Sunday, July 20, 2008

ACREDITO PIAMENTE QUE A ÚNICA ALTERNATIVA À POESIA SEJA O JAZZ


Fotografia: Movimento, © Sandra Bernardo,
Viseu, entardenoitecer de 16 de Julho de 2008 (Viseu-Caramulo)



TÁBUA

I. TERCETOS PARA UM DOMINGO DE JULHO
– registo de propriedades: uma anacroasia, enfim
Viseu, Café Avenida, manhã de 20 de Julho de 2008

II. MÚSICA PARA JAZZ EM INGLÊZAMERICANO DE NEWARK
Viseu, Café Paris, tarde de 20 de Abril de 2008





******




I. TERCETOS PARA UM DOMINGO DE JULHO
– registo de propriedades: uma anacroasia, enfim
Viseu, Café Avenida, manhã de 20 de Julho de 2008






O nosso rosto multiplicado em solidão
multiplica o inverno das praias
em pleno estio, em pleno passado.

O nosso fechar de olhos para ver
o mais fundamente a ossatura
dos móveis mortos por toda a casa.

As nossas mulheres masculinas
forçadas ao economato e ao recato
e ao gato e ao rato.

Os nossos homens ridicularizados em bicicleta
nos domingos-manhãs municipais,
tudo p’la saúde do contribuinte e p’la regionalização.

As nossas ruídas casas de árvores roídas,
na mesma intemporal manhã
feita de tanto defunto unto futuro.

O nosso alude portátil ante encostas
de serra torrada de sol argênteo
e branco e de cal e dado a febres.

A nossa estupidez civil toda dotada
de alfarrabista coração: entre linhas
de ferro e mica: arrenda-se quartzo.

O nosso tungsténio, o nosso volfrâmio p’ra nazis,
a propriedade hebraica do fado,
o em arabesco rumor da formiga negrárabe.

O nosso móvel (morto) da sala, onde
os historiadores mortos passam ’inda
a história, que nos não contempla.

As nossas-senhoras de baquelite
dando colo aos nossos-cristos de estearina:
e um vermute prò papá e um gelado prà menina.

A nossa ânsia refogada a barbiturismos,
as pessoas no palco esperando públicos,
a intermitência do reclamo das farmácias.

A nossa propriedade da morte
em contrato-promessa e palavra de honra:
interjeição prima de placenta, gritada.

Os nossos fórceps guiando a desmesura:
a alimentar, a erótica, a lírica.
A desmesura lírica, errática, aquém-mentir.

A nossa extrema pureza antes da sonora,
a seiva dos adolescentes como leite-de-figo:
e os psychés d’antigamente rangendo tranças e retratos.

A nossa naftalina traça viuvezes pretas pretéritas,
tais a barra de sabonete entre anáguas
e segredos do pai com a mãe e com o vinho.

As nossas melhoras febrilmente desejadas
por fabris famílias dormitórias.
E em torno o ar em sol maior do que a vida.

As nossas mulheres fabrilmente ensejadas
por fabris mobílias dormictórias.
E em corno o bar em sol menor do que o devido.

A nossa purista extremista concernindo os clássicos:
o Maranhão de Vieira, a tesúria de Bocage,
Herberto no Café Gelo, Martim Codax sabe Deus.

As nossas crianças tornando-se delas só e
depois só e sós como, afinal, nós:
e a beleza delas vivendo-nos nossos outonos.

Os nossos telemóveis esperando uma graça
prometida na bíblia dos engates, dos empregos,
do tio-damérica, do programa da noite.

Os nossos vídeos sem áudio
pedindo desculpa pela interrupção, talvez
o programa siga adentro os momentos.

A nossa derradeira oportunidade entre pássaros
absolutamente comedores como municípios,
atento o pão velho, o velho lar.

A nossa espera que dança sem spes nem dança.
A nossa barbitúrica, a nossa barbie, a nossa úrica
única condição terceteira – e actual.

O nosso preto no nosso branco: além,
na palavra por dizer, branco e negro.
Mas querendo, como nós, alguma paleta.

O nosso reversível recordar tanto:
julhos de areias granulando finissimamente
as cavas bolsas entre dedos-pés.

O nosso choque azulibranco ante o verde
mar de repente: gritos pobres: o do senhor-dos-gelados,
o da senhora-dos-bolos, o do cristo-psyché.

A nossa bola-nívea subindo a tostões
a cal azul do sol anil, daniel:
apropria-te desse julho, desse 1970.

A nossa tão pouca paciência para
ter lido (e sido, já agora) ’té aqui:
a nossa tão pouca vida tanta.

A nossa multiplicação da nossa praia,
o nosso invernamento de estios não já nossos:
e nós sermos do verso, da carne e dos ossos.

A nossa não-sesta (ninguém dorme) da noss’ esta
manhã: julho dá-se a longes sem mar.
mica, quartzo, tungsténio: importa exportar.

A nossa ida à praça e a nossa vida à pressa.
E Eça e Derrida e Foucault todo de cabedal
gayíssimo entre as palavras e os coisos.

A nossa consciência-mas-só-agora
de o António Variações rumo a New York
com a bênção de Deolinda de Jesus.

