Saturday, October 13, 2007

Falo-te

Depois da Viagem a Viseu etc. da entrada anterior, mais versalhada. Coisinhas de nada, enfim, que ontem me visitaram pela tarde. Abri-lhes a porta, escrevendo-as. Abro-lhes a janela, publicando-as. Não tem nem têm importância, enfim. (Muito provavelmente, os mais distraídos rotularão estes versos como “poemas de amor”. Não posso fazer nada contra a distracção.)

*****

1

Os teus olhos na minha cara.
Gosto deles: são de uma pureza triste.
Agrada-me deles a tristeza pura.
Que nos amemos para sempre
parece-me indiferente.
A diferença está nesses olhos
não na minha cara
sequer na minha vida deitada
fora
e longe.

2

Vou muito a sítios povoados da tua falta.
Às vezes levo nos braços o coração como a um
bebé morto.
Gosto de ver o comércio dos outros.
Não me lembro se te disse o que sinto
quando o vento nas árvores
depois na água.
Talvez algures to tenha deixado
escrito.
Não sei.

3

Sei tão pouco.
Às vezes estou na pastelaria
e a folha em branco diz-me

Não me toques.

Di-lo com a tua voz
e olha-me na cara
com os teus olhos.

Então
toco-a.

4

Somos
um homem
uma mulher.

Nada nos falta
para sermos sozinhos
no mundo.

5

Não somos
um homem
e
uma mulher.

Tudo nos falta.

6

Peuplé de t’absence.
Peuplé de ma faute.


7

O meu peito é uma lixeira.
Também é um salão de grandes lustres suspensos
na noite setecentista.
Há um quarteto de cordas com flautista.
Não és a flautista.
És a mulher de outro homem.
Tomaste já duas contas de champanhe.
Seduzes aqui e ali
este e aquele.
Há uma bailarina com cobras no interlúdio.
Há um tigre no jardim relvado.
Não podemos sair do meu peito por causa do tigre.
O tigre esgatanha bocados de lixo.
Quero ler música
sento-me perto dos instrumentistas
não consigo distinguir as pautas
as notas juntam-se numa só.
Os músicos levantam-se
arrumam as estantes
guardam os instrumentos
tomam um cálice de porto
pagam-lhes
vão-se embora
o tigre não lhes faz mal
os tigres gostam de música.
Estou a uma janela alta
olho o vento dando nas árvores
levantando lixos e versos.

8

Quando o amor me faz mal
vou ver as marés.
A Lua é alta e argentina
ilumina o céu diamantino
de estrelas picotado
como o manto do mágico.
O mundo é muito bonito
ao contrário do amor.

9

Todos os dias começo.
É o único segredo da minha vida.
Era.
Já não é.
Falo-te.
Digo-to.

10

As lâvestóris e os desquites riscam os céus
como pretos pássaros contra o fulgor do entardecer.
Trocas de filhos e de endereços sujam as manhãs.
Domingam as igrejas seus noivos de alto de bolo.
Rubicundos empreiteiros estoiram de vinho no banquete.

Todos andamos ao cartão pelas ruas.
A ética comercial acende luzes nas noitinhas mansas.
Os buracos das ruas aleijam por baixo os carros.
Tudo é um jazz tão triste e tão bonito.
Mulheres carnudas como frutos inquietam polícias.

Todos juntos cada por si reescreveremos
a História do Desamor ao Colo do Desemprego.
O vento baterá as ruas como um cão transparente.
Sabemos tão pouco viver tão bem morrer.
Passo pelas igrejas e amaldiçoo o Senhorio.

O Senhorio sim esse riscador dos céus.

11

O meu amor tem por vezes febre como um menino.
Apanhou muito sol queima-lhe a cabeça.
Dele é o olhar doloroso a boca crestada.
Tremem-lhe as mãos que o escrevem.

12

Tenho tirado móveis velhos do meu coração.
Queimo-os no pátio da minha cabeça.

13

E a impiedosa alegria das crianças andorinhando
pelos azulejos da água exposta ao vento?
E a maravilhosa folia das danças flutuando
pelos desejos da mágoa imposta ao tempo?

Caramulo, tarde de 12 de Outubro de 2007

2 comments:

Alex said...

Olá Daniel,

Cheguei agora do Manuel onde li um poema que me enterneceu, vim andando e ... que bela forma de sentir a vida nua e crua, pura. Pois nao são, poemas de amor, são as mais belas formas de sentir - estas correntes de escrita.


O Caramulo,
deve ser inspirador.

Um abraço, bom Domingo

Daniel Abrunheiro said...

Bom Domingo, Alex. Obrigado.