Friday, October 12, 2007

Fala o Cebola - n'O Ribatejo

A partir de hoje, n' O Ribatejo em papel e online (http://www.oribatejo.pt/), mais uma crónica da série Rosário Breve.
Fala o Cebola

Sou o Cebola.
Vi as notícias da manhã. Uma agarrou-me. Era um directo da Aula Magna, em Lisboa. Dez palhaços unidos davam um espectáculo a centenas de crianças. Objectivo dos artistas: revitalizar a profissão. Embasbaquei.
Pensava eu que se alguma profissão não está em risco em Portugal, essa é a de palhaço. A aptidão histriónica é tão nossa, que nunca considerei, nem ao de leve, que o palhaço português enrolasse no cadastro das espécies em via de extinção. Nunca. Até agora.
Eu sei: até os Croquetes & Batatinhas sofrem da divisão que sustenta os ricos de um lado com os pobres do outro. Mesmo assim, sempre houve função para todos, governo atrás de governo.
Que anedota histórica nos daria J.H. Saraiva para, ao colo patrocinador de uma qualquer marca de plásticos, nos explicar isto da crise dos palhaços? Com que filme clownesco nos paralisaria Manoel de O.? Que lágrimas pontuais nos desfecharia a Fátima L.? Que corneta de plástico sopraria a dupla Teresa G./ML Goucha? Que piadão de barraca de bifanas inspiraria ao par Guilherme Leite/L. Aleluia? Não sei.
Sou o Cebola, filho do Repolho e da Repolha. O meu Pai repolhou mais de 50 anos no circo das fábricas alimentando leões. Morreu aos 77 com uma reforma de 27 contos paga em suaves cuspidelas mensais. A minha mãe ainda é viva e repolha ainda como pode, embora os donos do circo duvidem dela, a julgar pelas baldadas de perlimpimpins a que a sujeitam, das consultas médicas adiadas às provas respiratórias de cada Março, como se ela fosse a Vanessa Fernandes uma vez por ano.
Sou o Cebola: choro, não rio. O nariz vermelho é disso, não só do tinto. Perdi há muito a trotineta do futuro, tenho o relógio grande parado no pulso e os meus sapatos barbatanam há matinées de mais no perpétuo domingo dos centros de desemprego. Mas já sei dizer disparates em ucraniano, pedir esmola em bielorrusso e fazer chinesices de loja de 300, o que sempre me pode aproximar de outras palhaçadas que não apenas esta de sobreviver entre equilibristas de tostão e palhaços de milhão.

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