Friday, July 25, 2008

Porizemplo

Crónica nº 62 da série Rosário Breve, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) de hoje, 25 de Julho de 2008

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O senhor Presidente da República pode promulgar quantos acordos ortográficos quiser. Cavaco Silva nunca ligou muito a estas coisas, aliás. Quando ainda primeiro-ministro, não sabia quantos cantos tinha (e tem) a epopeia de Camões. Saberá, hoje, quantos?
Eu não alinho nesta ortografia premiadora da ignorância. Comigo, muitos milhares de portugueses não vão abrasileirar-se por razão alguma. Falar e escrever correctamente são vinculativos da vera nacionalidade. E não, eu não disse “nacionalismo”. Disse “nacionalidade” – é diferente.
A riqueza de uma língua (qualquer língua) está na sua diversidade natural, não na sua artificiosa “unidade” artificial. Sei muito bem que o evoluir de um idioma está sujeito ao mesmo princípio físico do menor esforço. Mas não é por isso que a rapaziada da Costa do Marfim se lembra de ir a França ensinar os franceses a escrever… francês. Nem ao-zamericanos, lerdos como são, passa pela corneta chegarem ao pé de Sua Majestade britânica e tentar convencê-la a escrever, como eles escrevem, “center” em vez do inglês “centre”. Pois não é assim? É.
Atente-se, a título de fundamentado exemplo fonético, nos fenómenos de acrescentamento e nos de supressão de sons na oralidade: prótese, epêntese, paragoge; e aférese, síncope, haplologia e apócope. “Depois” pode ser, na fala, “ódespois”. E “estou” é muitas vezes “tou”. Mas atenção: isto é na oralidade. À norma escrita cumpre a vigilância regulamentar destes atropelos, afinal naturais pelo menor esforço, à ortoépia. Sim, à ortoépia.
Senhores: em português de Portugal, a humidade do adjectivo “húmido” está toda no “h”. Não está no Brasil? Paciência. Eles que escrevam “úmido”.
A Escola primacial (para não dizer “primária” nem “básica”) deveria voltar a ensinar a ler e a escrever (ou seja, a pensar). Já chega de “pedagogias” da irresponsabilidade, de “estratégias” pró-ignorância e de procrastinações da treta: é ver o desnível ortográfico e sintáctico dos estudantes universitários nacionais de hoje em dia.
E, senhor Presidente, “Os Lusíadas” é coisa para 10 cantos. (Escreve-se “dez”, não “dés”. Até porque “dés” é a primeira sílaba de “déspota”, porizemplo.)