Thursday, October 04, 2007

ALternativo Outubro

A chuva voltou hoje, a gata ficou por casa.
(Agostinha à janela vendo chover, 3.X.2007)



Dia 1. OUTONAL

Já flavas madeixas cabeleiram as árvores,
outubra-se o tempo à tarde outonal.
P’lo caderno do chão, as folhas, escritas,
são pepitas de oiro, de oiro pessoal.

Nevoam as horas nuvens voadoras,
tiritam insectos do findo Verão.
Levitam os bois, gazes sonhadoras,
seus olhos tão fundos, tão de compaixão.

Mais pobres os homens, os poucos da terra,
que, tais oiros vendo (oiros de leitura),
no escrito não lêem a vilegiatura
do oiro da vida que à morte encerra.



Dia 2. FLUVIAL

Não poderá o rio tanto correr quanto de ti gosto,
pois que ele em o mar acaba e eu em ti começo.



Dia 3. PLUVIAL – I

Da chuva o rio vem quando chove,
mas eu de ti sempre: chova, faça sol.



Dia 4. FACIAL

Nas caras dos animais surpreendo impressionismos:
são rostos expressos de pessoas minhas.
(De alheias também, que os mimetismos
camaleonizam corpinhos, alminhas.)

Uma tal avó minha, tal qual uma tília,
folheia-se ainda ao vento vadio.
E o meu Pai passa sem margens: um rio
que molha os olhos a toda a família.



Dia 5. MELHORAL

O meu amor é feito de comprar o pão de não
comprar o pão de alcalinos impérios sem sal
de exsudações delicadas de frios suores.
Todo o amor já viveu seus dias melhores.

O meu amor é feito de lapsos sinápticos
e até o confesso de amores telepáticos
que negam ter sido querem ser ainda
o lugar do amor que eu tenho feito.



Dia 6. CARNAVAL

Saio à rua, entra-me a rua
de onde saiu nunca, mesmo
em casa: esta
vigência dos candeeiros públicos
em meu lírico
privado
prostíbulo.

Saio a ser visto pelas almas-áleas do parque
(é mesmo em frente a minha casa, tudo)
e sei que, cedo ou tarde, vou dar que
falar à noite, esse tristonho entrudo.



Dia 7. GLACIAL

Era para ter sido antes,
nunca mais é agora.



Dia 8. ESCRITURAL

Faz de conto.



Dia 9. ARTESANAL

Recordo a tua boca artesanal,
que nem ouvi nem trabalhei.



Dia 10. QUAL

Vi-o passar na rua, tinha já chovido,
um cão de cada lado.

Eu tenho uma gata.



Dia 11. ARSENAL

E no entanto ninguém fechou nunca porta
jamais aberta. As esmolas são poucas, a missa
é noutra paróquia.

Recordo uma finalwembley
Arsenal, 3 x Manchester United, 2.
Eu era muito novo, mas sobrevivi até
à decisão nos últimos minutos
do tempo regulamentar.

Já era a preto-e-branco,
na altura.

No fim do jogo, indicaram-me
a porta:

era em casa.



Dia 12. ORAL

Há já muitos anos que te digo as mesmas coisas.
Não é falta de imaginação, digo, é
a importância recorrente do dizível,
do não-dito no dito que te digo e repito.

Era há muito tempo já antes de serem já
muitos anos, o que te digo.
Baseia-se, é certo, em coisas que te ouvi
dizer. Mas, como não dizes já, repito-as eu,
ainda, para já,
Pai.


Dia 13. SAL – I

O meu corpo não esquece coisas
que depois não lembro mas escrevo.
São salinas apogiaturas na partitura imensa,
como estar na praia e reconhecer,
sem lhe saber o nome próprio,
o homem dos gelados da Figueira da Foz,
1970 e páginas seguintes.



Dia 14. LINGUAL

Homens, meus agora, recolheram, ermos, a casas
sem luz nem gás nem água nem internet.
Era no século XVIII.
Eles eram a língua portuguesa.
São hoje, mas pouco, e cada vez menos,
obstáculos:
ao hipismo analfabeto dos meninos burros
que o Estado Novo e o Teenostado Pós-25
nos deram.



Dia 15. LEXICAL

Síntese mais que perfeita de terra e mar,
és, ar, da água dos olhos feito e
do pó da carne coberto.
Anulador do longe e do perto,
respiras-nos tu a nós, não o contrário.

E porque a todas as palavras levas e trazes,
és, ar, o pai e a mãe do vocabulário.



Dia 16. AREAL – I

Recebi esta manhã, do meu amigo Fernando Jorge,
duas séries de fotografias da Figueira da Foz
de há trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco
anos.
Muitos anos – muitos passados.
De novo fui o rapazinho espantado
pela doçura do sal, a areia quente
entre os dedos dos pés, os olhos
azulados pelo mar invencível.

