Thursday, August 12, 2010

Rosário Breve nº 167 - www.oribatejo.pt (abertura de entrada de 11 de Agosto de 2010 de Ideário de Coimbra, já aviso)

© Roy DeCarava - Romare Bearden (1951)



Cores ardendo dentro



Como homens sós nos campos, os incêndios lavram também.
São ouro vivo, mortífero, os incêndios. Não tem clemência, o Estio, o largo Verão. O mundo estiola, sedentíssimo. Tenho ido ao Lar ver a minha Mãe. Ela está a passar o último Rio, o Derradeiro Rito, o Final Ritmo. Já não sei se me reconhece. Olho-a. As palavras dela são para dentro. É um incêndio quase acabado, a minha Mãe. O Tempo faz dela o que quer. Não posso estancar essa onda que aí vem. Eu e ela na praia, como antigamente, mas agora estamos sós um de cada vez. Vou ter de nascer pela segunda e última vez, quando me telefonarem a dizer assim:

– A Mãe morreu, filho.

Vou ter de fazer isso, enquanto espero o Inverno. Agora tenho muita idade. Agora sou uma porta de madeira de carvalho. Colecciono visões de pássaros, mas não lecciono voos. Muitas coisas (cada vez mais coisas) me comovem: digo: o vaso da flor vermelha que aquela senhora nutre de água e de frases sós; o caixilho amarelo que estabelece a janela; a caixa de sapatos aos pés do contentor do lixo; os incêndios que ardem mães. Tiro e ponho os óculos, canso-me mais, não sei porquê. Em Lisboa, uma vez, pedestrei o meu coração rente ao Tejo. Outra ocasião, chorei à chuva, ninguém topou o que sucedia. Outra ainda, fechei-me num canavial, fiquei ali horas e horas sem precisar de nada, muito menos de viver. Agora, olho o meu telefone e espero.
E no Inverno a flor vermelha e o caixilho amarelo, cores de incêndio.

2 comments:

Manuel da Mata said...

Belo texto, amigo Daniel. É sempre um prazer imenso ler textos teus, mesmo quando a alegria não é possível. Abraço.

Rui said...

"o vaso da flor vermelha que aquela senhora nutre de água e de frases sós". Delícia.