Saturday, June 09, 2012

Ligação à Medusa - 65 (integral)


65. PINHAS

Leiria, sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Tinha 29 anos, era um homem, deixou que a vara com que varejava pinhas se lhe escapasse até tocar em um cabo de média-tensão. Electrocutado mortalmente, entrou para a necrocrónica de MELIDES (Grândola).

Simone Costa, 40 anos, com bebé de três meses ao colo. Dois capuzomens assaltam-na quando ao serviço no café da mãe (dela, avó da criança). Ainda levaram 200 euros, os meliantes, mas, de estúpidos como testos de alumínio, fugiram sem o carro. Quando voltaram a buscá-lo, foram reconhecidos e presos. Ainda hoje se fala disto lá por ANTA DE AGUALVA (Sintra).

Um super pequenito do POMAR DA REBOLEIRA (Amadora) foi sitiado por dois bípedes armados de faca e caçadeira de canos serrados, que amealharam € 250 de pecúlio alheio.

(Sim, isto são poemas também.)

MOSTEIROS (Arronches, Portalegre) ficou de caixas-de-esmolas profanadas, de sacrário aberto e com hóstias espalho-vilipendiadas pelo chão do templo, isto na mesma tarde em que, em

MONTARELOS (Portalegre também), alguém espancou e roubou um casal de idosos, mas a

Sé de MIRANDA DO DOURO não se ficou a rir, arrombada que lhe foi uma janela com malévolos desígnios, os quais perpetraram caridade nenhuma às caixas esmoleres da região.

Na alongada e lisbonense RUA MORAIS SOARES (que da Praça do Chile sobe ao Cemitério do Alto de S. João e, dizem, à Curraleira também), um atravessado-sexual que brandia ameaças faquistas a instantes e transeuntes acabou detido, só que, já na esquadra, quando no WC, meteu os 700 euros no cu e (a)cu(sou) os agentes de polícia de lhos terem gamado. Os raios-X desembustaram o rectal ardil.

A PJ não suspeita de crime

(Sim, isto também são poemas)

no caso do homem de 67 anos encontrado morto com/por tiro na cabeça, isto na aldeia de CUBOS (Mangualde).

Prendia um toldo em telhado o operário da construção civil Carlos Azevedo, de 48 anos. Morreu da queda. Em LOUREDO (Paredes).

Encontrada a burra Rosinha, de 17 anos, que, com outros dois animais (um burro e uma égua), fora roubada do CANIL DE SÃO FRANCISCO (Loulé).

Pensão-Residencial sita ao LARGO DE D. ESTEFÂNIA (Lisboa) assaltada em pleno dia. Proprietária agredida na cabeça. Talvez por vingança ou ajuste de contas, servindo o aparato de assalto para disfarçar o verdadeiro intento. Ali perto, nasceu há muito anos Luiz Pacheco.

Os rios CENTEIO e ALVIELA banham a vila de PERNES (Santarém).

BISMULA e RUIVOSO (Sabugal) receberam ladrões de 2100 metros de cabo de cobre. Aldeias ficaram (ainda mais) isoladas.

A IMACULADA NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DE VILA VIÇOSA é Padroeira de Portugal desde 25 de Março de 1646 (reinado de D. João IV). Tem tal título confirmado desde 25 de Março de 1936 (Pio XI). A celebração litúrgica remonta ao século VII.

*

(Nomes para a Berlim dos anos 20/XX: George Grosz, Anita Berber, Claire Waldoff.)

*

(Enquanto escrevo, a medida da hora torna-se plástica, permitindo a consumação festiva da resignação à força visceral do mundo. As notas que tomei, tomei-as à conta de subsídios por assim dizer geológicos do tempo social. Mas também como versos simples, puros e duros e futuros. Acções e sítios, topos e tópicos: tudo em um Portugal que acontece em câmara-lenta, dissipados os fulminantes e os sustos pânicos dos assaltos, dos ciúmes, dos capuzomens, dos ourives, dos pobres-de-deus deste paìzito sem vontade de memória, desta naçãozeca do cozido, do bandolim e do esterco telúrico maquilhado a verniz-de-unhas. Tudo versos, enfim:)

Na LAPA (Cartaxo) / iracundo sargento /
mesmo reformado / atira a matar.
Fernando Gaspar / em um mau momento /
quis desluisar Luísa / a ex-companheira. /
Luísa Mendão 74 anos / ele 68. /
Amantes há mais de vinte / incluindo coito.

FIAIS DA BEIRA (Oliveira do Hospital).
Gajo deu-se mal, aos 45 anos,
por no corpo levar litrada demasia.
Parado na via, apurado foi portar
coisas de espantar: caçadeira & munições,
mais uma faca e uns bastões.

O Charroco resistiu à autoridade.
O Charroco anda ali por Setúbais e coiso.
Resistiu à autoridade e injuriou-a
e difamou-a e filhadaputou-a.
Levou um tiro no cu que foi um mimo.
(O tiro, não o cu.)
Saiu pelo próprio pé dos calabouços policiais
dois dias depois, não mais.

