Tuesday, July 15, 2008

E. O. – prosas quase versilibristas






Textos: Viseu, de 7 a 11 de Julho de 2008
Fotografias: Viseu, entardenoitecer de 10 de Julho de 2008


1. COMO SER FELIZ EM COISA DE HORA E MEIA
- uma profilaxia ambulatória mais –

Café Twins, tarde de 7 de Julho de 2008



Euforia oceânica, já muita sofri em terra firme longe do mar.
A visão de algum arvoredo, o vento lhe dando, é quanto me basta à espécie.
Também pratico o dia-a-dia, mas cada vez menos.
Uma volta solar pela cidade – e de repente, tal clarão, um arvoredo eólico marinha-me o instante, que à passagem se recusa e fica, ante o vento aeróbico do antefim da tarde.
Na boca, o pó e o cuspo argamassam já o texto-em-breve.
As calças imitam as pernas, cuja sombra estende panos rápidos na pedra do chão.
Estou vivo.

De manhã, ouvi a música de Aaron Copland, depois a de Hanns Eisler.
Na saleta, o tempo era alimentado a móveis.
Não enverguei os óculos, pelo que uma ameaça de dor de cabeça correu comigo dali antes de poder ouvir Schoenberg jogado ao piano por Gould e ao violino por Menuhin.
Fiz-me à rua, o Sol refrescava as casas religiosas, condenava à humidade as tabernas (onde o coração se torna esconso) e as retrosarias (onde as ferramentas de coser miniaturizam as mães recordadas), libelulizava os peões insignes deste tempo sem glória.
Fui a um bazar chinês, comprei este caderno, entrei no café e dei-me uma hora e meia para ser feliz.
À esquerda de quem entra, a máquina do tabaco espera pelos respiradores de resina.
Ainda é cedo – e é já tão tarde.
Dois homens sem angústia conversam entre copos de cerveja sobre licenciamentos camarários de obras pela porta-do-cavalo: não são burros.
Uma mulher, grossa e alta como um pneumático de tractor, ingere chá com banda sonora labial.
É de sardas moles no decote bambo, pés de pele de quartzo em sandálias de menina anacrónica, nádegas aluídas que gelatinam quando tosse, jibóia ventral brotando da blusa insuficiente.
Ao balcão, um bigode grisalho tasquinha tremoços.
Ao lado, muito impaciente (um feixe de nervos farpados), a esposa do bigode faz-me (d)escrever: perna dietética, emagrecida do mau sexo e pior perspectiva.

Longe daqui, suponho o mar enrolando suas tranquilas ânsias.
Estamos no Verão, é o tempo das conas-de-plástico e dos tarzans-de-pêlo-nas-costas.
Pelos areais, longe daqui, vereadores e gansos a recibo-verde patinham já a incompreensão cosmogónica que resulta do espectáculo oceânico – e da sua desumana euforia, como a que sofro ante qualquer arvoredo.
Cheguei a uma idade dotada da amarga bonomia de ver ao longe o que é próximo: e dentro, o que só longínquo tem sentido.
Bastar-me-ia tão pouco, que nada é tudo que tenho.
Ao Sol do fim de tarde, é certo que me salvo pela incursão, por assim dizer almóada, nos cristãos descampados da cidade.
Divãs de loja suportam almofadas cor-de-limão.
A senhora do balcão tem os dentes todos.
Uma criança dá-se a galinhar íntimos labirintos entre mesas.
Um amigo meu trouxe ontem damascos da aldeia dos pais.
Ali, uma árvore fulgura seu mesmo cartaz.
A morte conspira nos interstícios das falas – ou a fadiga por ela, não sei.
Sei que devo trabalhar, entrar nisto sempre e para sempre.
Ser feliz, mesmo sem cronómetro à vista, não é tarefa pontual, mas ofício cosmológico de rés-do-chão: aqui onde pensamos e vivemos, aqui onde pensamos que vivemos.

Alguns objectos, agora:
um cinzeiro de faiança branca patrocinado pela firma de hotelaria FL;
uma caixa de enrolar tabaco em um par de mãos brancas como a neves dos documentários-TV de sábado de manhã;
de um olhar indígena, a sombra materializada em coruscação de montra;
súbita na língua, a palavração dos substantivos cedro e cipreste (mais, deles e dela, a patogenia morbimelancólica);
caules de ferro dando corolas de tampo de mesas;
uma criança exercendo a inocência da morte e a culpa do nascimento;
a vulgata astrológica do calendário de parede;
o fedor a humanidade e a democracia sem livros,
rápidas na retina, andorinhas fogodartificiando fulminantes violínicos;
a hemorrosa da sombra pelo chão, agravada pelas calças dos que escrevem;
e um azulejo com uma quadra portuguesa receitando a felicidade por hora e meia.



