Tuesday, October 02, 2007

Setembro Acabando

© Sandra Bernardo
Cabo Carvoeiro, Peniche, 29 de Setembro de 2007

Setembro Acabando

Tábua

I
TRÊS RIMANÇOS (mais um que não)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

II
ESTE ANO NÃO FUI À PRAIA MAS LEMBRO-ME (mais três poemas)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

III
BONECREIRO AMOR
e CABO CARVOEIRO
Bairro das Morenas (Caldas da Rainha), manhã de 30 de Setembro de 2007


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I
TRÊS RIMANÇOS (mais um que não)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

1. Azulejo de Coimbra

Tinta verde o vidro do céu estrie
convexos dedos na contraluzazul
manchas de folhagem pintalguem o dia
seque a cercadura à força de sol.

Tenha águas o rio tinteiro de sombra
à margem cinzelem lápis pescadores
e que o tudo dê teu nada Coimbra
tua branc’ amnésia tod’ a furta-cores.

2. Três Mortos em Casa

Frutos à mesa na taça de louça
como olhos cheios da cara extirpados
olham em torno a sala vazia
olhados pelas moscas d’olhos irisados.

O frio ronrona motor frigorífico
quem terá esquecido o bico de gás?
adormece o gato bonito horrífico
tome disto conta só quem for capaz.

3. (Litoral)

(Cheguei finalmente à praia prometida.
Chama-se Idade.
A tal praia tudo chega – e não é bastante.
E dela nada parte – excepto o próprio.)

4. Memória Diabética

A com delicadeza queimado açúcar cheirava
sua boca perfumadora de sentidos segundos
vestia despindo o corpo que usava
tal que lhe era a pele dos órgãos profundos

o que mais contava mas nada dizendo
nada adiantando pois quando falava
delicadamente açúcar ardendo
ao mesmo a boca dizia e queimava

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II
ESTE ANO NÃO FUI À PRAIA MAS LEMBRO-ME (mais três poemas)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

1. Este Ano não Fui à Praia mas Lembro-Me

Torra o sol o mar em triangular vermelha vela
o dia deixando cair lá onde habitam
futuro e passado.
Um pouco antes tudo foi prata e peixes
mercúrio e medida infância e mercúrio.

Fáceis alegrias sexuais mostram-se católicas
em procissão com rebites de mamilo
e amareladas unhinhas pedestres.

Dos homens bóiam jibóias de ventre
gelatinando pêlos convictos de sua opinião.

Crianças salgam sua mesma doçura
antes do grande outono que aí vem
antes do grande foda-se aí à porta.

Para o ano
se puder
lá estaremos.
Ou
se pudermos
cá estarei.

2. Contagens

Conta o sítio de onde viemos.
Não nós.

Para onde vamos conta.
Nós não.

É um tanto injusto
mas é.

É.

É o que é.

3. Situação

O perfume da comida dizia casa
quando nós na rua.
O das árvores dizia vento verde
e nós na rua.

Agora o mar na televisão
nós em casa.

4. Na Nossa Terra

Na nossa terra, outros seres há.
Não são como nós, não habitam.
Cruzam e devassam panos expostos à secura.
Fogem das luzes rápidas
em nosso tempo rápido
só para eles lento – e todo.
Quando dormimos e quando não dormimos
eles hão.
Debruam da Lua a aura anil
integram das árvores
a quieta viária viração.

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III
BONECREIRO AMOR
e CABO CARVOEIRO
Bairro das Morenas (Caldas da Rainha), manhã de 30 de Setembro de 2007

1. Bonecreiro Amor

Gosto dos tisnados rostos da pobre gente
nos cafés apiolhados do bairrismo social.
Bebem calor das chávenas, deixam moedas,
as mulheres.
Deixam notas os homens, beberam gelo.

Amo a nomenclatura triste dos meus compatriotas.
Gastam uma moeda na máquina do braço mecânico,
é raro tirarem um boneco ou um relógio.

Homens e mulheres,
bonecos,
tira-os o tempo então,
a longa mecânica
o braço breve.

E eu amo tudo
enquanto.

2. Cabo Carvoeiro

Ontem em Peniche
no diáfano tapete do ar
as migalhas de nome gaivotas.
Gatos pequeninos
abeiravam felinas falésias.
Era de novo
a incurável alegria
de tão imensa desconsolação.
Carros iguais a nós
e casais a nosso carro iguais
vieram ao mesmo que nós.
A ver a Nau, a ver os corvos.
Corvos, gatos, gaivotas.
Aquilo maior do que a nossa vida,
o mar.
Nenhum barco.
A Berlenga, fumando nuvens
com a América nas costas.
Amanhã em Peniche
eu não sei.

3 comments:

Armando said...

"Era de novo a incurável alegria de tão imensa desconsolação."

Sejamos todos benvindos ao outono de outubro. Sapatos limpos no tapete da entrada; descalços, como em casa.

sophis said...

Essa tua senhora fotografa muito bem. Diz-lhe, faxavore!

Daniel Abrunheiro said...

Bem-vindo, Armando.
Vou já dizer, Sophis.