Sunday, October 14, 2007

Poesia de 13 de Outubro de 2007

E agora a poesia de ontem, já agora.


Tábua

I – A Mais Lenta Cidade
– Pentagramas da Dizimação
– com aliás oportunas nótulas historicistas –

II – Terceto Bordado a Bosques
– e dedicatório –

III – Meninainda

IV – Outro Terceto
– com alheia mãe –


*****

I – A Mais Lenta Cidade
– Pentagramas da Dizimação
– com aliás oportunas nótulas historicistas –


Sou atravessado por cidades rápidas.
Fui um dos gajos passando frente a lojas.
Escureci calçadas que o sol tomava.
O meu nome era o de cada rua,
não já o que me deram conforme meu Pai.

Recordo praças instantâneas como magnésios clarões.
Estátuas subiam e desciam como foguetões de História.
Crianças, velhos e pombas trocavam penas.
Fiquei com as minhas para corpo de versos.
Também o meu corpo ardia de bronze.

Devo confessar que amo a tristeza?
Vejo daqui pátios cobertos de hera.
Paguei sempre pontualmente nove dízimos à vida.
Pagarei dez, quando mos rebuscar ela.
Não tenho problemas com ela.

Cantores envelhecidos decrepitam-se em mansardas
que a Lua não esclarece nem perdoa.
Putas antigas, na esperança de fardas
insultam os bichas, ’tiram-lhes bojardas
e cospem tremoços de noite, em Lisboa.

Lisboa não é a mais rápida das minhas cidades.
Talvez Coimbra me mereça esse triste pendor.
Como for, são estremes pontos do eixo da minha vida.
Eu vi as cheias do Campo do Bolão.
Eu sentei-me na Rocha do Conde d’Óbidos.

Cada homem tem o ultramar que merece.
Todos os seus íntimos rios nele dão foz.
Sou este homem contando pedras à margem.
Não tenho problemas com a margem.
Devo dizer que é triste amar um rio?

Ao Arsenal levaram o cadáver rápido do Rei.
Diz-se que a Rainha retorquiu com uma bengalada de flores.
A piolheira do Povo e a piolheira da Monarquia cataram-se.
A segunda foi-se catar, a outra ’inda cá coça: manda
os filhos e as filhas a concursos de têvêtalentos.

Um amigo meu disse-me outro dia bem do Afonso Costa.
Estimo bem que a terra lhe seja lenta, ao Afonso.
Era espadachim pela honra, bigodava oratórias:
um ratito peninsular brandindo carbonárias.
Ao menos hoje ouvimos o fadista João Braga.

(Gosto, sim, de pentagramar poemas de nótula historicista.
Pasmam quase sempre os fregueses do Torga.
Rio-me por dentro e faço fora a mais séria cara.
Sou um poeta de pastelaria: respeitinho
ao estabelecimento e à ortografia não brasileira.)

O que não percebo, nem bem nem mal, é a acupunctura.
Deve ser coisa bielorrussa.
Vamos supor que a vaca tussa:
é caso de sinecura
ou da oferta e da procura?

Um dos índios da Meia Praia jogava futebol amador
disfarçado de gajo do Belenenses, o clube que
Américo Thomaz sapatilhou a branco quando
fantochava de almirante. Está num filme
perto do 25 de Abril final. Recordo isso.

Reticências de passaritos no caderno do céu.
Isso e a paz japonesa das árvores importadas.
Lentidão do casario: seu presépio sem
salvador. Simbiose de badalos com sinos:
cristianismo agrícola, aferventador de couves.

O Deus católico português joga sueca na Associação.
Bebe ginjas intermináveis e nunca paga a despesa.
Tem as quotas em dia por ser tão Amigo da autarquia.
Só não emigrou ainda por tão eterno ser isto:
o casalinho de poço e laranjeira cagada pelas galinhas.

Nunca nos passou pelos cornos nada que não fosse cornos.
Que os pretos a sul dos nossos pés merecessem um Faulkner,
que nunca aliás tivemos a não ser no formato
do gajo também bêbado mas não literato
e sim de bigode branco e mulher com problemas na mona.

O que é nacional est con.
Todos bem no(s) sabemos.
Nada importa que nos atravessem cidades rápidas,
nem caixeirinhas de Pátio das Cantigas,
nem segredos-de-fátima-com-prognósticos-de-fim-de-jogo.

E no entanto
há ainda qualquer coisa
na nossa organização social
que me faz bem,
desconheço o exacto porquê.

Certa leda tristeza do jovem Camões,
antecipando o ocaso dos rios e das violetas,
na perpétua terça-feira da História Pátria.
Ou incerta certeza de Pessanha opiando o amor
por Ana, senhora que lhe ficou.

Sim, do pouco que sei, sei isto: temos
qualquer coisa. Pode ser que sejam as andorinhas
de barro aos alpendres pregadas como cristos
da primavera. São elas, sim. Elas e as réstias
de cebolas crucificadas sobre o vinho,

em adegas frias de roxa escuma, tais bibliotecas
de antigos emigrados que voltaram para
morrer devagar pensando na flor da amendoeira,
na carnação fértil da netinha e na serventia
conquistada ao canalha do vizinho.

E Rosa Ramalho e José Malhoa. Velozes são
as minhas sombras a duro preito tomadas
à mourama da mediocrização americana.
Eu agora sei coisas: as não passeio já por
augustas ruas áureas de lisboas nenhumas:

que para casa as trouxe, na montanha terminal.
Não mais público será o meu tempo, antes privado
caracol de corninhos-ao-sol-da-lua. As palavras
aí estão: cursoras, químicas, desdobráveis, incansáveis.
Amar a tristeza é uma cidade: a mais lenta cidade.

*****

II – Terceto Bordado a Bosques
– e dedicatório –


Bosques de bordadura de lago horizontem não tão longe
o ocaso merecido de nossas vidas: a tua e a minha,
que tua foi – ou para ti, no fim.

*****

III – Meninainda


A menina não é deste mundo.
Se calhar, a menina é doente.
Atenção presta ao de que, segundo
meu tio doutor, é urgente

distraí-la – mas puni-la, não.
Ainda não. Ou não ainda:
qu’inda é menina – e linda.

*****

IV – Outro Terceto
– com alheia mãe –


Há um rapaz na minha terra que é a cara da mãe.
Não é parecido com a mãe: é a mãe outra vez.
Assim fez ela, não poesia escrevendo, para ficar.



Caramulo, entardenoitecer de 13 de Outubro de 2007

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