2. ENTRE REFEIÇÕES
- algumas enumerações ortoépicas –


Café Mundial, acabada a manhã de 8 de Julho de 2008



O pão é de ontem.
Sobre a folha de mármore, o pão espera a consumpção.
O vinho demora, arquivado em vidro vertical.
A nova tarde fulgura já nos vidros faciais da casa.
O muito não poder abre todas as possibilidades.
Sou provavelmente portador de um coração inconsútil.
Tu és seguramente uma pessoa a norte de ti mesma.
A tristeza é uma gota de água, uma-duas-mil-a-mesma, uma bacia de plástico mental.
O coração dá-se, não doce, à condição de cisterna.
Revolução Industrial, não Pessoal.
Uma terça-feira, os noticiários ardendo de febre, os comboios suburbanos levand&trazendo as formigas.
A realidade como um filme deixado a gravar em casa alheia.
Os nomes muito vivos de uns poucos mortos.
Os mortos vivendo muito.
O filme com eles.
A irrisão, a metafísica, o pão já velho.
A não benigna bonificação das taxas de crédito, sua falaciosa etimologia, seu ai-se-de-ti-de-pêssego.
A febre controlada a golpes, embaciados eles também, de bebida fria, à calma.
O instante nervoso (hípico) de um comboio arrestando a chegada.
A ossatura de uma ex-fábrica.
Uma colecção de esferográficas finas: vermelho-verde-azul-preto, benfica-sporting-porto-académica.
A fundamental insolvência: e a irrisão e a lápide e o espaldar e a palavra.
O branco quase azul do cabelo daquela mulher velha.
O pergaminho do rosto dela: e o coração dela de ontem como um pão, como um palimpsesto interpugilar.
A minha respiração canhestra: já só o pulmão esquerdo, o do lado do coração.
O serviço nacional de emergência sem consequência regional.
Nenhuma dúvida ávida mais: pelo contrário, certezas mínimas, certeiras – e bebidas frias, canhestras.
O Sol na pedra do largo, onde outrora, no futuro breve, a chuva.
O teu amor num teatro perto de mim.
O perdão nenhum, o argentino fervor do buscador de ouro.
O vietname particular de uma ida à mata.
A uretra muito plasticina cuspinhando ureia (o braço esquerdo segurando o muro da quinta privada, um que outro passando nas costas do solitário mijão).
Um cigarro fumado como um pensamento – como uma recorrência filtrada.
Ontem é pão.
Tomai-o e comei-o todos.
E esta é a língua portuguesa, enumeradora-mor do muito não poder.



3. NÃO HÁ PRESSA, NÃO À PRESSA

Café Avenida, manhã de 9 de Julho de 2008



Toda a autobiografia é precoce – para não dizer falsa, já que lhe sobra em auto o que lhe falta (ainda) em morte.
A biografia é sempre mais definitiva quando iluminada (e fixada e legislada) pelo passamento físico.
Ocorre-me esta verborreia em um fim de manhã muito lúcido e muito lúcida: o fim como a manhã.
“Pagar e morrer, já o dizia o meu avô, quanto mais tarde, melhor” – diz-me o senhor Luís, empregado de mesa & balcão do Café Avenida.
Sorrio-lhe em concordância.

Sinceramente, isto da morte e das autobiografias é fruta de todo(s) o(s) ano(s).
Nem tem (julgo, suponho, congemino, atiro) grande coisa que se lhe diga.
A autobiografia de Agatha Christie não esclarece os dias que passou desaparecida, na sequência dos cornos conjugais que lhe apôs o primeiro e penúltimo marido, Archibald.
Georges Simenon vinga-se, à força toda, nas Mémoires Intimes, de D., segunda e penúltima esposa dele, na sequência politraumática do suicídio da filha, M.-J.
Phyllis Bentley (a inglesa senhorinha que postei muito na Terminação do Anjo) escreveu-se em O Dreams, O Destinations com defeito de dezasseis anos: autobiografia conclusa em 1961, óbito real em 1977.
Mas sinceramente: vai claro o fim da manhã, poalha de água asperge-se a si mesma na fonte da rotunda, comprei este caderno nos chineses, deram-me esta caneta o Paulo & a Paula Rosa no Louriçal, onde D. João V, há mais de quinze dias e há mais de vinte anos, mandou se erigisse um convento para as Clarissas do Desagravo do Coração de Maria, senhoras que se vestem de garrafa de champanhe a preto-e-branco.

