Friday, July 04, 2008

QUADRAS PARA UM 13 DE JUNHO ALTERNATIVO

QUADRAS PARA UM 13 DE JUNHO ALTERNATIVO
muito úteis para virgens remediadas
e utentes dos serviços municipalizados
enquanto não chove



Viseu, tarde de 10 de Junho de 2008
e manhã de 4 de Julho de 2008


À mesa quatro homens de iguais fatos
merendam devagar frases do tempo.
Tristes quatro homens contentemente
exercem sobre o chão líquidas sombras.

Eu olho: é o meu vero ofício.
Consulto fatos, e até factos, que não aconselho.
Às vezes, vejo tudo vermelho.
Imolo meu mesmo sacrifício.

Luzem os bebés como lâmpadas
nos snacks de refeições rapideconómicas.
Comboios passam na televisão
com indianas grudados ao tejadilho, filho.

Olhe o manjerico, o presbítero, meu senhor.
Olhe, senhora, o Santantoninho.
Vinho é paz, vinho é amor.
Amor é vinho, amor é vinho.

Guardo-me em bolor de relicários.
Cristos-rosa-ramalho, tenho vários.
Não possuo dirigível, nada dirijo,
mas ’ind’ei-d’em vid’ ir ao Montijo.

Ele há vidas bonitas como molduras.
Da mais fina madeira elas são cercadas.
É devido às cercaduras que as loucuras
secam a dourado, mui secas, mui douradas.

Dá-me três, quatro minutos, uma pastilha,
um grão de sal, que mais não peço.
Tenho tido atenção ao séc’lo XVIII,
não moro a vida tanto quanto a demoro.

Não no-lo idem, tolos, todos? Não é assim?
Digo-te em versos o manjerico operário.
Igreja de S. Bartolomeu, esquerdoudireita,
Trinta40anosdisto, um pouco mais.

À mesa, quatro homens, quatro versos.
Traz tu, Santantoninho, minha graça,
que eu tenho por demais dias adversos,
sou motorista de carros de praça.

Também sou o que consulta
das ruas a refrigéria hombridade.
Cumpro as minhas sombras: conto-as,
quinto dos homens sem lugar à mesa.

Apita um carro muito amarelo.
Passa um cão manco de dez quilos.
Não aqui passam nem apitam esquilos.
No talho vibra e zune o cutelo.

A terra caiu do céu. Chovendo, sobe o céu
à nossa terra. Santantoninho, Sambartolomeu:
manjericai por nós os descalços, os ao léu,
caídos astronautas do himeneu.

Só a atenção é trágica. Cómica é a poesia
que nos salva da atenção. Com versos é
que um gajo pode salvar-se. Como seria
sem versos? Quatro homens à mesa no café.

Esperam as mulheres, as quatro deles.
Vão esta noite ao Santantoninho festejar.
Põem-se eles nelas e elas neles.
O meu ofício é olhar.

4 comments:

Manuel da Mata said...

Gostei. E também do novo visual.

Há dias escrevi exacto sem "c", num comentário.Eu quero aqui reiterar o meu não ao AO.
Abraço e bom fim-de-semana.

Manuel da Mata said...

Não digas à Sandra que eu sou um daqueles quatro gajos que lêem o teu "blog" e rosnam no canil.

MAS PRONTO said...

Eu também reitero~o Não (ão ão ão ão) à açorda ortográfica.

Daniel Abrunheiro said...

Tá bem, Manel, eu não digo.
Mas à Sofia, digo.