Wednesday, October 03, 2007

Montanha Mágica nº 21 - Guião

© Robert Disraeli



Logo, às zero horas (repete sexta para sábado, à mesma hora), é ocasião de Montanha Mágica (MM).
Sintonia em 91.2 FM ou, pela net, em http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/
Esta edição nº 21 convida as vozes poéticas de
Camilo Pessanha (Quem Poluiu, quem Rasgou os meus Lençóis de Linho),
João Camilo (Nada Quer Dizer Nada)
e
Carlos Queiroz (Ode Pagã).

Os textos próprios são Fotografia, Sófocles na Aldeia (Baseado em Factos Reais), Clandestinidade e Exílio, Um Fim de Tarde do Século XXI (6 de 10 Fragmentos para a História da Civilização Ocidental) e Tic Tic Tic Tic.

Segue-se o guião.

MONTANHA MÁGICA Nº 21 - Guião

1

Boa noite. A partir daqui, é tudo MM. Tudo a subir. Tudo magia.

0001 Nenna Venetsanou / Angelica Yonatos

2

Bonsoir, les ami(e)s qui nous écoutent en France. Merci, Lídia Martinez pour l’amitié, merci pour toute la musique. Soyez les bienvenu(e)s.

0002 Claude Nougaro – Dansez sur Moi

3

Perdi uma série de fotografias obtidas num domingo agora duas vezes pretérito. Na impossibilidade de reavê-las, resta-me tentar, hoje e aqui, revelá-las pela palavra.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.

0003 Paul Simon – Born in Puerto Rico

4

Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.

0004 Jorge Palma – Minha Senhora da Solidão

5

Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e pedras de carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.

0005 Massive Attack – Blue Lines 1

6

Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.

0006 Tereza Stratos – Youkali (Tango)

7

O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.

0007 Sam Cooke – I’ll Come Running Back to You
8

Momento ideal, na subida à MM de hoje, para descansarmos um pouco sentados nesta fraga enquanto a Sandra Bernardo dá voz à primeira poesia convidada de hoje. É de um dos maiores poetas da língua portuguesa o que vamos ouvir - Camilo Pessanha.

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

0008 Ronda dos Quatro Caminhos (com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba) – Limoeiro

JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM

9

Mais ou menos a um terço da subida à MM de hoje, vieram subindo connosco o grande poeta português Camilo Pessanha, ele e a música de Nenna Venetsanou com Angelica Yonatos, Paul Simon, Jorge Palma, Massive Attack, Tereza Stratos, Sam Cooke e a Ronda dos Quatro Caminhos (com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba). Sigamos lá bem para cima, até ao topo mais tópico da MM. Agora, na companhia de Jewel.

0009 Jewel – Don’t Talk

10

É um volume com sete tragédias de Sófocles.
Ájax é a primeira. Na eira que cimenta em torno a casa, o cão vizinho, prisioneiro de não sei que culpa, arrasta a corrente grossa contra o tacho de folha. Estou na sala. A gata flutua como um pano pela casa. A rádio alinha Duran Duran. O tempo é uma redoma. Sou a flor seca na redoma.

0010 Duran Duran – The Ghost of You

11

Arranjei alguma lenha, mas é insensato pô-la a arder com este calor. Nem a noite alivia a pele. O recurso é cerrar as persianas, molhar de sombra as paredes interiores, lavar com água fria o prato sujo de ovo (com água quente, o prato fica a cheirar a aviário).
A camomila infundiu-se na caneca de barro preto. Venho à rua, facto que a gata aproveita para tomar de assalto a vinha estiolada. Já cortaram os cachos, deixaram o ouro das folhas, o cacau endurecido das vides, a condição outonal da minha vida. Da vida de toda a gente. Sófocles, paciente de dois milénios e meio, espera na mesa da cozinha.

0011 Giovanna Marini – Célébration

12

Estas jornadas de chuva fervente que Outubro nos traz: gosto delas.Subo pela chuva à nuvem onde a minha infância está guardada.Quando chove muito, estou de volta às tardes perpétuas de quando tinha nove anos, quando o mundo era uma casa arrumada. Arrumada e limpa.Na cidade onde há quinze anos acumulo outubros, falta a luz quando chove.Até disso gosto, valha-me Deus.A cidade torna-se fantasmática: água que cai na escuridão, isqueiros que brilham como pirilampos náufragos, exclamações que detonam como cartuchos.É outra dimensão, outro postal para as estrelas congeladas, clandestinidade e exílio.