Não, o meu corpo não esquece coisas.
Os pescadores e as peixeiras suas mulheres
e o peixe: pão de prata
que os barcos humilimamente semeavam
e colhiam.
O farol vermelho banhado ainda,
ainda atlântico.
O Grande Hotel e sua piscina pranchada a
três, cinco, dez metros.
Os carros antigos então novos em folha.
As mulheres senhoras, os homens cavalheiros,
as crianças crianças.
A Torre do Relógio futurando pretéritos galantes.
A tenda mágica e pobre do
circo pobre e mágico.
As escadas para o areal
descendo até aqui acima
– à minha montanha,
onde, à Lua,
celebro o Sol
fotografado
da Figueira da Foz,
a areia entre os dedos dos pés,
o meu Pai vivo,
a maré alta
do meu coração,
pão,
ele também,
de prata.



Dia 17. PLUVIAL – II

A chuva voltou hoje, a gata ficou por casa.
Trabalhei todo o dia em sintaxes ponderosas.
Não vi nem senti pássaro algum, uma só mosca
foi quanto tive de direito a linhas aéreas.

Fui mijar ao pátio, não consigo
resistir ao apelo ureico da chuva.
Mijei a direito e grossamente,
a pontita do jacto algo perturbada pelo vento.

Eu também voltei hoje
ao onde de que nunca saí:
a ti, sim, amor, a ti.



Dia 18. LITERAL

Dou por mim na pobreza remediada das horas
absolutamente encantado nesta precisa banda:
a de ser alguém aquém da própria margem mesma
da língua portuguesa de Camões e de Sá de Miranda.



Dia 19. LATERAL

Uma das pedras do corpo do pontão marítimo
era o meu corpo cor-de-gabardine-pedra nesse inverno
trágico e maravilhoso de 1986.
Chegava de lado o grande vento, que a corpo
e pedras pedia a esmola de um verso.

Aqui lho dou, em 2007.



Dia 20. LITORAL

Venham
de onde vierem

a vida
e
a irmã dela.

A esta praia
chegarão

seja inverno
seja verão.



Dia 21. BAPTISMAL

Havia chá sempre e sempre bolinhos de canela
na reservada privacidade da velha senhora
que eu frequentei sendo ela por ela,
ao 18 terceiro, Rua Corregedora.

Almeida Garrett, Camilo e anis,
convivas iguais do salão literato,
maila avoenga bulha de Eça e Assis
machadando, alegre, o gentil trato.

Eu era Basílio, ela flaubertava
bovarynismos de truta madura.
E nunca a papei, pois quem a papava

era um cavalheiro de grenha mais dura
que tinha interesses, a cabral sacadura,
na revolução que se avizinhava.

Eu hoje sou pobre, ’inda leio papel.
Meu nome, qual Basílio, é só Daniel.



Dia 22. SAL – II

Uma ideia de Cristo molha por vezes o pão do corpo
em o sangue evanescido da pobreza.
Não aumenta pão, nem peixe, nem sopro.
Aumenta, cristã, o sal da tristeza.



Dia 23. PATERNAL

A nada disto quero deixar mas de tudo isto
deixar quero alguma coisa do tempo
que me não deixa.

As antigas senhoras que por ser menino não
cobicei, elas às janelas antigas mais do que elas.

Os antigos cavalheiros chapelando cortesias
em rossios ajuntadores de ócios e negócios.

Os magros cães pianolando fomes e carinhos
de maternais olhos e carraças gordas
como ervilhas.

Tudo isto
e
as minhas filhas.



Dia 24. MEMORIAL

Não tenho feito outra coisa.



Dia 25. PORTUGAL

O meu País chove sozinho a desoras certas
dou com ele a chorar esconso a um canto
parece um menino adulto de mental infantil idade
coleccionando bonecos de reis e regicidas.


A minha Terra vive de gente muito estúpida
entre a que me não furto semelhança
santorros de caruncho votivam prebendas
hagiocracias avoengam gerações e gerações.

Isto nosso não é Nação será outra coisa
não mais por isso é porém amada menos
a não Nação tão de si mesma interregna
tão por si própria adiada de si mesma.

Há muitos anos parece ontem em nosso Quintal-Kibir
não há muitos ontens se foi a espadeirar o garotelho
sebastianista umbilical malparido e fedelho
se amanhã voltar ’inda lhe calhe a puta-que-o-parir.

Da nossa Turma os idiotas oftalmológicos
gerem todos hoje bancos repartições
meia dúzia não mais de sujeitos astrais
arrastam pel’ amargura suas poéticas vielas.

Está bem assim a nossa Tasquinha festivaleira
às amendoeiras-em-flor vai-se morrer de ponte
a Fátima vai genuflectir todo o pernaltautarca
a morte é um rio há sempre lugar na barca.

