Monday, July 21, 2008

Antes que Tudo Arda



Fotografia: © Jan Fabre, Castillo Tivoli

Texto: Viseu, manhã de 21 de Julho de 2008




I

Houve cânticos no palácio na noite.
Vaporosas entre rosas vieram defuntas infantas
reflectir-se sem corpo em os espelhos-de-água
que o jardim amestra do céu.
Transparências de gamos e raposas aguarelaram
a insonoridade: espectros de espectros, sombras
de sombras.

De mármore é o peito dos recordados:
o velho senhor com seus galgos tristes,
o mordomo artrítico tossindo discretíssimo sangue na luva esquerda,
a alvíssima menina ao piano nigérrimo,
o jovem senhor abandonado à hemofilia e à numismática.

Corredores e salas, tudo devastado pelos ventos
privados do palácio onde outrora pernoitou
um rei de cartolina como um duque de paus.

Zéfiras graças levíssimas coloriram fora de portas
transparências faladas: gamos, raposas, infantas.

Nenhuma hora e todo o tempo:
Mors non brevis.



II

Que tudo seja porcelana, é a humana graça possível
contra a fereza puríssima da pedra dos montes.
Casebre embora, palácio é cada corpo: jardim
incluso seu derredor, sua fantasmática
memória atroz, à frente da palavra.

Quem puder, salve-se do deserto
e ferocissimamente corra a paz
pútrida dos dias embestando cavalos
e cavaleiros, mais tarde
em cromo cerâmico fixados
à louça almoçadeira.
Sim (ita): razias e dias em noites de chá
e palacianos cânticos.

Como de pombas, largadas de ninfos donzéis
esfarrapam os ares frementes
que os espelhos-de-água recatam
tão virginalmente.

Frechas assobiem fendendo vísceras e recordações,
na recordação dos pergaminhos
copistas da aquém-vida não vivida
e antes de nada como que morta.

Um poeta saiba dizer uma imagem.
E seus versos moldurem gravuras.



III

Do palácio, arcadas de som: falas e tinidos
suspiros – não gente alguma, só retratos.

Nenhuma concupiscência e desejo algum
outro que o pela arte fotonarrativa.

Sempre de noite,
tudo.



IV

(Mitigo o meu pão e a minha mão
na manhã brutal nova: julho
frita em pleno voo os pássaros portugueses,
encalmadas velhas minimercam especiarias,
arautos de megafone anunciam um cristo por dia,
esgotos a céu-aberto fervem cancros,
mínimos cadáveres juncam a existência ribeirinha,
tramita rosas a minha mão panificadora,
ressinto da manhã a brutalidade carnal,
nenhuma gravura (nenhum verso) me
salvará do sorteio-de-cegos
megafonado como um ladrar de mastins,
marulha o pequeno comércio seus borborigmos,
uma mulher na rua fala só como nos fala
uma dor secreta, pensar
que mesmo velhas as mulheres
enfermam ainda da patologia dos cisnes,
imagino campinas onde a pérola negra de um touro,
e dele o harém de vacas alvinegras como
manhãs nocturnas, como
palavras cruzadas sem solução,
que pensa com a boca o próprio chão.)

V

Agora um pouco de eternidade: um
palácio na noite, azulejos de luz de febre
no veludo cenográfico da visão, um
gamo, uma
raposa, outra
infanta em defunção,
água e espelho e céu,
nenhum som no vasto jardim
de altos nigérrimos cedros
tais códigos de barras.

Sem virilhas os etéreos anjos venéreos
que a algum coito desamoroso subjazeram,
como os dois de que resultaram
a menina pianista e o senhor-menino hemofílico.

Sépias gravuram os Romanov, o Bertie-Eduardo VII,
o unto vilaviçoso do cinegético Carlos I e Último,
Cascais-anos-40 à espanhola para imitação de Guernica,
mas sem bombas francas,
muito Bourbon e muito Jack Daniel’s
e muito espumante cor-de-rosa
para entreter as meninas e
as monarquias de sapatilha-vela.

VI

(Ainda assim, na manhã de Viseu, julho-me
visões versejáveis, quebrados os rostos do vulgo beirão
em prol da inteireza numismática, fantasmática,
de efígies de coroa sem cara
vislumbradas na barra do código.)

VII

Pinta-se de azul a água vertical – e é
a alba.
Sardaniscam as últimas estrelas.
Papoilas, olhemo-las: a cor escarlate feita ímpeto
de lacre não álacre: tossida mão esquerda
de mordomo enluvado a branco.

Nigérrimos cânticos em lugar de amarelas valsas:
a música prostitui pretéritos, cardioarritmias,
baronesas sobrinhas de duquesas tias,
de quanta beleza é feita a tristeza
de um olho na noite mental.

Um dia esta casa arderá e será de noite,
carburados os gamos,
flamejadas as raposas,
reflectidas enfim as infantas,
que eu ardo
em vossa presente assistência,

esta manhã,
brevis.

2 comments:

Manuel da Mata said...

É urgente. Esta poesia vem da cidade sitiada, há que furar o bloqueio, há que publicá-la! è urgente!!!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Acredita-me, por favor, Manel: é para gente (pouca) como tu que escrevo.
Sempre que me apanhares um verso, acredita nisto: é teu.
Aquele abraço.

D.