora cadelas ciosas e más.

Não longe um velho lê necrologias
em si consultando datas apelidos
além do balcão boceja o patrão
junto aos bolos secos há cachos de enchidos.

Já não falta tudo pró 1 de Novembro
mortos todos santos são tantos defuntos
que apelidos e datas esqueço não lembro
sou dado a jasmins e outros assuntos.

2

Uma estrada branca como uma cobra de papel
estende na manhã um plano do mundo
engrossa a leste rufadora tempestade
cães varridos pelo vento ganem a Deus surdo.

Estatelado contracéu um borrão de tinta
é uma árvore. Vizinho casebre fuma peixe
em o coração de rubi da lareira. À porta
uma mulher fita a estrada por que ele se foi.

3

Pedras vivas muito negras na água branca.
Sente-se o frio nos gestos ferruginosos
das crianças e dos velhos alameda acima.
Duas avariadas letras de farmácia.

É um fim de tarde mas pode que seja
manhã muito cedo não tardando a noite.
Da pensão pobre as cariadas janelas
estendem trapos vermelhos postos a secar.

Uma criança cai e chora. Longe no estaleiro
sirena a tocata do turno final.
Barcos voadores naufragam em nuvens.
Pulsam verdes seis letras vivas: F RMÁ IA.

4

Áreas de sombra são outras casas casa adentro.
Territórios do mal ou do desejo ou de tudo isso.
Conspiram tesouras em fechadas caixas
que a defunta avó não quis levar com ela.

Uma flor negra cresce para ser mancha.
Os olhos do animal olham traspassando
de lado o corpo de quem o olha e descobre
não mais nunca mais haver luz nesta casa.

5

A criança fulgura em toda a sua inocência territorial
e omnipotente. Mínimos paradigmas das primícias
ainda despalavradas rutilam em o inexpugnável dentro
de sua cabeça fantástica e mais do que perfeita.

Um dia será dada a poemas e tudo perderá.
Com a bengala do cego terá de ganhar a vida.

6

Casas altas e sem chão como sonhos
perfilam a poente exclamações todas d’alma.
Estações de serviço já muito roubadas
adensam a noite a frios viajantes.
Tarde são encerradas frias bibliotecas.
Já tiro os óculos já desligo a luz.
Se sonho se vejo quanto vivo roubo.

Em torno da cama os móveis da noite
estalidam segredos osteoporoses
as almas devassam engaçam cansaços
próprios da agonia das lentas neuroses.

Uma flor negra cresce para ser manhã.

7

E se o amor
esse sorteio de cegos.

8

Confesso a minha total subserviência
aos jogos florais com que a língua
clitoriza públicos púbicos segredos
que é uma vergonha pôr em notícia

que não em verso.

9

Os homens que andam ao cartão nas ruas
para vender a peso nos armazéns
sonham no vinho com mulheres nuas
junto às mulheres sonham com as mães.

10

Menos de mim saio que em ti entro.

11

Turnam e tornam em roda as lanças
aos vãos palacetes da tinta riqueza
tudo entre canais na extinta Veneza
onde outrora houve venenos e danças.

Já não há.

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