A nossa luz babando sombra (: um pouco
de talento ajuda à resino-fixação dos
pretéritos fundadores, como o amor.)

A nossa multiplicação, a tão vossa solidão
à nossa tão parecida, por outras palavras:
as mesmas ou não, as mesmas ou não?

O nosso não virem mais os nossos
mas irmos nós para quem eles não são
já – é uma porra, pensando bem.

A nossa arte sozinha: o nosso tanque
de cimento em enferrujada varanda.
E o nosso império – quando nada há.

O nosso-nada-há quando tudo
nos despertence graças-a-deus,
a começar pelo vosso rosto:

pouco provável aliás agosto
de algum julho que a menor sol
se traia e subtraia.

A nossa circunvalação covardíssima
a nosso mesmo coração: rotundo
lixo pulsador, entre lapsos e entardenoiteceres.

O nosso ter uma mãe viva entre cegonhas
que mortas embora voam e vão e vêm:
e vêem, caleidoscópicas, nosso furto de cores.

Os nossos instrumentos tocando ’inda
vosso infantil solfejo de coro eglísio,
que não tão ínclito quão isso.


As nossas não nossas quintas vistas de fora,
nossos alheios solares por falta de pecúnio sangue:
e a nossa colecção de mortos sem casa.

A nossa universidade seguindo a televisão,
entre telenovelas programando torgas
e andrades e sujeição.

E o nosso nada dadentro nos-olharmos,
nosso perlimpimpim cabocoimbrão:
o “problema” continua a ser a “produção”.

O nosso marce-dois éles-caetano,
o nosso abóbora-do-belenenses,
a nossa pidesca popularia fatimante.

A merda de país que somos.
A merda de país que somos.
A merda de país que somos.

A nossa barrosã esquerdice
dó-lá-ré-sol baladeira:
e a nossa fund’ afinal covardia.

A nossa área dá mais rotundas
que ministérios educativos, ai,
antónios-vieiras, que joões-roízes.

A nossa deixação-de-andar, o nosso
julho, o nosso não-ler, a vossa
igual sobremultiplicada indiferença.




Por nós, porém, é ’inda o nosso rosto
que em vez, em voz,
por nós pensa.

Chama-se, a multiplicação, Língua Portuguesa.
Chama-se, o rosto, Língua Portuguesa.
Chama-se, a solidão, Língua Portuguesa.

A Língua Portuguesa febrilmente nos enseja, deseja.
(Mas somos um país de merda, um país de merda
somos, somos, somos, somos todos um país de merda.)

Durante um julho qualquer, façamo-la nossa,
que a ela pertencemos, somos, estamos,
ruímos, roemos, aluímos, aludimos.

Somos somos somos
nossos ossos
sós, muito muito muito sós.


******


II. MÚSICA PARA JAZZ EM INGLÊZAMERICANO DE NEWARK
Viseu, Café Paris, tarde de 20 de Abril de 2008


de lírios o júbilo branco
e calçadas desertoras
o cheiro a aves voadoras
delírios e júbilo e branco

uma estrela de mão
de trás um banco de carro
frase queimando um cigarro
o inverno em pleno verão

minha mão esquerda
tua mãe no teu retrato
miudinha chuva de rato
mas merda mas que merda

sábados volvem saturninos
espetados mindinhos pinguem
ginjas anéis coralinos
somos tanta gente ninguém

brava heroína da dança
suor perla decote
nem p’la vida nem p’la morte
não desiste só se cansa

dominó só som acrílico
petrifica a minha vida
faz-me pau faz-me fálico
traz lírios prà despedida

(trompetista sentado apogiatura
trémulas aves tão bemóis
que da lunar estelada altura
soam cristalinos sóis)

há pastéis de salmão
não cuspam mais na serradura
a vida é dura loucura a condição
do salmão a vida é dura

na noite um brilho azul
é dos olhos da senhora
jesus-menino manjedoura
mares do norte mares do sul

(piano descompassa a apresentação

silêncio
tacet
quase indignado
do resto da banda

o piano:
coração-chove-cerejas-sangra-tardes-sangra-morango-nunca-te-perdoarei-o-domingànoite-final-de-todos-os-meus-inícios-todos-os-meus-precipícios-sou-um-só-um-sóssábado-na-noite-do-mais-recenteterno-domingo)

tules lacas líquenes
oxímoros úmeros números
ossos fácioneuros rictorítmicos
há menos líquenes oxiúros

venha chegue engorde a renda de casa
venha a gente quer morar por depósito
venha o saxtenor a dar compósito
ao grão à asa ao grão na casa

a vulva da mulher é pudimdama
é poronde vai sendo mulher dona de cama
o toque de um homem é de bares
já viu aeroportos e rodogares

(entra, contra, abaixo, o digital é
como a guitarra de portugal
mas mais e no mais em portugal
entra o contrabaixo:

zum zam dedo dedo digital
isté jazz base portugal
isté cromática diferença
jazz nunca é coisa que se pensa
lourença marquescoisa ana luanda
cidade da praia da mais branca
anda e não anda
sabor do oceano
é ter tempo e momento
é respirar ó se ano
qual ano qual ano qual ano)

No comments: