Wednesday, June 20, 2012

Ideário de Coimbra - alguns trechos mais do cap.º 19, na tal sexta-feira, 18 de Junho de 2010


A claridade das primícias da tarde embaciou-se seu tanto. Parece que o vento refrigerou de alguma cinza o ouro largo de há poucas horas. Não vos digo que seja desagradável, porque o não é de facto. É um pouco como se também o período vespertino seja susceptível de melancolia. Sei muito bem – que é impessoal a Natura, mas o vício da Literatura a estas humanações, aliás risíveis, irrisórias aliás, conduz.

Uma laranja fendida que a ganga torna azul: o cu daquela moça ao balcão do casal senhor Manuel / senhora Adelaide. Empinada fruta mamária, parente dos limões mamários: breves e rijos, decerto capazes de sua citrina seiva pré-maternal. Vinte e cinco, vinte e seis anos – não pode ter mais. Rosto e destino de empregada do comércio, 9.º ano mal amanhado, namoro com o mesmo mecânico-auto há sete anos. Mas formoso assento cuja fofura não é pasto estriado, não ainda, da celulite.

(...)

Coimbr’andando, sem grande ciência de fauna, flora, arquitectura, ornitologia: por aqui me eis e tendes. Levo-me embrulhado em um corpo comuníssimo, um metro e setenta e seis centímetros de água, bactérias, carbono, cálcio e olhos. Menos um quilo do que os centímetros excedentes do metro. Sapatilhas baratas, bombazina nas jambas, camiseta algodoada como uma nuvem pronta-a-vestir. Cabelo decepado curto, nariz grande, boca assimétrica, orelhas não ofensivas. Algum acne, ainda. Barba pouco forte. Aparato de cão batido, corredor-por-fora, senhor de meia-dúzia de ossos mal roídos. 

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