0012 Lou Reed – September Song

13

Falta a luz, e só me dá para jogar às escondidas com um regozijo que os anos me roubaram.E convosco, como é convosco? A chuva faz-vos bem? Sentis, ou não, que o mundo se torna outro?Eu sinto. Por exemplo, vede este cão amarelo. Está aqui, tem as mãos no meu joelho, quer uma festa na cabeça e um passeio pelo monte.Sim, o monte: a cidade desapareceu, tenho nove anos e um cão amarelo, passeamos à chuva como fantasmas futuros e benignos, oliveiras e vinhas sucedem-se como se fôssemos de comboio no túnel sideral do Tempo, não posso perder de novo este filme, está tudo bem, está tudo tão bem, tudo tão limpo e arrumado, não tarda é noite e pode ser que chova.

0013 The Jazz Passengers c/ Deborah Harry – Il n’y a plus d’Après

14

Sou desde menino um homem do entardecer: um ser outonal.Não tenho culpa. Também gosto de ver, mas de fora, as grandes alegrias dos outros, os estrepitosos carrosséis, a invejável Feira Popular da Existência Alheia. Aprecio e passo. Digo boas-tardes e desando.

0014 Filarmónica Verdi Cambrense – Romântica Polca

15

Agora, é tempo de descansarmos um pouco mais – até porque já vamos a bom meio da subida à MM de hoje. Momento ideal para ouvirmos a voz da Sandra Bernardo dando corpo e alma e tudo a um poema convidado mais – Nada Quer Dizer Nada, de João Camilo.

Nada quer dizer nada

Abri uma carta antiga e reli-a.
Tinham perdido sentido as palavras
e as frases. Em que língua
me tinham falado? E eu entendera,
mas agora fora-se o entendimento.
Quem, se eu lesse em voz alta os sons
incompreensíveis, se voltaria para mim
e atentamente teria a paciência
de me elucidar? Reconquistaria desse modo
muitas das coisas que um dia possuíra
e depois perdera. Em que língua
exprimira a confusão e o caos
que me habitavam? Ou, mais
rigorosamente: com que língua
tentara vencer a insignificância
do mundo e da minha existência?
Nada quer dizer nada, as palavras
pesam como pedras, escondem-se nelas
o sentido e a paixão. Mas quem
pode ainda suportar a recordação
do tempo em que falar era uma parte
importante da existência, o indício
de que pertencíamos e nos reconheciam?
O meu corpo tomava consciência dos seus limites
e do que o distinguia das paredes, da mesa
e dos livros que me cercavam. O sono
começou a descer sobre mim, diminuiu
a minha capacidade de suportar a luz.
Confundia-me, enfim, com as quentes
trevas da noite? Quis manter
os olhos abertos e eles iam-se fechando.
Entendi então que uma vez mais chegara a hora
de renunciar. Na rua ouvi o jornal cair,
lançado de um carro para a porta de casa.
Levantei-me e fui buscá-lo. Podia
enfim terminar o dia, adiar a tentativa
de redução ao silêncio da minha vida.
Que ninguém dê pela minha presença,
que me esqueçam aqueles que um dia
prometi amar. Para que eu possa,
sem remorso, continuar a viver.

0015 Jacques Brel – Voir un Ami Pleurer

JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM

16

Já duas terças partes do caminho a subir cumprimos. A poesia de João Camilo teve por bem fazer-nos companhia, assim como as vozes e a música de Duran Duran, Giovanna Marini, Lou Reed, The Jazz Passengers com Deborah Harry, Filarmónica Verdi em ritmo de romântica polca e, ainda, o grande Jacques Brel. Sigamos para o cimo mais cimeiro da MM, agora com Everything But The Girl.

0016 Everything But The Girl – Politics Aside

17

Desando até que aqui chego, a este formoso café triste.É numa aldeia. A montra dá para o largo da igreja. Depois de tolerados dias intoleráveis, o Verão cedeu tréguas. Embaciou-se como uma limpeza de óculos. Até choveu. O largo está em obras, mas não a esta hora, quase jantar. Uma mastaba de areia, três pilhas de pedras, um passador de areia, um barraco de ferramentas isolado a aloquete: obra sem operários, por hoje. É tudo sempre tão hoje. Gosto da paisagem que vos mostrei.
0017 Michael Bublé – Smile

18

Na TV, uma série norte-americana, pois pudera.Um assassinado, cinco assassinos e uma data de polícias. O mundo à americana. Sacudo uma mosca portuguesa. Sacudida, ela voa molemente para outra mesa, onde vai afiando as unhas de pêlo enquanto o próximo escritor outonal não chega.

0018 Chico Buarque de Holanda – Realejo

19

E se alguém me perguntasse se amo a vida, diria que sim.Sim, claro, como não?

0019 Astor Piazzolla – Contrabajísimo

20

No mais, é esta demora escrutinadora.A consciência muito acesa: a cabeça como uma lâmpada. A chuva de meia tarde foi uma bênção. Os incendiários do meu País devem andar macambúzios. Os bombeiros vão poder esta noite cear, copular e dormir com suas esposas desveladas.