É o país do Sol, da manhã que foi – e da tarde que será, a tarde propedêutica da noite.
Sobre o cesto da roupa para lavar, na casa-de-banho, o segundo volume do Trabalho Poético de mestre Carlos de Oliveira sustenta o leitor sentado em louça.
O quotidiano esmifra os corpos de toda a atenção.
Eu exerço a atenção.
Anthony Burgess, em tradução francesa (Rome sous la Pluie) de Beard’s Roman Women.
O número 1 da Criatura (Fevereiro de 2008, Lisboa).
Prosa de Rilke, também há e também é: Histórias do Bom Deus e Outros Textos (nº 178 da Colecção Dois Mundos da Livros do Brasil).
Nada, portanto, me falta.
Nem a vida nem a morte.
Na estante, em baixo, ao rés do chão povoado de gatas, fotografias de 1984: Grupo Cultural Pedrulhense em acção, noite de fados, ninguém tinha morrido, eu tinha feito os primeiros, que não afinal penúltimos, vinte anos.
Digo isto assim porque posso.
E porque devo.

No televisor do café, os filhos-da-puta do costume.
A “dignidade” deles.
A dignidade filha-da-puta dos dignos filhos-da-puta.
As gravatas deles.
A moralidade dos gajos.
A farturinha digestiva dos gajos.
A mordomia dos cabrõezinhos.
O altar dos santinhos.
A aura politiqueira.
A evidentíssima corrupção.
A autogovernança, bera e vera como falsa é toda a autobiografia.
A caganeira portuguesa (única que de facto me interessa, pois que estimo bem se fodam as Filipinas, o Sudão, a Eslovénia e Washington D.C.) deles.

Escoro a minha vida com livros – já alhures o disse, aqui o repito.
É dia nove, é mês de Julho, é irrelevante o ano.
E a vida é para ser combatida até à morte: sem pressa, na praça.
Na praça pública, pública desde que lida, escrita e publicada.
Devagarinho, amor.



4. ASSUMPÇÃO DO AR VIVO, ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO

Café Mundial, tarde de 9 de Julho de 2008



A joy flows my veins through,
o que não é de somenos importância.
O frio mármore data a reminiscência.
A palavra institui-se, também through.

De Levante a Poente, misericórdias.
De Sul a Norte, a morte e de vime cestos.
A realidade é tanta, que até zune.
Sou muito dado a palimpsestos.

Finalmente é agora, finalmente.
A importância maior é ter (sido) amado.
Num lumbre de corrida, um breve fado,
gasóleo a tantos, que gasta a gente.

Isto que se levanta no coração
como um animal tendo dormido.
Um fólio de História, um garrafão
e um ser-serei no ter-já-sido.

Saio cedo de casa, corpo lavado.
Derivo à esquina, mui pobre e sério.
D’ esconsa janela já zune um fado
d’ antigo transístor, Família Silvério.

Corto à padaria, Largo Major,
ambulo calças de vinco mole.
Se já na vida eu fui melhor,
pior sou não já eu, sou Daniel

como meu Pai, daí o baptis-
mo tido por conta-pia-bentinha.
Mas quand’ el’era, er’ eu feliz,
menino e tudo entr’ a gentinha.

Isto é tão fácil, que nem merece
de estrofe curta explicação.
É ver o País votar pêésse
e depois botar remorso, o cabrão.

Antigamente, a fadistagem
(copos-de-três e navalhada)
dava do País a fraca imagem
d’ infecta lavagem e mais nada.

Agora, não. Agora é tudo bom.
As flausinas já cantam todas.
Levam a saudade ao cabeleireiro
fígaro-bodas e vígaras fodas.

Agora, não. Agora é tudo bom.
Ele há até já telemóveis.
Plugga-se as crianças ao som,
credita-se à’quisição d’ imóveis.

Na campa do Salazar,
’’nda não fui (irei) cagar.
Os filhos-da-puta assassinos
nascem já velhos, nunca meninos.

(Trocarei o bordado móvel da gaivota
pela dinâmica profana da tua boca.
Tenho toda uma infância no prego.
Serei o combatente invencível ante ti.)

(Um flúor de rosas amarguradas
castigará nenhuma outra penitência
que a da calma, mesmo q’a paciência
de vindas idas pessoas voltadas.)



5. CATORZE VERSOS P’RA DOIS GAJOS
- por isso se calhar é um soneto ou o caraças –


Café Avenida, fim da tarde de 9 de Julho de 2008



Da humanidade ressuma o chão seus dela vapores,
cheira a passagem a framboesas e a morais.
Na cidade é hirta a mort’ idade, amores,
amores, p’s’tá claro, amorosamente imortais.