Custódio Cantanhede é meu nome. Três quartéis de século, a minha idade. Tenho por ali umas terras. Trazia neste bolso que é meu desta roupa que é minha 1730 oiros que meus eram, que os ganhei de vender oito borreguinhos que meus não são já. Dois ferozes capuzomens me bateram e desgovernaram. Se vez próxima houver, caçadeira minha por mim responderá. MONTEMOR-O-NOVO conheço, como a mim reconheço velho. Caçadeira minha, sim. Levarem-me preso não receio. Ela por mim responderá. 75 anos: nada receio já.

*

Confirmação dos humores: palavras e imagens.
Confirmação da luz: vidas e frutos.
Um tempo de mulher, um tempo disto.
Oleiro trabalhando o barro do coração, não morro.

Um rapaz. A lida. A subida. A nitidez.
Os óculos. E raparigas. E uma rapariga. E o jornal.
A insuficiência moral. As grávidas. Os pêssegos.
Páginas antepenúltimas nas cercanias do Mar, um fogo.

*

Na EN 371, perto de ARRONCHES (Portalegre), és (eras)
João Caldeira Vieira, natural de MOSTEIROS
(a de profanadas caixas peditórias eclesiais).
A apanhar azeitonas tuas de tuas terras ias.
A elas, terras e olivas, não chegaste, colhido
que foste em bicicleta e grande aparato
por involuntário camião. Lavaram de ti a via
e a vida. Tudo prossegue, como se nada.
Resistem na rama os negros olhos chorando
azeite.

Em PAREDES, existe uma empresa de transportes urgentes chamada Tartaruga Veloz. Trabalha para ela um condutor natural do Lordelo chamado Nuno Monteiro. Teve azar e teve sorte, o Nuno, porque, depois de ter embatido na traseira de um camião na A62, foi por este arrastado coisa de quatro quilómetros desde Fuentes de Oñoro, Espanha, até perto da fronteira de Vilar Formoso. Os bombeiros de Ciudad Rodrigo levaram uma hora para desencarcerá-lo. Ferimentos graves, sobretudo nas pernas. E estava muito assustado.

Nada mais aconteceu – diz José Morgado, íncola de VALE DE CÃES (Brejos de Azeitão), ante o cartaz que indica o valor da obra como sendo de € 961.372,08 + IVA.
Que obra?
A de infra-estruturação de saneamentos e arruamentos.
Mas o cartaz é de Setembro.
Mas
As obras já começaram – diz a Câmara de Setúbal, apontando o que mexe pela Rua Família Bronze.

*

(Nota-lápis garante-me que o pintainho preto – por ter andado na lama – chamado Calimero apareceu pela vez primeira na TV num anúncio comercial de marca de detergentes no dia 14 de Julho de 1963.)

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Mais sítios onde por nada ou por outro motivo qualquer: OLIVAL BASTO, PONTINHA  e PÓVOA DE SANTO ADRIÃO (Odivelas); FOZ DO SOUSA (Gondomar); CACÉM (Sintra); CANHA e PEGÕES (Montijo); FERREIRAS (Albufeira); VILA CHÃ (Esposende); ENGUIAS (Benavente); AVELAR (Ansião, antigamente Ancião); UNHAIS DA SERRA (Covilhã); LORDOSA (Viseu); SÃO DOMINGOS DE RANA (Cascais); ALHOS VEDROS (Moita); AIRES (Palmela); VIEIRA DE LEIRIA (Marinha Grande); freguesias de S. PEDRO e da CONCEIÇÃO (Peniche); ÉVORAMONTE (Estremoz).

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No café que a Rosa superiormente superintende, dois portugueses chalram sobre a criação ovícola. Excedem bem, ambos, os cinquentas – mas é-me possível descortinar neles os moços rubicundos que foram. Medalhões faciais nutridos a toucinho e a generoso, mãos como básculas – ou talochas – pré-artríticas, roupa de vir-à-Cidade. Dizem oiros em lugar de euros. Depois, um deles alteia (para que derredor se oiça e saiba) que não se importa nada de

largar cêín oiros nelas,

nelas, as putas daquela casa-etc-e-tal ali para os PARCEIROS (Leiria).

*

(Por um mês, morei nos Parceiros. Era pelo início do século – e eu sentia-me pouco menos que perdido. Esses anos passaram, vieram estes.)

*

Ainda vendo muito jogo, mesmo assim.
Alquebradas, é certo, as pernas; trémulas as mãos:
mas ainda me sobra por dobra a cobra do fazer.
Disponho fios de tinta por lâminas de papel.
Vieram-me ao mundo, aqui estou, sou Daniel.

Não receio senão a dor alheia ao corpo.
Receio o ardor desse amor-dor.
Nada posso contra ele nem, quase, contra mim.
Já deixei crescer a barba, mas não me assenta bem.
É a velha infantil questão do menino-de-sua-mãe.

*

Os versos livres podem servir a causa da partilha.
As pessoas que não escrevem mas lêem, percebem.
Elas estão nas vidas delas, afloram esta que lhes versa.
E por momentos aceitam a lantejoula pobre

dos versos livres.

(Podem ser. Pode ser
que aceitem a liberdade
com que me ligo à Medusa.
Pode até ser que lhes dê tusa.)

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