0020 Joan Manuel Serrat – Els Vells Amants

21

A TV muda para uma série de médicos.No café, um homem de meia calva e barba completa afixa na montra uma notícia necrológica. Dando para a rua, vejo o reverso à transparência: era uma vez uma senhora. Se a senhora fosse de ficção, teria talvez sido salva pelos doutores do “Serviço de Urgência” da TV por cabo. Mas a notícia na montra é tão real como a montra.

0021 Charlie Parler – Take Five

JINGLE BREVE MM JINGLE BREVE MM JINGLE BREVE MM

22

Estamos quase a chegar ao topo mais tópico da MM de hoje. Mas ele há ainda tempo para descansar um pouco, enquanto a Sandra Bernardo nos faz escutar um poema de alguém que foi sobrinho de uma senhora chamada Ophelia – a única namorada de Fernando Pessoa. O sobrinho dessa senhora também foi poeta – e poeta de fino recorte. Chamava-se Carlos Queiroz e é dele esta Ode Pagã.

Ode Pagã

Viver! - O corpo nu, a saltar, a correr
Numa praia deserta, ou rolando na areia,
Rolando, até ao mar... (que importa o que a alma
anseia?)
Isto sim, é viver!

O Paraíso é nosso e está na terra. Nós
É que temos o olhar velado de incerteza;
E julgamos ouvir a voz da Natureza
Ouvindo a nossa voz.

Ilusões! O triunfo, o amor, a poesia...
Não merecem, sequer, um dia à beira-mar
Vivido plenamente, - a sorver, a beijar
O vento e a maresia.

Viver é estar assim, a fronte ao céu erguida,
Os membros livres, as narinas dilatadas;
Com toda a Natureza, em espírito, as mãos dadas
- O resto não é vida.

Que venha, pois, a brisa e me trespasse a pele,
Para melhor poder compreendê-Ia e amá-Ia!
Que a voz do mar me chame e ouvindo a sua fala,
Eu vá e seja dele!

Que o Sol penetre bem na minha carne e a deixe
Queimada para sempre! As ondas, uma a uma,
Rebentem no meu corpo e eu fique, ébrio de espuma,
Contente como um peixe!
0022 Luísa Basto - Vai Ver se Chove

23

O amor é cego.
A memória é o cão do cego.
0023 Tom Waits - Waltzing Matilda

24

Estamos mesmo mesmo a chegar ao cimo mais cimeiro da MM de hoje. Vamos chegando com a companhia preciosa do poeta Carlos Queiroz e da música de Michael Bublé, Chico Buarque de Holanda, Astor Piazzolla, Joan Manuel Serrat, Charlie Parker, Luísa Basto e Tom Waits. Agora, a vez e a voz dos Jethro Tull na sua famosa Bourée a partir de Johann Sebastian Bach.

0024 Jethro Tull – Bourée

25

E pronto. Chegámos. O trocadilho justifica-se: foi uma subida honra ter subido com a sua companhia e com a arte de tantos e tão bons poetas, músicos e cantores. Agora, que é sempre a descer, todo o cuidado é pouco – mas que a magia continue a ser muita. Desçamos na companhia de Uxia cantando Camões à maneira de José Afonso. Até breve. Obrigado. Bom dia!

0025 Uxia – Verdes São os Campos

………………

Montanha Mágica: 91.2 FM / http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/
00h00 – 02h00 (4ª, 3 de Outubro de 2007, para 5ª e 6ª para sábado).

4 comments:

Manuel da Mata said...

Da multidão que passa pela MM nº 21, destaco João Camilo e Carlos Queiroz.
Que é feito do poeta e professor João Camilo? Como é possível perder-se o rasto de pessoas de qualidade?
Carlos Queiroz (sobrinho da nossa Ofélia)é um poeta de muita sensibilidade, que apenas os iniciados nestas andanças conhecem. E é pena.
A MM aviva-nos a memória. É um serviço que trata da nossa sanidade mental. Longa vida à MM.

Daniel Abrunheiro said...

Entre realização e produção, levo, em média, seis horas a dar uma Montanha de duas horas como pronta. Mas um único Manel vale toda a porfia. Obrigado, Amigo.

LM,paris said...

Olà amigos, daniel là vou eu tentar ouvir la radio ce soir!!!
Lindos os poemas, nao conhecia nenhum, e os seus paragrafos, com a historia do cao amarelo!
Merci, merci pour les chanteurs, chanteuses,aussi.
La plus jeune Jewel, j'adore celui que vous avez choisi...é muito lindo, ainda bem assim vao todos ouvir. Tanto trabalho, nao é?
Bom programa, boa subida, nao cansa.
Beijinhos
lidia.

RC said...

..ta que pariu esta montanha que pare tanto. E que nunca páre. Rato.