Hoje mesmo em minha Casa
li de um pobre tolo os modos conjuntivos
poetazito de 25-linhas-papel-selado
do próprio umbigo o cotão mesmo adorando.

(Mas Portugal é ainda às vezes um homem bom
uma mulher forte uma rapariga descalça
um papagaio de papel-de-seda um pão fresco:

uma Pátria:

a pátria de quem
aqui havendo nascido
forçoso é que todos os dias renasça
quando
a horas incertas
conhece o Sol
pela primeira vez
o sol que só (em) Portugal.)



Dia 26. AREAL – II

Conto inumeravelmente os meus dias palavra a palavra
uma só noite soma a si mesma todas as noites
sem passado e sem futuro é como a Lua o coração
de um homem ajuntador na inumeração.
Está tudo bem assim assim mesmo deve ser
faço pela vida o mesmo faz ela por mim
à areia da memória vem bater o mar lembrado
quem foi menino pode ser que retorne uma vez
que palavra a palavra dê conto da inumerável conta.



Dia 27. MINERAL

O coração
esse granito de igreja
sem fé.



Dia 28. CAL

Todos
mais tarde ou cedo de mais
cegamos.

Só então
habitamos.

Uma faixa azul
aos pés
uma boca vermelha
na cara.



Dia 29. MUNICIPAL

Creio poderosamente na eternidade das ruas
não nas que dependem da vereação
nas outras as que trilham sulcos veredas
azinhagas becos vielas artérias travessas.
Recebo poderosamente as almas passadas
través tais ruas não controláveis pela autarquia.
A si mesmas redesenhavam conforme noite ou dia.
A mim me redesenham conforme a noite conforme o dia.



Dia 30. MUSICAL

Eu quero que o jazz das festas nos perdoe

tanta tristeza malbaratada
tanta mesa enodoada
tanta certeza incertificada
tanta pobreza disfarçada
tanta defesa atacada
tanta framboesa amorangada
tanta incerteza certificada.

Eu quero que o jazz nos festeje

a passagem breve a noite eterna
o serão todo algum dinheiro no bolso
uma cigarrilha uma companhia
um táxi honesto um pequeno-almoço litoral
um atémanhã que não doa de mais.

Podemos entrar
conheço o dono.

1-2-1-2-3.



Dia 31. FINAL

Já cavas e deixas as madeixas flavas,
novembra-se o tempo à noite invernal.
Lapisárvores riscam as rimas escravas
em metro de lama, lama pessoal.

Revoam, desoras, lunassombrações
t’imitam, se choras, um alguém passado.
Dermodiamantes do céu em cobrões
safiram o peito fundo, magoado.

Mais pobres os homens, os poucos da terra,
que, tais pratas sendo (pratas de escritura),
no lido não vêem a mesma loucura
da prata da morte que à vida encerra.





Caramulo, tarde de 1 (poemas 1 a 14),

de 2 (15 a 24)

e 3 Outubro de 2007 (25 a 31).

5 comments:

Manuel da Mata said...

Dona Agostinha uma namorada para Dom Pepe.
Lembraste do reverendo Bonifácio da família Maia?

Abraço,
Manuel

Daniel Abrunheiro said...

Ah sim, o saudoso Bonifácio do Eça: o gatarrão de D. Afonso da Maia que ficava, frente à lareira, a "torrar"... Divino Eça!

LM,paris said...

Gata Agostinha és " trop "...mignonne, aqui quand gostamos muito de qualquer coisa com ternura...ah, t'es trop!
Gata és gira e concentrada na chuva, t'é trop quoi.
Daniel, vou ter que ler outra vez , quero guradar tudo devagarinho, nao esquecer anda e ler depressa pra ver, ver com o gata Agostinha.
Como sou um bocadinho budista, queria voltar se fosse possivel, possO??? ...falava com os là de cima, posso voltar , reencarnada numa gata borralheira?
Ficava a torrar à lareira, a olhar o fogo, a remendar meias com nomes de avesso.
Beijos, e jà venho, li là umas coisas daniel, sabe? Daquelas que me poem em estado de choque , apetece-me depois fazer mil-mails pra que todos vejam os seus sentir.
LM' a gata porralheira...)

LM,paris said...

sou tao trapalhona nao dà pra entender!
descodam tà?
bonne nuit, hoje estou massacrada!
isto em paris tà tao falso, tao conceptual, tao, gélido, tao presunçoso, taotao...jeuniste,
tao urbano...nao hà pachorra,
prontos!
jà li o ultimo poema d'hoje daniel, 5 de outubro,é um espanto.
ainda bem que posso cà vir e
pôr-me nos eixos.
beijos LM
Posso dizer uma coisa?
façam: remue.com, poésie-on-line, leiam:Ramhya,ou Ramhy... OK?

Anonymous said...

Perdoem-me mas "gata porralheira" é muito bom mesmo...