Não creio. Falo com a caneta. Sei, porém, d’ amigos,
outros testemunhos e mais outras circunvalações.
Não chega a ser um homem ter colhões,
mas ter amigos, homem, ter amigos.

Nunca mais quero ser eu quanto mais não fui.
Tenho um amigo Fernando e um amigo que é Rui.
De resto, faço jazz calado, olhando as fontes.
Se de repente me apontassem horizontes
e (pior) m’ assim dissessem – “Nunca foste aonde fui”,
mais bem redarguiria – “Ó Fernando, ai, ó Rui”.



6. CALIGRAFIA

Ibidem



Lírio lírio palavra minha do campo
botânica bíblia do senhor do meu coração
tece uma aranha de gaze na ponta dos dedos
uma vez na vida uma vida na minha vez.

Sabes do meu gosto pelo cheiro do mar
essa descomunal bufa de espuma na cara
da criança. Poderia lírio lírio dar de rosto
aos mal casados às más parturientes e ao azar.

Tenho nas costas toda uma tradição literária
como uma gaja que me enganou e era homem.
Mas respeito as minhas contas e os donos dos cafés.
Ainda hoje eu vi e ’ind’ era ontem lírio.

Os pés são (ainda) mais pobres do que o resto do corpo.
Modulizaram subvidas, craterurbanizações.
É triste olhar em torno a arquitectura.
Os bares mais pequenos pagam a melhor música.

Século XXI – tanta porra p’ra isto e eu sem passaporte.
Tenho umas moedas de ferro, uma educação.
Mantenho lápides vivas ao alcance da mão.
Dá-me azar crer muito na sorte.

Um telefonema pode ascender a poema.
Se não pedido, mais ainda agradecido.
Olha a minha língua na minha boca:
se de noite-dia, olha-me à Lua a caligrafia.

******

Depois é outra vez Junho, outra vez 1978.
A coca-cola entra na vida à força toda.
O meu Pai colecciona calendários como
transfusões de sangue.
A minha Mãe deita contas à mercearia e aos
filhos e à loja aberta que é viver sem horário
de encerramento, até que.
Até que tudo se torna agora, este papel,
esta muita leitura de Rilke, a solidão de
Duíno, os loucos anos-20 para quem era
fotografável na afinal pobre aristocracia
da Agatha, pimba, Christie.
Outra vez, quê? Julho, 2008. Este
ano não me praiarei com minha
Mãe, azulíneolongitunais as barracas
pagas por ofício de meu Pai.
As crianças e isso: as da amorosa
fornicação de meus irmãos, alheios
na minha bibliófila noite de mais
novo.
Espera. Isto é uma prosa. Não tens
de desencadear um coração à guisa
de granada. Nem tudo nem nada. Agora.



7. UMA ESPÉCIE DE E. O.

Café Avenida, fim da tarde de 11 de Julho de 2008



É pelo fim da tarde.
Sofro a extrema doçura do crepúsculo.
Sabe-me a saliva doce, a água da fonte.
Ainda me extasio, ente, ante o poente.
Sou muito dado a tais mariquices: a tenda solar, a gravidade pensativa das árvores, as pessoas compactadas na casa do olhar, os ladinos cãezitos que levitam quase na pedra amolecida pelo calor, uma rapariga morena como uma rumba erótica, a manipulação mental das jóias dos órgãos no estojo do corpo, a lembrada carta de um amigo, cada boca metaforizada na cereja fendida e no morango osculador, as senhoras mãe e filha à janela da Avenida Capitão Homem Ribeiro, à outra janela o macho gato Bijou, o veludo da noite amaciando por dentro o coração enumerador, a pressão viva do sangue catedralizando as abcissas das costelas, a noite na cidade como dupla cidade na noite, a música interior feita pura bonomia, e a esperança no novo dia desde menino, isto no meu coração quando anoitece, o xadrez de tanta palavra no tabuleiro da nossa cara, o amor vivo dos mortos de cada um como lousas de mármore num relvado peripatético, o teatro dos gestos, o rancor de estimação aos filhos-da-puta, a jaqueta de ganga desta rapariga que eleva o cálice de café à-cereja-ao-morango-bífido da boca, a despesa paga em moedas pessoais, o trânsito das pernas na aquasfera dos sonhos, a voz de Manuel Freire sabendo que o sonho é uma constante da vida, o gandarês Carlos de Oliveira recolhendo da chuva a abelha da solidão, o senhor Luís Filipe Costa tirando a borboleta da gaiola, a dignidade insofismável da tristeza – e o início da noite, quando tudo há e nada é, então que, pelo regresso a casa, ante os olhos azuis da minha companheira, me dou todo a uma espécie de euforia oceânica.

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